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quinta-feira, 16 de março de 2017

Discos para história: Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles (1967)


Nova edição da seção celebra os 50 anos do disco, comemorados oficialmente em 1º de junho

História do disco

Depois da última apresentação ao vivo, realizada em São Francisco, no fim de agosto de 1966, os Beatles ficaram três meses separados. John Lennon aceitou o convite do diretor Richard Lester para trabalhar no filme Uma Delícia de Guerra (1967); Paul McCartney foi trabalhar com George Martin na trilha sonora de Uma Lua-de-Mel ao Meio-Dia (1966); George Harrison foi à Índia com Pattie por seis semanas para passar um tempo com Ravi Shankar; Ringo Starr voltou para casa e ficou com a família.

Foram dias longe das câmeras e da atenção do público - pelo menos para três deles, já que Lennon gravou suas partes na Alemanha e na Espanha e chamou bastante a atenção da imprensa local. McCartney conseguiu desenvolver ainda mais seu gosto por arranjos grandiosos, enquanto Harrison era um aplicado aluno na cítara. No caso do guitarrista, as aulas o levariam a mergulhar fundo na religião local.

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Os Beatles retornaram ao trabalho no fim de novembro de 1966, aproveitando para colocar um ponto final em qualquer notícia sobre a separação e o consequente fim da banda – alimentado pelo cancelamento de uma turnê no Reino Unido. Ao começar o novo trabalho, a ideia de separação, até alimentada um pouco por eles nos dias em que trabalhavam em outras coisas, foi transformada em alívio por rever os outros. Renovados, o início da composição do álbum nasceu para ter um quê autobiográfico, principalmente depois de Lennon chegar com a letra pronta de "Strawberry Fields Forever". O título dessa balada melancólica foi retirado de um orfanato próximo da casa do compositor na infância, apontando um caminho para a sequência da carreira – dele e do grupo.

Em janeiro, além da faixa citada antes, a banda já tinha pronta "Penny Lane" e "When I'm Sixty Four", todas dentro do projeto autobiográfico pretendido quando eles se reuniram. Mesmo em ritmo lento – foram 125 horas de estúdio só para elas –, a ideia estava sendo bem desenvolvida. Mas o empresário Brian Epstein precisava de algo para gravadora, que havia renovado o contrato com os Beatles recentemente, e para mostrar ao público que o cultuado grupo não era carta fora do baralho da música pop naqueles dias. "Strawberry Fields Forever" e "Penny Lane" foram embaladas em um compacto, o primeiro trabalho com inéditas desde Revolver. Apesar dos pedidos numerosos, o LP ficou na segunda posição – colocação inédita na carreira deles. Com isso, os planos de um disco autobiográfico foram comprometidos. Eles estavam na estaca zero novamente, com Lennon e McCartney trabalhando em fragmentos de letras, e Harrison nem mesmo tinha começado a compor algo para apresentar.

Dessas coisas que são surpreendentes, o que viria a ser o novo LP foi iniciado pelo fim. Um fragmento de música de cada um, unido, trabalhado e mixado em estúdio ganhou o nome de "A Day in the Life", uma potencial faixa de encerramento. Bom, agora era tentar iniciar o disco de fato. Mas como? No início de fevereiro, McCartney chegou ao estúdio com a bonitinha "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" e sacramentou o fim de uma autobiografia musical dos Beatles.

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Mas o processo de transformação dos Beatles na banda do Sargento Pimenta foi demorado, porque a faixa foi gravada, mas logo colocada de lado. McCartney usou o poderoso argumento de desconstrução da banda, de eles não serem os famosos Beatles, de uma válvula de escape do mundo e das pressões e de encontrar um novo modo de fazer música. E assim foi feito. Pelo tempo entre um lançamento e outro, parece que o novo álbum demorou mais para ser feito, o que é certo e errado ao mesmo tempo. É certo que tudo demorou mesmo, mas é uma demora com foco diferente dos outros álbuns. Ao invés de gastar horas e horas mexendo em letras e arranjos, o tempo foi usado para brincar com efeitos especiais, idas e vindas de fitas, barulhos e todo tipo de experimentalismo. E mixagem, claro.

O trabalho foi uma festa só. De incenso e retirada dos sofás para gravação da música de Harrison até uma festa no dia da presença da orquestra para finalizar a última faixa, os Beatles estavam em outro patamar – pessoal e profissional. As drogas também colaboraram para uma reaproximação entre Lennon e McCartney que, unidos pelo LSD, trabalharam com uma intensidade vista apenas nos primeiros anos de atividade. Estava claro que eles desejavam melhorar do que já haviam feito.

Já a capa do disco foi um trabalho do artista conceitual Peter Blake. Com a ideia de McCartney passada a ele, inclusive sabendo dos uniformes usados pelo Fab Four para simbolizar a tal banda, ele sabia mais ou menos como transformar isso em arte. O fundamental do tom dessa primeira apresentação é vê-los recém-saídos de uma apresentação para uma plateia ilustre. A colocação desses nomes da cultura pop foram colocado em papelão em tamanho real para passar a impressão de uma reunião verdadeira entre essas pessoas de histórias e perfis tão diferentes para ver a Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. O impacto da capa é, até hoje, dos mais notáveis na cultura pop de maneira geral. É o encontro de personalidades do século 20, incluindo os próprios Beatles, em um show de uma banda amigável. Nada desse tipo havia sido feito por ninguém. E ainda havia o fato de o encarte ter fotos e as letras das músicas, algo inédito.

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Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band foi lançado em 1º de junho de 1967 e teve a maior recepção pública até então de um disco de estúdio. Se a BBC chegou a vetar duas faixas em sua programação, outras estações de rádio tocaram o LP na íntegra sem o menor constrangimento. Foram 15 semanas na liderança da parada nos Estados Unidos, 23 no Reino Unido. Vendeu mais de um milhão de cópias na semana de lançamento. Com poucos dias, o álbum já estava na história.

Tratado como o "primeiro álbum conceitual da música pop", Sgt Pepper's... foi apenas um trabalho de tirar o silêncio do fim de cada música e uni-las como se fossem uma peça de teatro com início, meio, fim e um epílogo. Algo que deu muito certo, principalmente na hora de vender o projeto, aliado com a ansiedade do público por algo novo. Mas entrou para história, porque os Beatles estavam tentando melhorar musicalmente. Ao fazer isso, não parar de evoluir, criaram um trabalho impecável que colocou a música pop em outro patamar.



Resenha de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band

A faixa título mostra como o trabalho em cima dela foi fundamental para criar a persona dessa banda fictícia. A guitarra de George Harrison e a bateria de Ringo Starr abrem os trabalhos, com o vocal de Paul McCartney chegando para cantar It was twenty years ago today/ Sergeant Pepper taught the band to play/ They've been going in and out of style/ But they're guaranteed to raise a smile/ So may I introduce to you/ The act you've known for all these years/ Sergeant Pepper's Lonely Hearts Club Band. Esse início de música é uma apresentação de uma banda que retorna após 20 anos, um exercício de como seria isso. Os efeitos só abrilhantam essa teatralidade de um grupo, que iniciou os trabalhos com um mestre de cerimônia (Paul), mas tem em John Lennon seu verdadeiro vocalista. O final da música serve para introduzir Billy Shears, o alter-ego de Ringo Starr no álbum.

Se existe uma música perfeita para Starr cantar, essa é "With a Little Help from My Friends". Símbolo das apresentações da carreira solo do cantor e baterista, a faixa tem um andamento muito simples – certamente foi entregue a ele por isso que, assim como outras que ele cantou, é bobinha e não tem muito segredo. Mas ela não tem nada de boba quando se presta atenção na letra, em que valorizar a amizade é fundamental em um diálogo entre amigos bem íntimos. No fim, Shears, ou Ringo, não precisa de nada muito grande para tocar sua vida. Só uma ajudinha mesmo.

Quem chegou a pensar em uma aposentadoria de Lennon das canções de amor enganou-se profundamente ao ouvir a linda "Lucy in the Sky with Diamonds". Obviamente, ela é muito diferente das anteriores, mas ainda tem aquele romantismo juvenil de quem ainda não tinha nem 30 anos. A voz juvenil e o início com uma caixinha de música, dão um tom dos mais bonitos à faixa com inspiração clara na música psicodélica da época. Destaque para o baixo de McCartney acompanhando tudo e ajudando no andamento.



A melancolia do amor ganha ânimo na faixa seguinte: "Getting Better", uma sátira da vida no Reino Unido dos anos 1950. Um McCartney otimista ganha ajuda de Lennon e Harrison no refrão, mas a estridência da guitarra acaba por colocar algo que a deixa mais pé no chão. O verso I used to be cruel to my woman/ I beat her and kept her apart from the things that she loved/ Man I was mean but I'm changing my scene/ And I'm doing the best that I can é antecedido por uma mistura entre oriente e ocidente, porém é fundamental entender que eles relembram um tempo misógino e pouco respeitoso com as mulheres. Mas o final ainda é feliz, apesar de tudo.

"Fixing a Hole" tem um McCartney travando uma disputa entre o real e o lúdico ao tratar do conserto do tal buraco. Os quatro trabalham unidos, cada um fazendo uma coisa diferente para criar uma faixa que fica amplificada em seus ouvidos. É dessas que Paul se inspirou nele mesmo para executar, assim como em "She's Leaving Home" – mais uma do repertório de Paul a ter orquestra e arranjos grandiosos. A terceira seguida do baixista como vocalista principal tem todos os elementos usados em suas principais canções, mas é possível dizer que temos a continuação de "Eleanor Rigby". Essa balada de ar vitoriano fala sobre um problema no Reino Unido em 1967: a fuga de jovens para comunidades alternativas. No caso, em uma história entre um pai e uma filha com certo equilíbrio entre humor e uma temática mais séria nesse difícil tipo de relacionamento.

Para fechar o lado A, "Being for the Benefit of Mr. Kite!" foi inspirada em um pôster de circo do século 19 comprado por Lennon em uma feira. Como não poderia deixar de ser, o produtor George Martin teve muito trabalho em conseguir exatamente todos os efeitos que John desejava para a música e deixá-la com o clima propício. A letra em si trata de um culto à personalidade, no caso as atrações do circo, e todos obedecem aos comandos de Mr. K sem pestanejar.



Única contribuição de Harrison ao álbum, "Within You Without You" é muito deslocada do resto. Abrir o lado B com ela acabou sendo uma boa solução para incluí-la, apesar de mostrar claramente o isolamento do guitarrista quando era chamado para compor alguma coisa – ele ainda estava muito atrás de Lennon e McCartney nesse quesito. O destaque vai para a parte instrumental de uma letra muito pretenciosa para um iniciado na cultura indiana, mas, ninguém sabia à época, seria o caminho escolhido por Harrison em seus âmbitos pessoal e profissional.

Composta por McCartney aos 15 anos, "When I'm Sixty-Four" ganhou uma revisão quando Jim McCartney, pai de Paul, completou 55 anos. Então o filho imaginou como seria a vida dali alguns anos com outra pessoa. O andamento lembra muito as antigas canções dos anos 1920 e a letra, de fácil entendimento por quem escuta, faz pensar como será a vida no futuro ao lado de quem você ama. E será que esse amor é a "Lovely Rita"? A encantadora letra tem um teor muito sexual e libertino, sendo a única desse tipo em todo álbum, com um final em aberto sobre o casal ter ou não relações sexuais ao final daquele dia.

Lennon declarou, anos depois, odiar "Good Morning Good Morning" por ser muito ruim, segundo ele mesmo. Inspirada por uma propaganda de cereal, ela funciona dentro do álbum e traz um pouco da bagunça experimental que muitas bandas estavam fazendo à época. Ele pode não gostar, mas ela faz sentido aqui. O disco poderia ser encerrado em "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (Reprise)", quando a banda agradece aos presentes. Mas ainda tem mais uma antes de ir.



O epílogo dessa peça teatral ganhou o nome de "A Day in the Life", a união de dois pedaços de músicas diferentes compostas por Lennon e McCartney. Comparada com algumas das grandes obras da literatura britânica, a canção foi inspirada em uma notícia da morte do herdeiro de uma cervejaria que era amigo dos Beatles. Ela começa com um violão frágil e delicado, e os vocais de Lennon cheios de efeito. O andamento é simples para uma letra triste (I read the news today, oh, boy/ About a lucky man who made the grade/ And though the news was rather sad/ Well I just had to laugh/ I saw the photograph) e cheia de peso emocional.

A canção muda completamente de andamento ao final do terceiro verso – unir as duas partes assim foi mais uma ideia brilhante de Martin no estúdio –, quando, depois de um pequeno intervalo, aparece a voz de Paul limpa. Esse pedaço mostra bem como a vida funciona em qualquer momento da história da humanidade. Mesmo sabendo de um acidente terrível envolvendo alguém conhecido, a vida continua. Então, vamos pentear o cabelo, tomar café e ir para o trabalho. Lennon retorna para mostrar como era um ávido leitor de jornais ao saber a quantidade exata de buracos em Blackburn, Lancashire. E também mostra como eles estavam ligados ao povo de uma maneira bem simples ao escrever sobre momentos cotidianos. Um encerramento épico para um disco histórico.

O LP está na história por vários motivos, sendo o principal deles esse culto ao ser um trabalho conceitual. A verdade é que não é, mas foi amarrado de maneira tão bem feita que é difícil não achar nada além disso. As faixas experimentais, essa ideia de um alter-ego para uma banda famosa... Tudo isso colaborou para esse álbum não pertencer apenas ao mundo da música. A cultura pop não foi mais a mesma depois disso.



Ficha técnica

Tracklist:

Lado A

1 - "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band"
2 - "With a Little Help from My Friends"
3 - "Lucy in the Sky with Diamonds"
4 - "Getting Better"
5 - "Fixing a Hole"
6 - "She's Leaving Home"
7 - "Being for the Benefit of Mr. Kite!"

Lado B

1 - "Within You Without You" (George Harrison)
2 - "When I'm Sixty-Four"
3 - "Lovely Rita"
4 - "Good Morning Good Morning"
5 - "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (Reprise)"
6 - "A Day in the Life"

Todas as músicas foram escritas pela dupla Lennon-McCartney, exceto a marcada

Gravadora: Parlophone (UK)/ Capitol (US)
Produção: George Martin
Duração: 39min52s

John Lennon: vocal, vocal de apoio, guitarra, violão, órgão, piano, gaita, efeitos, palmas, tambourine e maracas
Paul McCartney: vocal, vocal de apoio, baixo, guitarra, piano, teclado, órgão, palmas e efeitos
George Harrison: harmonia, vocal de apoio, guitarra, violão, cítara, tambura, gaita, palmas, maracas e vocal principal em "Within You Without You"
Ringo Starr: bateria, congas, tambourine, maracas, palmas, sinos, gaita e vocal principal em "With a Little Help from My Friends"

Convidados:

Sounds Incorporated: saxofone em "Good Morning, Good Morning"
Neil Aspinall: tambura e gaita
Geoff Emerick: efeitos
Mal Evans: contagem, gaita, relógio e piano
George Martin: efeitos, cravo em "Fixing a Hole", harmônio, órgão e glockenspiel em "Being for the Benefit of Mr. Kite!", órgão em "With a Little Help from My Friends" e piano em "Getting Better" e "Lovely Rita"
Neill Sanders, James W. Buck, John Burden e Tony Randall: trompa
Asian Music Circle: tabla, dilrubas, tambura e swarmandal em "Within You Without You"
Robert Burns, Henry MacKenzie e Frank Reidy: clarinete em "When I'm Sixty-Four"
Orquestra da EMI: instrumentos diversos



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