No YouTube

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Discos para história: Physical Graffiti, do Led Zeppelin (1975)


Sexto disco de estúdio da banda é primeiro duplo e ótimo resumo da discografia

História do disco

O Led Zeppelin era a maior banda do mundo em 1974, ano em que eles não lançaram um disco de inéditas. Na esteira do lançamento de Houses of the Holy (1973), a banda enfrentou alguns problemas de relacionamento na tumultuada turnê, que gerou um esgotamento físico e mental de todos. John Paul Jones, preocupado com o ritmo intenso do trabalho, pouco tempo para ficar com a família, ameaças de morte e excesso de drogas, chegou a apresentar uma carta de demissão ao empresário Peter Grant e a Jimmy Page – sem John "Bonzo" Bonham e Robert Plant serem avisados.

Depois da reclamação do baixista, Grant e Page pararam um pouco os trabalhos para avaliar a situação do grupo como um todo. Por isso, também enquanto as negociações da renovação com a gravadora Atlantic estavam em estágio inicial – os dois incluíram a criação de um selo para abrigar a discografia do Led Zeppelin –, deu para ter um descanso. Page e Jones começaram projetos solo; Plant até tentou, mas foi demovido da ideia por Grant. Se o baixista já manifestava interesse em deixar o grupo, não era uma boa ideia deixar o vocalista pensar no assunto. A desculpa ideal foi propor a ele ter uma carreira solo administrada pelo futuro selo do Led Zeppelin, de acordo com o jornalista Mick Wall no livro Led Zeppelin – Quando os Gigantes Caminhavam Sobre a Terra (Ed. Globo, 568 págs, R$ 50 em média).

Mais Led Zeppelin:
Discos para história: Led Zeppelin, do Led Zeppelin (1969)
Discos para história: Led Zeppelin II, do Led Zeppelin (1969)
Discos para história: Led Zeppelin III, do Led Zeppelin (1970)
Discos para história: Led Zeppelin IV, do Led Zeppelin (1971)
Discos para história: Houses of the Holy, do Led Zeppelin (1973)
Na Prateleira: Celebration Day - Led Zeppelin

Jones fez alguns projetos pequenos fora do Led Zeppelin, mas, claro, quem chamou a atenção foi Jimmy Page. O guitarrista aceitou o convite para participar da composição da trilha sonora original de Lucifer Rising, filme de Kenneth Anger. Considerado um dos grandes cineastas independentes de seu tempo, Anger tinha algo em comum com Page: era um admirador do ocultista britânico Aleister Crowley (1875-1947).

Eles conversaram, e logo Page estava dentro do projeto "por amor, já que não houve conversas sobre dinheiro", disse o diretor, anos depois. O material veio à tona em 2012, divulgado pelo próprio guitarrista, já que ele nunca chegou a ver o trabalho e o filme juntos. Os dois brigaram durante o processo de gravação – Anger alega demora de Page para entregar o material; o guitarrista disse que o diretor transformou sua casa em ponto turístico sem autorização.

O Led Zeppelin só se juntaria no início de 1974, mas não sem antes precisar regravar parte do material que viria a ser o filme-concerto The Song Remains the Same (1976). Problemas na edição, diretor demitido, dinheiro desperdiçado... Grant resumiu: "foi o filme doméstico mais caro que alguém já fez". Os ensaios, gravação do futuro trabalho, problemas internos e negociações com a Atlantic tomaram tempo suficiente para o filme ser engavetado, ao menos por enquanto. Page só trabalharia nele quase dois anos depois.

Mais discos dos anos 1970:
Discos para história: Cartola, por Cartola (1976)
Discos para história: Unknown Pleasures, do Joy Division (1979)
Discos para história: Tim Maia, de Tim Maia (1970)
Discos para história: Rumours, do Fleetwood Mac (1977)
Discos para história: Refazenda, de Gilberto Gil (1975)
Discos para história: Gita, de Raul Seixas (1974)

Por incrível que pareça, a tensão de um ano tão complicado como 1973 não entrou no estúdio. O tempo fora fez bem a eles e todos estavam animados para gravar mais uma vez. No mesmo período, Grant e a Atlantic entraram em acordo e a Swan Song, selo do Led Zeppelin, seria a nova subsidiária da gravadora e todos receberiam uma alta gratificação, vamos dizer assim, pela renovação. E eles não estavam para brincadeira. Diferente da Apple (Beatles) e da Rolling Stone Records, a intenção era ter outros artistas. O primeiro a assinar foi o grupo britânico Bad Company.

Reunidos em Headley Grange, uma casa transformada em estúdio, o Led Zeppelin até tentou gravar alguma coisa, porém Jones ainda não tinha certeza se ficaria no grupo. Grant adiou as sessões para a primavera e aproveitou para colocar o Bad Company para gravar o que viria a ser a estreia da banda – o primeiro sucesso do Swan Song que não era o Led Zeppelin.

Com a certeza do "fico" do baixista, a banda entrou em estúdio para gravar o disco usando o estúdio móvel de Ronnie Lane – o do Rolling Stones não estava disponível – e o engenheiro de som Ron Nevison, responsável por construir o estúdio e comandar as sessões de gravação do aclamado Quadrophenia (1973), do The Who. Logo que o trabalho começou, eles gravaram oito músicas de maneira muito rápida ("Custard Pie", "In My Time of Dying", "Trampled Underfoot", "Kashmir", "In The Light", "Ten Years Gone", "The Wanton Song" e "Sick Again". Eles estariam trabalhando em overdubs e na mixagem em maio, no Olympic Studios, em Londres, se não fosse a ideia de incluir canções que estavam guardadas desde 1970. Enfim, depois de seis anos de tentativas, finalmente Page teria seu disco duplo.

Era sinal de status para qualquer cantor, cantora ou banda ter um disco duplo. Bob Dylan, The Who, Beatles, Rolling Stones, Elton John, Deep Purple, Yes e Genesis tinham um. Por que o Led Zeppelin não poderia? Era a maior banda do mundo, tinha seu próprio selo e era dona de seu destino. As sessões de gravação seguiram até quase o fim do ano. A mixagem e os overdubs só aconteceram cinco meses depois do tempo previsto.

Veja também:
Discos para história: Low, de David Bowie (1977)
Discos para história: Either/Or, de Elliott Smith (1997)
Discos para história: Strangeways, Here We Come, dos Smiths (1987)
Discos para história: Magical Mystery Tour, dos Beatles (1967)
Discos para história: In Rainbows, do Radiohead (2007)
Discos para história: Brilliant Corners, de Thelonious Monk (1957)

O nome do disco veio de uma ideia de Page para "representar a enorme energia criativa e corpórea que fez parte da produção e da execução do repertório", segundo o livro Luz & Sombra – Conversas com Jimmy Page (Ed. Globo, 288 págs, R$ 30 em média). Já a capa foi inspirada em Compartments (1973), disco de José Feliciano.  A foto é de um prédio da St. Mark's Place, em Nova York com projeto gráfico de Mike Doud e Peter Corriston.

Lançado em 24 de fevereiro de 1975, o disco foi um sucesso. Physical Graffiti virou ganhou o disco de platina na pré-venda e chegou ao terceiro lugar nas paradas americana e britânica ao mesmo tempo. O trabalho impulsionou a venda dos outros discos do Led Zeppelin, fazendo a banda ser a primeira a ter seis discos no top 200. A crítica não foi por outro caminho e considerou o sexto disco de estúdio do grupo o melhor de todos.



Resenha de Physical Graffiti

Um disco do Led Zeppelin que não tem acusação de plágio não é um disco do Led Zeppelin. Com trechos comprovadamente retirados de "Drop Down Mama", "Shake 'Em On Down" e "I Want Some of Your Pie" (chamados carinhosamente de "empréstimos"), "Custard Pie" abre o álbum com uma pegada mais blues que remete ao início da carreira do grupo. E o ritmo é mantido na seguinte, "The Rover", em que Jimmy Page e Robert Plant parecem mais entrosados do que nunca.

Em duração, nenhuma música da discografia do Led Zeppelin supera "In My Time of Dying". Com seus mais de 11 minutos, a faixa é um épico em que a habilidade da banda em improvisar é mostrada sem a menor cerimônia – e eles faziam isso muito bem. E, sim, também é um "empréstimo", no caso de “Jesus Make Up My Dying Bed”, de Blind Willie Johnson (1897-1945), que outros músicos já haviam gravado – Bob Dylan, com o nome de “In My Time Of Dyin'”, e John Sebastian, que deu o nome de “Well, Well, Well”.

"Houses of the Holy", canção que não entrou no disco anterior por não fazer sentido na cronologia, abre o lado B do primeiro disco e traz algumas dicas para o gosto de Page pelo ocultismo (There's an angel on my shoulder/In my hand a sword of gold) em uma faixa bem ritmada em que Bonzo mantém a mesma batida quase o tempo inteiro. Se "Trampled Under Foot" soa quase um funk e mostra a habilidade da banda em tocar o que quiser, "Kashmir" resume bem todos os anos de atividade.



A sexta faixa de Physical Graffiti está entre as melhores da história da banda e poderia ser o cartão de visitas para quem não é um profundo conhecedor da discografia. O riff reconhecível de Page, a voz quase angelical de Plant para cantar versos do tipo (Talk and song from tongues of lilting grace/ Whose sounds caress my ear/ But not a word I heard could I relate/ The story was quite clear). Enfim, uma das melhores faixas lançadas dos anos 1970.

O disco 2 abre com a enigmática "In the Light" e, segundo alguns pesquisadores da obra do Led Zeppelin, os efeitos na música são parte do clima criado para falar sobre a caminhada até a luz para encontrar Lúcifer – sendo ele uma espécie de estrela que emana essa luz. A instrumental acústica "Bron-Yr-Aur" é uma homenagem ao local em que a banda gravou a maioria das músicas presentes em Led Zeppelin III (1970), enquanto "Down by the Seaside" tem um ar leve e descompromissado em que o trabalho de John Paul Jones nos efeitos é o grande destaque. O lado A fecha com a ótima "Ten Years Gone", faixa que Robert Plant se inspirou em uma antiga namorada para escrever a letra (I'm never going to leave you/ I'm never going to leave/ Holding on, ten years gone/ Ten years gone, holding on, ten years gone).



A última parte do disco tem "Night Flight", música composta por Jones sobre um jovem que deseja não entrar no Exército – era o auge da Guerra do Vietnã. A seguinte, "The Wanton Song", era uma brincadeira que Page fazia nos shows que acabou evoluindo até virar uma faixa completa sobre uma "mulher silenciosa que vem através das chamas". A animada "Boogie with Stu" tem a participação de Ian Stewart no que foi uma brincadeira entre músicos no estúdio durante as gravações de Led Zeppelin IV. Para fechar, a acústica "Black Country Woman" (colocada para dar o tempo de um álbum duplo, mas não é uma faixa ruim) e "Sick Again", um hino a todas da groupies de Los Angeles (em especial Lori Maddox, de 16 anos).

Physical Graffiti mostrou a habilidade de o Led Zeppelin ser capaz de tocar qualquer coisa que quisesse. Bastava a banda ensaiar por tempo suficiente para dar cara a qualquer música – elétrica ou acústica. Foi um dos últimos momentos de tranquilidade da banda. Depois disso, a vida mostraria sua dura face.



Ficha técnica:

Tracklist:

Disco 1 - Lado A

1 - "Custard Pie" (4:15)
2 - "The Rover" (5:39)
3 - "In My Time of Dying" (John Bonham, John Paul Jones, Page e Plant) (11:08)

Lado B

4 - "Houses of the Holy" (4:04)
5 - "Trampled Under Foot" (Jones, Page e Plant) (5:36)
6 - "Kashmir" (Bonham, Page e Plant) (8:37)

Disco 2 - Lado A

7 - "In the Light" (Jones, Page e Plant) (8:47)
8 - "Bron-Yr-Aur" (Page) (2:06)
9 - "Down by the Seaside" (5:15)
10 - "Ten Years Gone" (6:34)

Lado B

11 - "Night Flight" (Jones, Page e Plant) (3:38)
12 - "The Wanton Song" (4:08)
13 - "Boogie with Stu" (Bonham, Jones, Page, Plant e Ian Stewart) (3:52)
14 - "Black Country Woman" (4:24)
15 - "Sick Again" (4:42)

Todas as músicas foram escritas por Jimmy Page e Robert Plant, exceto as marcadas

Gravadora: Swan Song
Produção: Jimmy Page
Duração: 82min45s

John Bonham: bateria e percussão
John Paul Jones: baixo, órgão, piano, teclado, mellotron, guitarra, bandolim, sintetizador, clavinet, e arranjo de cordas
Jimmy Page: violão, guitarra, guitarra havaiana, guitarra slide e bandolim
Robert Plant: vocal e gaita; violão em "Boogie with Stu"

Convidado:
Ian Stewart: piano em "Boogie with Stu"



Siga o blog no Twitter e no Facebook. E compre livros na Amazon e fortaleça o trabalho do blog!

Saiba como ajudar o blog a continuar existindo

Gostou do post? Compartilhe nas redes sociais e indique o blog aos amigos!