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sexta-feira, 26 de julho de 2019

Discos para história: Circense, de Egberto Gismonti (1980)


História do disco

Egberto Gismonti é um dos músicos brasileiros mais criativos de sua geração. Com uma clara influência do jazz e da ópera, ele conseguiu acrescentar diversos gêneros musicais no repertório ao longo dos anos. Da música tradicional dos nativos brasileiros até o samba e choro carioca, passando pelo frevo, baião e forró.

Pode não parecer, mas a carreira de Gismonti começou como pianista e maestro ainda nos anos 1960 e ele também esteve em momentos fundamentais da música brasileira, como o 3º e do 4º Festival Internacional da Canção, com as composições "O Sonho" (1968) e "Mercador de Serpentes" (1969), respectivamente. Também em 1969, ele lança o primeiro disco pela "Elenco". Um ano depois, mudou de casa e "Sonho 70" sai pela Polydor.

Mais discos dos anos 1980:
Discos para história: As Quatro Estações, do Legião Urbana (1989)
Discos para história: Raising Hell, do Run-D.M.C. (1986)
Discos para história: I’m Your Man, de Leonard Cohen (1988)
Discos para história: Ney Matogrosso, de Ney Matogrosso (1981)
Discos para história: Pornography, do The Cure (1982)
Discos para história: Psicoacústica, do Ira! (1988)


Mas foi na Europa que acabou vivendo sua fase mais criativa. Com seus estudos cada vez mais aprofundados em música instrumental e em como transformá-la em algo único de seu ponto de vista, acabou sendo rejeitado por diversas gravadoras brasileiras. Ao mudar-se para o Velho Continente, descobriu que havia gente interessada nesse tipo de música e lá conseguiu lançar alguns de seus trabalhos mais inventivos e interessantes do ponto de vista do mais puro experimento musical

Dá para dizer que Egberto Gismonti é quase um cientista da música, alguém com uma incrível capacidade de fazer ligações com instrumentos tão diversos que qualquer um fica bastante espantado ao ouvir. A questão é como ele consegue fazer isso? Só ele mesmo para responder essa pergunta. De volta ao Brasil, foi morar com a tribo Iaualapitis, do Alto Xingu, para estudar a música local com a condição de explicar ao mundo a cultura e o que eles estavam fazendo ali.

Veja também:
Discos para história: Le Roi de La Bossa Nova, de Luiz Bonfá (1962)
Discos para história: Carlos, Erasmo, de Erasmo Carlos (1971)
Discos para história: Aracy de Almeida Apresenta Sambas de Noel Rosa, de Aracy de Almeida (1954)
Discos para história: Make Yourself, do Incubus (1999)
Discos para história: Them Crooked Vultures, do Them Crooked Vultures (2009)
Discos para história: Technique, do New Order (1989)

Lançado em 1980, "Circense", é o auge da carreira do instrumentista brasileiro. Foi nesse momento que ele conseguiu pegar todo o aprendizado em quase 30 anos de carreira para materializar seu melhor trabalho. Dono de uma discografia muito sólida. Gismonti não ficou parado e aprendeu o máximo que pôde com outros músicos e culturas, gerando uma obra-prima que precisa de calma para ser digerida. Mas é fundamental para entendê-lo.


Resenha de "Circense"

O disco abre com a animada "Karatê", que apresenta um forró com instrumentos mais clássicos e diferentes do que estamos acostumados a ouvir no gênero. Mas tudo funciona como na abertura de um espetáculo circense, em que é necessário muita energia logo de cara para empolgar o público. Também como em um bom circo, temos uma faixa dramática. No caso, "Cego Aderaldo" surge e é bem tensa por mais de seis minutos, tempo em que podemos ouvir toda qualidade do músico em fazer arranjos que prendem a atenção das pessoas.



Já "Mágico" carrega um tom quase místico ao longo de seus mais de sete minutos em um arranjo muito bonito e melancólico. É quase como se ele quisesse mostrar alguma coisa, mas, sem conseguir transformar em palavras, apenas começa a tocar e apresenta isso. Mas é em "Palhaço" que é possível ouvir como Gismonti consegue construir algo só eu usando como base o blues. As crianças ao fundo dão todo charme à faixa, enquanto o piano é leve e fácil de acompanhar. Enfim, uma belíssima composição instrumental.


A animação retorna com tudo na dançante "Tá Boa, Santa?", essa bem mais brasileira do que as anteriores, vamos colocar assim. E "Equilibrista" é um samba sensacional que não precisa dizer nada para falar muito. É incrível como Egberto Gismonti consegue pensar em ótimas sacadas nos arranjos para construir uma melodia que vai ganhando corpo aos poucos e se transforma em algo saboroso.

As duas últimas faixas são as que mais brincam com possibilidades musicais. A primeira é "Ciranda", que uma cítara aparece para criar um clima um tanto melancólico. A única com letra é justamente a última. "Mais Que A Paixão" tem aquele tom romântico dos anos 1980, um tom bem Guilherme Arantes -- citando um exemplo que todo mundo possa se lembrar.



O melhor álbum da carreira de Egberto Gismonti foi construído em bases muito sólidas por um profundo conhecedor de música e craque nos instrumentos. Essa mistura de gêneros dentro de uma história com início, meio e fim é um trunfo nas mãos de alguém que sabia o que queria e, fundamental, o que não queria. O resultado é algo que é tudo ao mesmo tempo. Exatamente como seu criador.

Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Karatê" (5:03)
2 - "Cego Aderaldo" (6:29)
3 - "Mágico" (7:18)
4 - "Palhaço" (Geraldo Eduardo Carneiro) (5:53)
5 - "Tá Boa, Santa?" (5:58)
6 - "Equilibrista" (8:19)
7 - "Ciranda" (5:37)
8 - "Mais Que A Paixão" (João Carlos Pádua) (4:47)

Egberto Gismonti: piano, teclado, órgão violão, viola, guitarra, flauta, cítara e vocal

Convidados:

L. Shankar:
violino em "Cego Aderaldo"
Dulce Bressane: vocal de apoio
Aleuda: vocal e percussão em "Tá Boa, Santa?"
Silvio Mehry: piano
Piry Reys: guitarra em "Ciranda"
Pepe Castro Neves: vocal em "Ciranda"
Luiz Alves: baixo acústico
Juan Capobianco e Paul Kern: baixo
Giorgio Bariola, Marcio Eymard Malard, Gerhard Peter Dauelsberg e Watson Clis: violoncelo
Ana (33), Clara (13) e Marya (3): coral
Benito Juarez: condutor da orquestra
Robertinho Silva: bateria e percussão
Doutor, Eliseu, Luna (11) e Marçal: percussão
Mauro Senise: saxofone e flauta
Arlindo Penteado, Geza Kiszely, Maria Léa Magalhães e Murillo Da Silva Loures: viola
Aizik Geller, Alfredo Vidal, Alvaro Vetere, Andrea Osório, André Charles Guetta, Frantisek Bartik, Giancarlo Pareschi, Jerzy Milewsky, José Dias De Lana, José Alves Da Silva, João Daltro De Almeida, Marcello Pompeu Filho, Otávio Miranda Ilha, Ricardo Wagner, Robert Arnaud, Virgílio Arraes Filho: violino



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