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sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Discos para história: Rubber Soul, dos Beatles (1965)


A 106ª edição do Discos para história é sobre Rubber Soul, um dos muitos marcos dos Beatles. Primeiro, foi o encerramento da era de dois álbuns por ano por parte do grupo; segundo, começava aqui a ideia de tentar experimentar mais em estúdio, momento em que eles já sofriam interferências musicais externas.

História do disco

Antes de iniciar as gravações, os Beatles fizeram algo inédito: um show em um estádio. Em 15 de agosto de 1965, eles tocaram no Shea Stadium para pouco mais de 55 mil pessoas. Duas semanas depois, aconteceu o encontro histórico da banda com Elvis Presley, ídolo e inspiração no início de tudo ainda no fim dos anos 1950. Depois de um agosto e setembro cheios, os quatro não tinham nenhum compromisso externo agendado para outubro, usado para gravação do novo disco.

O tempo livre foi agradecido quase de joelhos por parte do produtor George Martin, um tanto cansado da correria de ter os Beatles em curtos períodos de tempo espalhados em dois ou três meses para trabalhar em estúdio. Os cinco pegaram no batente entre os dias 12 de outubro e 15 de novembro, trabalhando duro quase dia e noite para entregar o novo disco para se prensado para o Natal, uma estratégia que havia dado certo nos anos anteriores.

"Rubber Soul foi uma indicação de como as coisas estavam caminhando. É um dos meus álbuns favoritos e é ótimo", disse Martin, alguns anos depois. “Rubber Soul apresentou um novo Beatles ao mundo. Até este ponto, nós tínhamos feitos álbuns que estavam mais para uma coleção de singles, [daquele ponto em diante] estávamos começando a pensar em álbuns como arte. Nós estávamos pensando o álbum como uma entidade própria e Rubber Soul foi o primeiro assim", explicou.
Além dessa visão, o Fab Four já sofria influência direta de seus contemporâneos, como Bob Dylan, Byrds e Beach Boys – coincidentemente, os três que chegaram a ameaçar o grupo nas paradas de sucesso – e a conhecida hoje como world music, mas que, à época, era algo fora dos padrões (no caso, música indiana e africana). Outra mudança importante aconteceu: as gravações estavam deixando de ser mono para se tornarem estéreo. Apesar do imenso trabalho, Martin acabou fazendo uma mistura entre um tipo e outro, mais fácil para adaptar às vitrolas dos fãs. Por fim, foi o último disco em que Norman Smith trabalhou como engenheiro de som. Impressionados por suas ideias e soluções nos estúdios, ele foi promovido pela EMI e virou produtor.

Um efeito idealizado por Bob Freeman durante no momento em que mostrava as fotos aos Beatles acabou sendo usado na capa de Rubber Soul. E o título foi uma ideia de Paul McCartney. Ao ouvir Mick Jagger cantando, alguém disse que ele soava um ‘plastic soul’, então McCartney fez um trocadilho e surgiu Rubber Soul.

Colocado no mercado em 3 de dezembro de 1965, o disco iniciou um período de 42 semanas na primeira colocação das paradas britânicas entre idas e vindas em um período de dez anos. Críticos trataram o trabalho como o início do amadurecimento da banda e historiadores musicais e especialistas na banda afirmam que aqui é o embrião do que viria a ser Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band. Nos Estados Unidos, o disco foi modificado e "Drive My Car", "Nowhere Man", "What Goes On" e "If I Needed Someone" foram removidas em troca de "I've Just Seen a Face" e "It's Only Love" com a intenção de deixar o disco mais folk, sensação musical da época, e isso deixou o álbum pouco mais de sete minutos mais curto do que na versão inglesa. Mesmo assim, chegou ao primeiro lugar em vendas no início de janeiro de 1966 e ficou por lá durante seis semanas seguidas.

Quinto colocado entre os 500 Álbuns Mais Importantes de Todos os Tempos, da Rolling Stone, Rubber Soul influenciou Brian Wilson, dos Beach Boys, que lançaria Pet Sounds no ano seguinte, e ele explica a importância do disco em sua vida: “Eu nunca tinha ouvido canções tão boas. E não são apenas sobre o amor, são sobre um monte de coisas diferentes, mas todas estão juntas de alguma forma. Ouvir Rubber Soul não me ajudou a escrever Pet Sounds, mas me inspirou. Quando estava ouvindo [o disco dos Beatles], disse a mim mesmo: 'vou fazer um álbum tão bom quanto Rubber Soul’. Não é o mesmo álbum, porque só pode haver um Rubber Soul, assim como só pode haver um Pet Sounds. Mas me inspirou a fazer algo próprio. Na manhã seguinte, fui ao piano e escrevi ‘God Only Knows’ com Tony Asher”, contou, em 2009.


Resenha de Rubber Soul

Escrita por Paul McCartney e complementada por John Lennon, que classificou a versão inicial como ‘porcaria’ e ‘muito leve’, "Drive My Car" é a história de uma moça que está para virar uma estrela de cinema e precisa de um motorista. Mas também pode ser um eufemismo para sexo, algo confirmado por McCartney anos depois. Uma mistura entre rock, blues e pop moldou o ritmo, muito por influência de George Harrison ao ouvir "Respect", de Otis Redding, naquela semana.

A influência de Harrison começava a pairar nos Beatles nesse momento. Por exemplo, foi ideia dele de colocar cítara em "Norwegian Wood (This Bird Has Flown)", um folk feito para tentar fazer trabalho semelhante ao de Bob Dylan. Lennon começou a escrevê-la no início de 1965 e quase fez parte de Help!, mas foi colocada de lado. Idealizada para ser pesada, virou acústica por ideia de Lennon ao regravá-la. Aqui, toda influência externa, seja de Ravi Shankar, Dylan ou qualquer outro, estava sendo exposta pela banda. Também era um dos poucos lampejos de Lennon como compositor, já que ele ainda estava em uma fase ruim em sua vida pessoal.

"You Won't See Me" traz um desabafo de McCartney sobre a crise em seu relacionamento com Jane Asher, então sua namorada, marcando o início do fim das canções românticas adolescentes e partindo para algo mais adulto e duro. Até o momento, era a faixa de maior duração da história da banda, mostrando uma tendência em trabalhar melhor as letras e melodias, não apenas presos em uma fórmula pré-fabricada de singles de sucesso. Mostrando como estava mal físico e mentalmente, Lennon tinha uma canção para entregar no dia seguinte e passou cinco horas tentando fazê-la. Em cima do prazo, escreveu o desabafo folk "Nowhere Man" (He's a real nowhere man/Sitting in his nowhere land/Making all his nowhere plans/For nobody/Making all his nowhere plans/For nobody/Making all his nowhere plans/For nobody), uma dessas peças de genialidade do então beatle. Se sua vida pessoal andava péssima, desabafá-la em forma de música estava dando resultado.



Primeira de duas canções de Harrison no disco, "Think for Yourself" não tem nada de amorosa, ao contrário, é um desabafo e uma porrada em Pete Best, ex-baterista dos Beatles (de acordo com especulações, claro. O guitarrista nunca confirmou a informação de fato) – à época, ele soltou declarações nada amistosas na imprensa contra Ringo Starr, que o substituiu na banda pouco antes da gravação do primeiro disco. Escrita depois de Lennon e McCartney fumarem maconha, "The Word" é quase um embrião do que seriam o verão do amor, os próprios Beatles e o mundo dentro de alguns anos. Fechando o lado A, "Michelle" é inspirada na boemia francesa e no músico Chet Atkins, um dos mestres do violão. O resultado foi uma faixa acústica, romântica, quase um pedido de namoro, e com partes em francês.

O lado B começa animado e "What Goes On" e, claro, quem canta é Ringo Starr. Aliás, não só canta como ajudou Lennon e McCartney na reforma da letra, pois o primeiro havia escrito esse country relativamente simples no final dos anos 1950 ou início da década seguinte, não se sabe ao certo. Mas é aquela canção fraca do disco que ganha carisma e ânimo graças ao baterista, e "Girl" é uma das mais melancolias e complexas canções de amor da banda, reforçada pelos instrumentos acústicos e delicados. John Lennon estava infeliz e achava que nunca encontraria a garota certa. Pouco tempo depois, ele viu Yoko Ono pela primeira vez. Outro em crise no relacionamento, McCartney escreveu "I'm Looking Through You" ao questionar sua relação com Jane Asher (You don't look different/But you have changed/I'm looking through you/You're not the same).



John Lennon pode ter sido muitas coisas, mas ele sempre se considerou um autêntico homem de Liverpool e, mais ou menos a partir dessa época, começou a escrever sobre sua infância (o início do que seria John Lennon/Plastic Ono Band). "In My Life" é um belo resumo do que ele havia vivido até ali. Ele relembra lugares (There are places I remember all my life/Though some have changed/Some forever, not for better/Some have gone and some remain, Penny Lane, Strawberry Fields) amigos (All these places had their moments/With lovers and friends I still can recall/Some are dead, and some are living/In my life, I've loved them all, Stu Sutcliffe, The Quarrymen). Para fazer a ponte da última parte, George Martin sugeriu um piano. Estava feita uma das melhores canções dele.

Outra sobre relacionamentos, "Wait" refletia o momento da dupla Lennon-McCartney ao reciclar uma faixa das sessões de Help! e adaptá-la ao trabalho exigido e idealizado no novo álbum. A simples "If I Needed Someone", inspirada no sucesso folk rock dos Byrds, foi mais uma tentativa de Harrison de ser incluído no grupo de compositores do grupo, principalmente por estar incomodado com a situação de ser apenas um guitarrista e vocal de apoio. O country folk ameaçador (You better run for your life if you can, little girl/Hide your head in the sand little girl/Catch you with another man/That's the end, little girl), inspirado em Elvis, "Run for Your Life" fecha o disco – a canção ganhou uma resposta anos depois quando Lennon escreveu e lançou "Jealous Guy".

Pela primeira vez, os Beatles conseguiram um tempo em estúdio para colocar ideias em prática, gerando o embrião coisas e momentos fundamentais para entender a banda e o futuro dos quatro. John Lennon tentando desabafar e colocar para fora sentimentos internos; Paul McCartney trabalhando seu lado mais romântico e clássico, George Harrison lutando por afirmação; Ringo Starr fazendo seu papel mais uma vez. Enfim, eles estavam crescendo artisticamente. E aqui foi o início de tudo.



Ficha técnica:

Tracklist:

Lado A

1 - "Drive My Car" (2:25)
2 - "Norwegian Wood (This Bird Has Flown)" (2:01)
3 - "You Won't See Me" (3:18)
4 - "Nowhere Man" (2:40)
5 - "Think for Yourself" (George Harrison) (2:16)
6 - "The Word" (2:41)
7 - "Michelle" (2:33)

Lado B

1 - "What Goes On" (Lennon–McCartney–Richard Starkey) (2:47)
2 - "Girl" (2:30)
3 - "I'm Looking Through You" (2:23)
4 - "In My Life" (2:24)
5 - "Wait" (2:12)
6 - "If I Needed Someone" (Harrison) (2:20)
7 - "Run for Your Life" (2:18)

Todas as músicas foram compostas pela dupla Lennon-McCartney, exceto as marcadas

Gravadora: Parlophone
Produção: George Martin
Duração: 35min50s

John Lennon: vocais, harmonia, vocais de apoio, violão, guitarra e teclado
Paul McCartney: vocais, harmonia, vocais de apoio, baixo, violão e piano
George Harrison: vocais, harmonia, vocais de apoio, violão, baixo, guitarra e cítara em "Norwegian Wood"
Ringo Starr: bateria, pandeiro, maracas, sinos, prato, percussão, órgão Hammond em "I'm Looking Through You" e vocais em "What Goes On"

Convidados:

George Martin: piano em "In My Life" e harmônio em "The Word"
Mal Evans: órgão Hammond em "You Won't See Me"



Veja também:
Discos para história: Yoshimi Battles The Pink Robots, do Flaming Lips (2002)
Discos para história: Whatever People Say I Am, That's What I'm Not, do Arctic Monkeys (2006)
Discos para história: Crosby, Stills & Nash, de Crosby, Stills & Nash (1969)
Discos para história: Purple Rain, de Prince and The Revolution (1984)
Discos para história: Time Out of Mind, de Bob Dylan (1997)
Discos para história: Elvis Presley, de Elvis Presley (1956)
Discos para história: Transformer, de Lou Reed (1972)

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