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sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Discos para história: Beatles For Sale, dos Beatles (1964)


A 54ª edição do Discos para história volta a falar de Beatles. Seguindo a ordem cronológica dos lançamentos no Reino Unido, Beatles For Sale é o álbum abordado da vez. Se A Hard Day’s Night trouxe o Fab Four em grande forma, o quarto trabalho de estúdio mostraria uma banda em crescimento profissional e pessoal.

História do disco

O sucesso de uma banda nos anos 1960 era medido pela quantidade de discos lançados em um ano, geralmente dois, pelos singles nas paradas e pelos shows. Os Beatles estavam no primeiro lugar das paradas, lançavam singles a cada três meses e viviam lotando teatros pela Inglaterra. Depois do sucesso nos Estados Unidos, eles quase não paravam em casa.

Apenas uma semana depois do encerramento das gravações de A Hard Day’s Night, John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr voltaram ao Abbey Road Studios para gravar parte do material que entraria em Beatles For Sale, que seria lançado apenas em 6 de dezembro de 1964 – um dia depois de Let it Bleed, dos Rolling Stones (existia um acordo entre as bandas para não lançarem LPs no mesmo dia). Após gravarem o material, a turnê passou por Austrália, Nova Zelândia, Hong Kong, Holanda, Dinamarca e Suécia, além de várias aparições em redes de TV, rádio e shows pelo Reino Unido.

Duas coisas importantes aconteceram com os Beatles em 1964: a primeira foi a aparição do termo beatlemania, e foi exatamente quando o, vamos colocar assim, movimento estava no auge que o novo disco foi produzido. O segundo foi o encontro com Bob Dylan, ídolo de Lennon pelo teor das letras confessionais e políticas do cantor folk americano – também foi nesse encontro que Dylan apresentou a maconha aos ingleses.

Sem tempo para compor, a dupla Lennon-McCartney usou o que tinha para colocar no álbum. Por esse problema, eles voltaram a apelar para covers, algo que tinha ficado de fora no disco anterior. O esquema de trabalho foi o mesmo usado anteriormente: parte do material era escrito na folga do grupo, enquanto o resto era feito e/ou finalizado no estúdio. Em tempo recorde, em menos de 30 dias eles gravaram todas as faixas e mixaram tudo, sendo apenas necessária mais uma sessão adicional no início de novembro para finalizar pequenos detalhes.

Lançado no início de dezembro, o disco começaria na semana seguinte a estreia a primeira de 46 semanas na primeira colocação das paradas, derrubando... A Hard Day’s Night. Apenas em fevereiro de 1965, quando os Rolling Stones lançaram The Rolling Stones No. 2, o disco foi derrubado do primeiro lugar, mas retornou uma semana depois.

A capa tem apenas um segredo: foi a primeira com formato duplo, em que era possível abrir e ter uma imagem panorâmica da foto. A lenda conta que essa foi a inspiração para o trabalho artístico de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, lançado dois anos depois. Aqui, a beatlemania atingia seu auge.


Resenha de Beatles For Sale

O disco começa com “No Reply”, faixa romântica que conta a história de um rapaz com total inabilidade para falar com garotas na base do verso-verso-ponte-verso e bem curta, algo que seria usado cada vez menos nos próximos trabalhos. A canção não foi escrita para ser usada em um disco dos Beatles, mas acabou sendo utilizada por falta de tempo para fazer algo melhor.

Começando a colocar para fora seu lado confessional, John Lennon usou muito da inspiração das canções de Bob Dylan para escrever “I’m a Loser”. Era o início da mudança de mentalidade e do crescimento deles como compositores em uma música triste. Outra mudança no formato foi vista em “Baby’s in Black”, quando os Beatles preferiram gravar uma espécie de country com verso, refrão, solo de guitarra e volta ao refrão.

O cover de "Rock and Roll Music", de Chuck Berry, já era conhecido do público porque era praticamente executada em todos os shows desde os tempos Hamburgo, na Alemanha. Diferente da original, a versão do Fab Four era mais veloz, dançante e feita para ser cheia de improvisos. Voltando ao estilo tradicional, "I'll Follow the Sun" foi composta em sua maioria por Paul McCartney, então ele liderou os vocais de uma canção segura e sem espaço para floreios.



Originalmente, "Mr. Moonlight" é um blues, mas a versão em Beatles For Sale cantada por Lennon é uma espécie de bolero com o acréscimo de um órgão tocado por McCartney. Fechando o lado A, o medley "Kansas City/Hey-Hey-Hey-Hey!" era outra que remetia o grupo aos tempos de shows em bares alemães no início dos anos 1960 em uma espécie de blues rock com espaço para George Harrison improvisar um solo na ponte entre os versos.

Existem duas histórias sobre a composição de "Eight Days a Week", que abre o lado B. A mais legal é que saiu da boca de Ringo Starr que, tão cansado dos compromissos, disse que ele estava no “oitavo dia daquela semana”. Duas sessões foram necessárias para finalizar a letra que McCartney escreveu em poucas horas, com John fazendo o retoque final. É outra que não foge do verso-verso-ponte-verso baseado no country americano.

O cover de "Words of Love" foi a única não escrita por eles que não ganhou tratamento especial ou uma releitura. John e Paul queriam a melodia e os acompanhamentos mais fieis possíveis aos usados por Buddy Holly, enquanto “Honey Don’t”, de Carl Perkins, cumpria a cota de uma canção por álbum para Starr. O astral estava tão bom, que nem as falas e improvisos de Ringo foram cortados.



"Every Little Thing" foi um dos raros casos em que McCartney escreveu letra, mas Lennon cantou – geralmente, quem compunha a maior parte da letra era responsável pelo vocal. Namorando Jane Asher à época, Macca fez a música para ela, que segue a linha tradicional adotada por ele até hoje. Voltando ao country do início do disco, "I Don't Want to Spoil the Party" retoma o lado da banda inspirado em canções que ouviam na adolescência.

O início com a bateria foi outra novidade o disco, já a letra de Paul para "What You're Doing" não era: ele fez baseado em seu namoro com Asher, porém tocando em assuntos como tristeza e solidão – uma lenda urbana diz que a melodia inspirou a versão dos Byrds para “Mr. Tambourine Man”, de Bob Dylan. Finalizando o disco, o cover de "Everybody's Trying to Be My Baby", outra conhecida do público, ficou por conta de George Harrison e sua voz cheia de efeitos.

Aqui começava a mudança de postura dos Beatles. Uma letra confessional ali, uma mudança de introdução acolá. Eles estavam amadurecendo enquanto gravavam discos, faziam shows e intermináveis aparições em programas pelo mundo. Eles mal sabiam, mas o próximo passo seria ainda ousado do que esse. E abriria de vez as portas para aquele que é considerado o melhor disco de todos os tempos.



Tracklist:

Lado A

1 - "No Reply" (Lennon/McCartney)
2 - "I'm a Loser" (Lennon/McCartney)
3 - "Baby's in Black" (Lennon/McCartney)
4 - "Rock and Roll Music" (Chuck Berry)
5 - "I'll Follow the Sun" (Lennon/McCartney)
6 - "Mr. Moonlight" (Roy Lee Johnson)
7 - "Kansas City/Hey-Hey-Hey-Hey!" (Jerry Leiber/ Mike Stoller/ Richard Penniman)

Lado B

1 - "Eight Days a Week" (Lennon/McCartney)
2 - "Words of Love" (Buddy Holly)
3 - "Honey Don't" (Carl Perkins)
4 - "Every Little Thing" (Lennon/McCartney)
5 - "I Don't Want to Spoil the Party" (Lennon/McCartney)
6 - "What You're Doing" (Lennon/McCartney)
7 - "Everybody's Trying to Be My Baby" (Perkins)

Ficha Técnica

Gravadora: Parlophone
Produção: George Martin
Tempo: 34min13s

John Lennon: vocal, guitarra, vocais de apoio, violão, piano, gaita, pandeiro, palmas e violão de 12 cordas.
Paul McCartney: vocal, baixo, vocais de apoio, violão, piano, orgão e palmas.
George Harrison: vocal, guitarra, vocais de apoio, violão, percussão e palmas.
Ringo Starr: bateria, vocais, vocais de apoio, pandeiro, percussão e bongô.

Convidados

George Martin: piano



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