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sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Discos para história: Maskavo Roots, do Maskavo Roots (1995)


História do disco

Carlos Eduardo Miranda (1962-2018) foi um visionário de algumas das mais famosas bandas nos anos 1990. Diretor artístico do selo Banguela, dos Titãs e atrelado à Warner Music, ele descobriu inúmeros grupos. Raimundos e Mundo Livre S/A, dessa primeira leva, acabaram sendo as mais famosas. Outras foram consideradas por ele muito boas, mas não tiveram o mesmo sucesso. É o caso do Maskavo Roots.

Há 24 anos, o mundo era outro. E parece mesmo outra vida. A MTV Brasil estava iniciando as atividade para influenciar três gerações de crianças e adolescentes que não desgrudavam do canal. E toda tecnologia existente hoje para divulgar música soava como um delírio de algum filme experimental de ficção científica bem barato.

Ter uma fita demo era o esquema, mas, mais do que isso, fazer o material circular era fundamental. Só assim para ter a mínima chance de cair na mão de alguém interessado em ouvir tudo quanto é banda do Brasil. Foi assim que Miranda acabou descobrindo o Maskavo Roots e os levou para o Banguela. Mas, claro, a banda não nasceu com esse nome.

Mais discos dos anos 1990:
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Amigos de infância, Rodrigo Txotxa e Rodrigo Prata tocaram juntos em uma banda no colégio. A amizade ficou mesmo sem o almejado sucesso, fundamental para Txotxa lembrar o amigo quando O Cravo Rastafari, banda em que estava, precisava de um novo guitarrista. Esse grupo de reggae foi o embrião do que se transformou no Maskavo Roots poucos anos depois.

Já com Carlos Pinduca na guitarra e Quim no teclado, Marcelo “Salsicha” Vourakis chegou para reforçar o vocal. Dividindo atenções com a banda de hardcore, ele entrou no grupo sem ter a menor ideia de como cantar reggae. Foi aí que chegou Joana Lewis para reforçar o vocal. A formação ficou completa quando o baixista Ricardo Marrara entrou e a coisa ficou séria. Mas, como sabemos, não houve um Cravo Rastafari para ficar na história. Líder do grupo, Marcus Navarretti optou por estudar em outra cidade e deixou Brasília. Ele levou o nome Cravo Rastafari, mas deixou pronta a formação original do Maskavo Roots.

Então, eles foram à luta. O início dos anos 1990 seria muito importante para a nova safra do rock brasileiro, conhecida por misturar ritmos nacionais com um toque bem brasileiro. Mas o Maskavo Roots estava atrás de grupos como Raimundos, que já estavam cada vez mais conhecidos no underground e prontos para arrebentar a porta do mainstream. Eles gravaram uma fita demo com "Far Away", "Blond Problem" e “DDP e, em inglês, e "Yo no Quiero Trabajar", em espanhol. Por intermédio de Fred, baterista dos Raimundos, a fita chegou no Banguela. E foi aprovada, mas a gravadora entrou em um consenso de, antes de assinar, queria ouvi-los em português. Assim nasceu todo o repertório do primeiro álbum.

Veja também:
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Gravado no lendário estúdio BeBop, em São Paulo, entre outubro e novembro de 1994, o disco foi lançado sob alta expectativa por parte da gravadora e da banda no ano seguinte. A demora foi estranhada pelo grupo, que seguiu morando em Brasília, onde tinha uma boa base de fãs e uma agenda de shows certos. As resenhas na imprensa nacional foram positivas (Sergio Martins, da revista Bizz, escreveu que era "um dos melhores discos de 1995").

Mas nada aconteceu e a vida seguiu para todo mundo. O Maskavo Roots nunca explodiu como a expectativa geral anunciava, gerando um quê de desapontamento na banda, no Miranda, no Nando Reis e nos administradores do Banguela. Talvez o fato de as atenções estarem voltadas para Os Raimundos, então em via de ir para a Warner, atrapalharam um pouco os planos. Mas essa estreia, sem dúvida alguma, é uma das melhores daquela geração.


Resenha de "Maskavo Roots"

O álbum abre dando a entender que teríamos uma cópia de Mundo Livre S/A ou da Nação Zumbi, mas fica claro que "Chá Preto" o início da mistura que o Maskavo Roots gostava tanto de fazer no início da carreira. De bom andamento, ela funciona muito bem na introdução do que virá ao longo de quase 50 minutos de duração. Mais harmônica e mais dentro do reggae, "Gravidade" usa mais de efeitos e do teclado para apelar mais ao lado instrumental do que da letra.

Uma das grandes músicas daquele geração de bandas, "Tempestade" tem esse ar mais pop que dominaria as rádios nos anos seguintes ao se misturar com os velhos barões da MPB. Se a agitada "Blond Problem" entra no grupo de canções em inglês que estão no álbum, "Quinta" ainda segue muito atual em 2019 -- e se uma música com 24 anos segue atual, é uma péssima notícia para a atualidade. A canção ainda vira um samba bem animado na parte final.



"Don Genaro" soa muito com o atual reggae nacional, mostrando que o Maskavo Roots ainda é uma das grandes influências desse cenário até hoje. A segunda faixa em inglês é a genérica "Far Away", que perde por bastante para a menosprezada "45", uma faixa bem forte sobre um jovem usar uma arma para conseguir tudo que quer -- um perigo nos dias de hoje. E a segunda parte do álbum tem a instrumental "Los Grilos" e a animada e em inglês "O Copo (Dance 'til It Drops)".


A dançante "Besta Mole" tem o agito do punk com uma mistura de forró que caiu bem em uma canção do tipo, feita para agitar mesmo. Continuação de "Quinta", "Sexta" se aprofunda mais no tema da primeira ao seguir em frente -- também segue atual, infelizmente. E "Escotilha" é dessas que, quando se está no embalo do álbum, funciona que é uma maravilha. Por fim, surgem "D.D.P." e "Yo No Quiero Trabalhar".

Hoje, em 2019, as canções não cantadas em português poderiam ficar de fora e que não fariam a menor falta. O Maskavo Roots não virou, mas plantou raízes (entendeu?) em várias bandas que vieram nos anos seguintes. Essa estreia mostrou como o tato de Miranda para achar bandas era incrível e como tinha tudo para dar certo. Não dá para saber o que aconteceu, mas esse álbum está na história da música brasileira. Isso não é pouco.



Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Chá Preto"
2 - "Gravidade"
3 - "Tempestade"
4 - "Blond Problem"
5 - "Quinta"
6 - "Don Genaro"
7 - "Far Away"
8 - "45"
9 - "Los Grilos"
10 - "O Copo (Dance 'til It Drops)"
11 - "Besta Mole"
12 - "Sexta"
13 - "Escotilha"
14 - "D.D.P."
15 - "Yo No Quiero Trabalhar"

Gravadora: Banguela Records/ WEA
Produção: Carlos Eduardo Miranda e Nando Reis
Duração: 46 minutos

Ricardo Marrara: baixo
Rodrigo Txotxa: bateria
Carlos Pinduca e Rodrigo Prata: guitarra
Quim: teclado e vocal
Marcelo Vourakis: vocal
Joana Lewis: vocal e percussão



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