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sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Discos para história: Abbey Road, dos Beatles (1969)


História do disco

O que era apenas um temor foi ganhando força com o passar do meses. Inseridos em brigas, ressentimentos e desgostos pessoais, os Beatles caminhavam para o fim em 1969. Meses antes do lançamento da trilha sonora da animação "Yellow Submarine", a banda entrou em um complexo projeto que envolveria ensaiar novas músicas para um projeto que envolveria um documentário de nome provisório "Get Back".

A ideia, para variar, nasceu de Paul McCartney e seu desejo de tocar ao vivo. E o período de ensaios era muito curto -- um mês para ser exato. Então, mão na massa. Mas ainda havia muito ressentimento do período da gravação do Álbum Branco, quando Ringo Starr pediu demissão e só voltou semanas depois. Se McCartney queria tocar ao vivo, John Lennon e Yoko Ono estavam viciados em heroína e não estavam nem aí para muita coisa a não ser eles mesmo. Mas o mais insatisfeito de todos era George Harrison.

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Harrison foi o que passou por mudanças mais profundas em sua personalidade desde o início do grupo. De chamado o 'beatle quieto', ele buscava, em vão, ocupar mais espaço na hierarquia dominada por Lennon e McCartney. Em contato com Bob Dylan e a The Band nos Estados Unidos por algumas semanas, ele percebeu que não precisava estar em turnê para fazer boa música e que quanto mais simples era a estrutura de trabalho, melhor a satisfação pessoal no resultado. O que não era o caso nos Beatles. Certo dia, durante a gravação do documentário, ele brigou com McCartney -- essa ríspida discussão aparece no longa. Mais discussões aconteceram até que o guitarrista pediu demissão.

Em um resumo bem resumido, Harrison voltou, o projeto andou -- ainda que aos trancos e barrancos -- e resultou no famoso show no telhado do prédio da Apple. Mas, fora da música, o caos financeiro reinava e decisões precisavam ser tomadas não pela banda Beatles, mas pelos homens de negócios Beatles. Nesse momento, a situação só piorou. De um lado, McCartney queria o envolvimento do sogro, Lee Eastman, nos negócios. Do outro, os outros três -- por influência de Lennon --, acertaram com Allan Klein, empresário dos Rolling Stones.

A primavera de 1969 foi cruel com a banda, afastada da música desde o início do ano e envolvida nos negócios. Vendas de direitos das músicas, brigas entre acionistas, mágoa... Tudo isso foi sendo colocado à frente do trabalho musical, que só voltaria a acontecer em abril, quando "Get Back" e "Don't Let Me Down" foram gravadas, produzidas e editadas. Dias depois, Lennon, McCartney, Geoff Emerick e George Martin voltaram aos estúdios em Abbey Road para gravar "The Ballad of John and Yoko". Era o primeiro retorno deles desde as tumultuadas gravações do "Álbum Branco". Nisso começou um período bem fértil de trabalho dos seis, resultando em "Old Brown Shoe", "Something", "I Want You", "Oh! Darling" e "Octopus's Garden -- duas de Harrison e uma de cada dos outros três.

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Mas, durante um desses dias de trabalho, McCartney se recusou a assinar um contrato para dar a Klein a representatividade total do grupo e porções generosas de tudo que envolvia os Beatles. Os quatro começaram a brigar. No dia seguinte, o baixista chegou com o esboço da letra "You Never Give Me Your Money". No fim de junho, os Beatles estavam em férias, mas McCartney se mexeu para começar a gravar um novo álbum quando ligou e perguntou se Martin estava disponível. O produtor, magoado com o que estava acontecendo, disse que só produziria se pudesse trabalhar direito, não apenas receber ordens de "pessoas que estavam sendo desagradáveis para os outros e para eles mesmos". As únicas exigências feitas, no fim, foram trabalhar em Abbey Road e ter Emerick como seu engenheiro de som -- ele havia saído da EMI para Apple, gravadora dos Beatles.

As coisas não começaram bem quando John e Yoko sofreram uma grave acidente de carro na Escócia, permanecendo uma semana no hospital. Sem os outros dois, apenas McCartney apareceu para trabalhar no primeiro dia de gravações. No dia seguinte, Harrison e Starr apareceram, então acabaram trabalhando como um trio em diversas canções. Lennon só voltaria bem depois. E, com ele, as discussões retornaram. Martin tinha uma ideia de disco que McCartney até que gostou -- algo mais sinfônico e ousado, como "Sgt. Peppers...". Isso foi vetado por John, que desejava algo mais simples. A discussão levou à proposta de Paul: cada beatle colocaria no disco as canções que mais gostasse no lado A, enquanto ele e Martin trabalhariam em algo mais elaborado para os últimos momentos do trabalho no lado B. Também acertaram que só gravariam juntos se "extremamente necessário". O clima era péssimo quando os quatro estavam juntos, e o último momento de John, Paul e George juntos em um estúdio foi na gravação dos vocais de "I Want You (She's So Heavy)".

A banda em ruínas se confirmou quando, em uma reunião, Lennon anunciou aos outros três e a Klein que "queria o divórcio". A ponto de conseguir um novo contrato e negociando recebimentos com relação ao espólio, o empresário pediu segredo por parte deles até que tudo fosse sacramentado em contrato. Ainda sendo formalmente uma banda, compromissos precisavam ser cumpridos. Entre eles, a fotografia da capa do que viria a ser "Abbey Road".

A concepção da capa foi ideia de McCartney, então várias fotos e poses foram feitas até o resultado final: os quatro atravessando a rua em um movimento que encontra eco nos fãs e na cultura pop até hoje. Cada um de um jeito, eles já não representavam uma unidade com sonhos, desejos e irmandade, mas apenas um pálido retrato de um grupo que mais retratava indivíduos, suas camadas e complexidade do que qualquer coisa referente à união. Mesmo assim, o amor pela música ainda fazia com que qualquer mágoa fosse superada.

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O nome do trabalho veio da pura falta de opção misturada com desinteresse e uma pitada de eles, naquele momento, terem uma noção de que poderia ser o último álbum deles juntos como uma banda. Lançado em 29 de setembro de 1969, Abbey Road dividiu a crítica pela primeira vez. A maioria elogiava muito os últimos 15 minutos de álbum, mas sentia falta de uma obra coesa e cheia de referências estéticas. Mas o público não quis saber e ajudou a manter o trabalho nas 17 semanas seguintes na liderança das paradas britânicas e por 11 do outro lado do Atlântico.

Esse disco, mais do que nenhum outro, mostrou ao mundo o que cada beatle era capaz de fazer sozinho. Tanto é que, no ano seguinte, todos lançaram trabalhos solos e expuseram ao mundo exatamente a imagem que passaram no apagar das luzes do que era estar nos Beatles.


Resenha de "Abbey Road"

Inspirado pelo slogan de campanha de Timothy Leary ao governo da Califórnia, "Come Together" ganhou muito quando McCartney sugeriu uma mudança no arranjo que a deixasse menos parecida com um blues à Chuck Berry e fosse mais lenta, quase rastejante. Uma faixa formada por versos não sequenciais, a abertura do álbum mostrava bem como cada beatle tinha uma cara própria e estava disposto a mostrá-la nesse trabalho.

Caso exemplar é "Something", a primeira obra-prima musical de George Harrison na banda. Perfeição é o que define a letra e a melodia. E vinda de alguém que passou anos refinando o próprio repertório sem ter uma chance de ter seu trabalho em um álbum, finalmente o reconhecimento tardio viria ao ser aclamado com um dos melhores compositores de sua geração.



Depois dessa obra de arte em forma de música vem a bobinha "Maxwell's Silver Hammer", canção que John Lennon se opôs do momento em que a ideia surgiu até o dia da gravação. McCartney queria falar sobre as quedas da vida e como as coisas acontecem do nada, mas os outros três ficaram quase doidos com a insistência dele na faixa. Foram três dias de transtornos e irritações até que tudo ficasse perfeito. É a típica faixa que apenas McCartney poderia dedicar tanto tempo a ela, enquanto "Oh! Darling" soa um desabafo sobre abandono -- o que muitos supõe ser do fim da relação íntima com John Lennon.

Segunda música escrita por Ringo para fazer parte de um álbum dos Beatles, "Octopus's Garden" contou com ajuda de Harrison na composição. É uma música muito Ringo, o que a torna bastante especial para momentos mais despojados e cheios de alegria. "I Want You (She's So Heavy)" fecha o lado A com um resumo do que seria Lennon daqui por diante na carreira: a busca por uma simplicidade em que ele pudesse ir além, porém dentro de uma mesma ideia. É uma faixa estranha, mas não experimental. É uma canção narcisista, no fim das contas. Típico de Lennon.



O lado B abre com outra obra-prima de Harrison. "Here Comes the Sun" nasceu após um dos muitos dias de briga em Abbey Road. Após um deles, o guitarrista foi até a casa de Eric Clapton para desabafar. Quando o dia estava nascendo, ele compôs os primeiros versos da incrível canção que fala sobre como o sol sempre nasce após um dia de desilusão. É um recado: viva um dia após o outro que depois da tempestade vem a bonança. A última canção gravada para o álbum foi "Because", inspirada em parte quando Yoko Ono estava no piano e em outra parte no que Brian Wilson havia feito nos Beach Boys.

Nascida em um dia de fúria de McCartney, "You Never Give Me Your Money" é a biografia musical de uma banda agonizante em meio a brigas por controle, ego e mágoa de parte a parte ("You never give me your money/ You only give me your funny paper/ And in the middle of negotiations/ You break down").



A parte final começa com a bonita, melódica e muito delicada "Sun King", uma sobra de material de Lennon dos tempos em que eles estavam na Índia. Depois vem a agitada "Mean Mr. Mustard", faixa sobre um morador de rua que guardava dinheiro no reto. A contribuição de Lennon termina em "Polythene Pam", uma complexa história sobre um lavrador de Liverpool -- eles reproduzem até o sotaque da região. Ela emenda com "She Came In Through the Bathroom Window", sendo essa a primeira vez que os dois lançam músicas que se completam, mas estão separadas. A letra bem humorada fala de como uma fã invadiu a casa de McCartney pela janela do banheiro.

Depois vem o lado mais dramático do álbum com "Golden Slumbers", sendo parte do trato com Martin para algo mais grandioso dentro do álbum. Ela emenda com a brilhante "Carry That Weight", que emenda com "The End". Essa última conta com a participação dos quatro em um momento único, para fechar da melhor maneira (musical) possível. E conta com um dos melhores versos da musical mundial deste planeta: "And in the end/ The love you take/ Is equal to the love you make". Por fim, "Her Majesty" deveria ser jogada no lixo, mas o engenheiro John Kurlander, instruído a nunca jogar nada fora dos Beatles, colocou na parte final para guardá-la. McCartney ouviu no dia seguinte e deixou como estava.

De fato, "Let It Be" foi o último álbum dos Beatles, mas isso pertence de direito a "Abbey Road". Último suspiro de uma banda em declínio, o trabalho é o testamento de quatro homens esgotados e prontos para seguir seus respectivos rumos. "The End" encerra com maestria a trajetória da maior banda de todos os tempos.



Ficha técnica

Tracklist:

Lado A

1 - "Come Together" (4:19)
2 - "Something" (George Harrison) (3:02)
3 - "Maxwell's Silver Hammer" (3:27)
4 - "Oh! Darling" (3:27)
5 - "Octopus's Garden" (Richard Starkey) (2:51)
6 - "I Want You (She's So Heavy)" (7:47)

Lado B

1 - "Here Comes the Sun" (George Harrison) (3:05)
2 - "Because" (2:45)
3 - "You Never Give Me Your Money" (4:03)
4 - "Sun King" (2:26)
5 - "Mean Mr. Mustard" (1:06)
6 - "Polythene Pam" (1:13)
7 - "She Came In Through the Bathroom Window" (1:58)
8 - "Golden Slumbers" (1:31)
9 - "Carry That Weight" (1:36)
10 - "The End" (2:05)
11 - "Her Majesty" (as a hidden track) (0:23)

Todas as músicas foram compostas pela dupla Lennon-McCartney, exceto as marcadas

Gravadora: Apple
Produção: George Martin
Duração: 47min03s

John Lennon: vocal, vocal de apoio, guitarra, violão, piano, teclado, sintetizador Moog, efeitos e percussão
Paul McCartney: vocal, vocal de apoio, baixo, guitarra, violão, piano, teclado, sintetizador Moog, efeitos, percussão, palmas e espanta-espíritos
George Harrison: vocal de apoio, guitarra, violão; baixo em "Maxwell's Silver Hammer" e "Golden Slumbers/Carry That Weight"; sintetizador, palmas e percussão; vocal principal em "Something" e "Here Comes the Sun"
Ringo Starr: bateria e percussão; bigorna em "Maxwell's Silver Hammer"; vocal de apoio; vocal principal em "Octopus's Garden"

Convidados:

George Martin: cravo, órgão e percussão
Billy Preston: órgão Hammond em "Something" e "I Want You (She's So Heavy)"
Orquestra da EMI: instrumentos diversos



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