No YouTube

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Discos para história: Revolver, dos Beatles (1966)


Edição número 136 da seção comemora os 50 anos do álbum nesta sexta-feira (5)

História do disco

O aclamado Rubber Soul deu aos Beatles uma nova direção musical. Bem recebido por público e crítica, o álbum mostrou que era possível vislumbrar novas possibilidades musicais em detrimento ao tipo de canção que fizeram no início da carreira. Cada vez mais desmotivados para apresentações ao vivo, pelo menos nos casos de John Lennon, George Harrison e Ringo Starr, a chance de mostrar o potencial estava todo no estúdio.

A mudança drástica também se deu pelo lançamento de Pet Sounds, dos Beach Boys. Paul McCartney ouviu e, como diriam os antigos, 'pirou na batatinha'. A rivalidade entre as duas bandas, ainda que velada, direcionou os rumos da música pop do mainstream entre o fim de 1965 e 1967, quando os Beatles chegariam em seu auge com o aclamado Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band.

Mais Beatles:
Discos para história: Please Please Me, dos Beatles (1963)
Discos para história: With the Beatles, dos Beatles (1963)
Discos para história: A Hard Day’s Night, dos Beatles (1964)
Discos para história: Beatles For Sale, dos Beatles (1964)
Discos para história: Help!, dos Beatles (1965)


Sem shows e cancelando as filmagens de um novo filme, a banda nunca teve tanto tempo em estúdio para trabalhar ideias, testar novas sonoridades e refinar ao máximo as composições. E, como viria a ser tratado, Revolver foi o disco feito quando o uso do LSD estava em alta no grupo – menos para Paul McCartney que, longe das drogas, ia conseguindo ser, cada vez mais, a força criativa do grupo pelos próximos anos.

Mas Revolver também foi feito para ser uma ruptura com o passado, como se houvesse uma Muralha da China entre os meninos de Liverpool que tocavam "All My Loving" e "She Loves You" e os homens que subiram o nível das coisas no álbum anterior. Isso também aconteceu em suas vidas pessoais, principalmente com Harrison, muito influenciado pela cultura e religião indianas. Antes o apenas guitarrista solo que lutava para mostrar capacidade como compositor, ele conseguiria ter três faixas no futuro LP – uma proeza e tanto, olhando em retrospectiva, quando se tem Lennon e McCartney como forças criativas. Agora, ainda que demorasse alguns anos para perceber, os Beatles tinham três compositores fortes.

Mais discos dos anos 1960:
Discos para história: Giant Steps, de John Coltrane (1960)
Discos para história: Axis: Bold as Love, do Jimi Hendrix Experience (1967)
Discos para história: Maysa, de Maysa (1966)
Discos para história: Highway 61 Revisited, de Bob Dylan (1965)
Discos para história: My Generation, do The Who (1965)

Também ficaria clara as diferenças musicais entre John e Paul. Ainda que não houvesse uma ruptura clara, cada um estava se afastando um do outro – primeiro musicalmente, depois pessoalmente. Depois das gravações e da última turnê americana, eles ficaram três meses de folga "para buscar objetivos pessoais", aumentando os rumores de uma separação, não concretizada, até o fim daquele ano.

A capa de Revolver também foi feita para mostrar essa ruptura do grupo com o passado de músicas alegres. Amigo dos Beatles desde os tempos de dureza e sujeira em Hamburgo, Klaus Voorman, agora oficialmente um baixista profissional, fez uma montagem muito bonita com os quatro membros e pedaços dos discos anteriores. A colagem tornou-se uma das capas mais famosas da história da cultura pop. E um detalhe nos créditos que também mostraria como cada um buscava seu espaço: havia destaque para o vocalista principal de cada faixa, então algo inédito.

Veja também:
Discos para história: Mezmerize, do System of a Down (2005)
Discos para história: In the Wee Small Hours, de Frank Sinatra (1955)
Discos para história: Goodbye Yellow Brick Road, de Elton John (1973)
Discos para história: The Miseducation of Lauryn Hill, de Lauryn Hill (1998)
Discos para história: Nebraska, de Bruce Springsteen (1982)
Discos para história: Meteora, do Linkin Park (2003)

Lançado no Reino Unido em 5 de agosto 1966 e em 8 de agosto nos Estados Unidos, Revolver chegou ao primeiro lugar das paradas logo na primeira semana. Apesar de não haver a mesma publicidade dos outros muito por conta do problema de Lennon com grupos religiosos (a famosa história de os Beatles serem mais populares do que Jesus), acabou não sendo um problema entre os fãs. Já alguns críticos americanos receberam o trabalho com frieza, diferente da empolgação britânica.

O sétimo álbum de estúdio dos Beatles é considerado um marco na música pop, o início de uma revolução nas paradas. Muitos consideram a trilogia Rubber Soul, Revolver e Sgt. Peppers... um ponto de antes e depois. No meio de dois excelentes discos, Revolver é considerado por muitos a obra-prima deles. Talvez a publicidade ruim tenha atrapalhado, mas ainda bem que o tempo mostrou que esse disco merece todas as reverências possíveis.

Aqui, os Beatles viraram homens de vez.


Resenha de Revolver

Antes de qualquer coisa, ouvir "Taxman" é perceber a evolução de Harrison como compositor. Aquele humor e fina ironia que os mais íntimos dos Beatles conheciam aparece nesta primeira faixa sobre a infelicidade dos ricos em participar da política do Bem-Estar Social Britânico. A guitarra ressoa durante toda música, enquanto a banda completa só aparece quando o nome da música é dito. Depois pulamos para uma obra-prima composta por McCartney.

"Eleanor Rigby" começa com os potentes arranjos de cordas envolvendo o ouvinte durante a audição de uma história muito triste que ganhou o tratamento que merecia em seus poucos mais de dois minutos – harmonicamente é perfeita. Se o baixista usa a realidade como ponto de partida de suas composições, Lennon prefere ser lúdico ao tratar da vida em "I'm Only Sleeping", em que ele prefere continuar dormindo e sonhando do que encarar a realidade.

"Love You To" é a primeira das muitas faixas escritas por Harrison com influência de sua nova religião. Pela dificuldade em conseguir acompanhar o ritmo, Ringo Starr precisou se virar – e conseguiu, claro. Com muitos elementos incomuns da música do mainstream, ele conseguiu contar uma história com um final de teor sábio, ainda que muito inocente. Ela é seguida pelo belíssimo momento de "Here, There and Everywhere". A sensibilidade de McCartney como letrista de canções simples e arranjador de nível absurdamente alto ficaria ainda mais clara aos ouvidos.



Feita para Starr ter seu momento, "Yellow Submarine" fica completamente deslocada no álbum, mas funciona bem. E por mais que tentassem encontrar um significado oculto, é apenas a reunião de quatro amigos cantando uma letra bobinha sobre amadurecimento enquanto a vida acontece lá fora. Em uma de suas muitas viagens de ácido, Lennon ficou se saco cheio de Peter Fonda contar que já havia morrido e transformou o incômodo encontro em "She Said She Said". Há tanto humor negro e ironia que só John poderia ter feito algo assim.

Quase todas as faixas da dupla Lennon-McCartney tiveram a ajuda do piano, mas "Good Day Sunshine" foi feita para ser executada no instrumento que Paul sabia tocar desde a infância. O arranjo feliz traz um sopro de sol e tranquilidade na abertura do lado B do álbum, já "And Your Bird Can Sing" é uma homenagem de Lennon a... Frank Sinatra. Ao ler o famoso perfil do cantor escrito por Gay Talese, ele fez essa letra com um quê de inveja do maior cantor do século 20. Sozinho, Paul McCartney aparece na irmã mais nova de "Yesterday": "For No One". Ela é outra canção escrita por ele com um arranjo e harmonia belíssimos. Com menos de dois minutos, encanta ao simplesmente crer que a vida continua, apesar de tudo.



Muitos foram apontados como o Robert de "Doctor Robert", mas, ao prestar atenção na letra de Lennon, é a junção de várias histórias e pessoas – o Dr. Timothy Leary, que apresentou o LSD ao cantor, e ao Dr. Roberts, homem que ajudava artistas e personalidades a ficar chapados com remédios. Animada e de batida insistente, acaba sendo a mais dançante e animada de todo álbum. Terceira e última composição de Harrison no LP, "I Want to Tell You" está longe de mostrar seu potencial como compositor, apesar de ser bem competente no que se propõe a fazer. A seguinte nasceu para ser uma homenagem a Motown, porém "Got to Get You into My Life" é toda errada nesse sentido. Mas ao suplantar a guitarra em boa parte e manter apenas os instrumentos de sopro mais a bateria, a faixa acabou ganhando vida graças ao vocal alegre de McCartney.

O fim vem na experimental "Tomorrow Never Knows", um marco na história do rock – e do acid rock. Construída como algo fora do normal, ela é um produto 100% do estúdio e usa técnicas testadas ao longo de várias semanas de trabalho. É pura manipulação de som e várias ideias transformadas em uma coisa só. São idas e vindas, efeitos, a voz de Lennon e o quê junguiano – tudo está lá. O final é a cereja do bolo. E o início de uma nova era na música pop. E Revolver foi esse marco inicial.



Ficha técnica

Tracklist:

Lado A

1 - "Taxman" (George Harrison) (2:39)
2 - "Eleanor Rigby" (2:06)
3 - "I'm Only Sleeping" (3:00)
4 - "Love You To" (Harrison) (2:59)
5 - "Here, There and Everywhere" (2:25)
6 - "Yellow Submarine" (2:41)
7 - "She Said She Said" (2:37)

Lado B

1 - "Good Day Sunshine" (2:08)
2 - "And Your Bird Can Sing" (2:00)
3 - "For No One" (2:00)
4 - "Doctor Robert" (2:14)
5 - "I Want to Tell You" (Harrison) (2:29)
6 - "Got to Get You into My Life" (2:29)
7 - "Tomorrow Never Knows" (2:57)

Todas as músicas foram compostas por Lennon-McCartney, exceto as marcadas

Gravadora: Parlophone
Produção: George Martin
Duração: 34min43

John Lennon: vocal, harmonia, vocais de apoio, violão, guitarra, órgão, Harmônio efeitos, tambourine, palmas e estalos
Paul McCartney: vocal, harmonia, vocais de apoio, baixo, violão, guitarra, piano, efeitos, Clavicórdio, palmas e estalos
George Harrison: vocal, harmonia, vocais de apoio, guitarra, baixo, sitar, tambura, maracas, tambourine, efeitos, palmas e estalos
Ringo Starr: bateria, tambourine, maracas, sino, efeitos, palmas e estralos e vocais em "Yellow Submarine"

Convidados:

Anil Bhagwat: tabla em "Love You To"
Alan Civil: trompa em "For No One"
George Martin: piano em "Good Day Sunshine" e "Tomorrow Never Knows", órgão em "Got to Get You into My Life" e efeitos em "Yellow Submarine"
Geoff Emerick: efeitos em "Yellow Submarine"
Mal Evans: bumbo e vocais de apoio em "Yellow Submarine"



Gostou do post? Compartilhe nas redes sociais e indique o blog aos amigos!

Esse post foi um oferecimento de Felipe Portes, o primeiro patrão do blog. Contribua, participe do nosso Patreon.