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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Discos para história: Strangeways, Here We Come, dos Smiths (1987)


Disco foi o último trabalho de estúdio lançado pela banda inglesa

História o disco

Quando uma banda lança um disco clássico, a missão de repeti-lo é sempre muito difícil. Salvo alguma das bandas clássicas que estão na história da música, repetir um sucesso é muito difícil; fazer um clássico atrás do outro, então, é praticamente impossível. Mas os Smiths conseguiram entrar nessa restrita turma. Um ano e três meses depois do lançamento de The Queen Is Dead, a banda disponibilizaria Strangeways, Here We Come – quarto e último trabalho de estúdio.

Na autobiografia lançada em 2013, o vocalista Morrissey chama o trabalho de "obra-prima, com tudo perfeitamente encaixado no lugar". Também em uma autobiografia, chamada Set the Boy Free, o guitarrista Johnny Marr conta que havia um desejo de tentar fazer alguma coisa diferente, de mexer com a estrutura – ou parte dela – dos Smiths. Apesar da empolgação com o resultado do disco, as coisas não estavam bem na banda à época.

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O lançamento de The Queen Is Dead atrasou sete meses por conta de uma disputa judicial com a gravadora Rough Trade, que a banda alegava não investir o suficiente na promoção dos singles e das turnês do grupo pelo Reino Unido. Fora os problemas com drogas dos integrantes. O baixista Andy Rourke chegou a ser demitido da banda pelo uso excessivo de heroína – reza a lenda, negada até hoje, que Morrissey deixou um bilhete no carro dizendo "Andy, você está fora dos Smiths. Adeus e boa sorte, Morrissey" –, mas retornou duas semanas depois.

As frustrações também estavam pesadas com a Sire, distribuidora do material nos Estados Unidos. A banda cancelou a turnê e começou a negociar um contrato com outras gravadoras. Um acordo com a EMI foi fechado com a condição do futuro trabalho ser divulgado e distribuído pela parceria Rough Trade/Sire. Depois disso, era vida nova para todos. Mas a maioria das pessoas não sabiam que o clima no grupo também não estava lá essas coisas.

No primeiro semestre de 1987, a banda lançou dois singles bem recebidos por público e crítica ("Shoplifters of the World Unite" e "Sheila Take a Bow". Ambos atingiram o número dois nas paradas) e duas compilações – uma para o Reino Unido, outra para o mercado internacional. O nome do disco, chamado The World Will not Listen, era uma alfinetada de Morrissey ao fato de que o grupo não era reconhecido por muita gente como um dos grandes de sua geração.


Eles aproveitaram esse momento para entrar em estúdio mais uma vez para gravação de um novo trabalho nos estúdios do The Wool Hall, em Beckington. Foi nesse momento que, em bom português, o caldo azedou de vez na relação entre Marr e Morrissey. O guitarrista sentia que a hora de dar um salto musical, de subir o nível, de parar de fazer mais do mesmo e ir além. Já o vocalista não queria se afastar de suas influências musicais e do que havia construído com a banda até ali. A relação estava tão ruim, que, enquanto Marr ficava até mais tarde no estúdio bebendo e trabalhando com o produtor Stephen Street e o engenheiro de som, Morrissey ia dormir e só conferia o resultado do trabalho feito durante a madrugada na manhã seguinte.

No meio dessa leva de material, Johnny Marr – começando a trabalhar com outros artistas – pediu uns dias de folga em junho, e isso foi malvisto por seus colegas de banda. Em julho, depois de ler um artigo na revista 'NME', em que um jornalista havia apurado que Morrissey não gostava da ideia de ver Marr trabalhando com outras pessoas, o guitarrista comunicou aos membros da banda que estava de saída em definitivo.

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Muitos afirmam que Morrissey plantou a notícia no semanário britânico para dar um recado para Marr. Ambos estavam estressados não só com o trabalho de composição, mas por ter que administrar a carreira da banda. Anos depois, o guitarrista contou que não via futuro em seguir nos Smiths, pois sentiu não haver mais a afinidade musical que os havia unido anos antes. E o cantor, em sua autobiografia, contou que uma pausa poderia ter evitado o rompimento. O grupo ainda tentou seguir em frente com o guitarrista Ivor Perry, porém as coisas não deram certo.

Logo após o lançamento de Strangeways, Here We Come, em 28 de setembro de 1987, os Smiths anunciaram o fim das atividades. Bem recebido por público e crítica, foi a despedida ideal de um dos grupos mais influentes dos anos 1980.


Resenha de Strangeways, Here We Come

"A Rush and a Push and the Land is Ours" abre o disco com um teor de canção dos anos 1920 ou 1930, até que a voz de Morrissey, antes distorcida, aparece mais clara para cantar a letra sobre um alguém apaixonado, mas relutante em se abrir completamente. Uma escolha muito peculiar para single, o primeiro após o fim da banda, "I Started Something I Couldn't Finish" tem uma guitarra ao fundo dando o tom da faixa e o saxofone aparecendo como protagonista de uma das melhores letras da dupla Morrissey-Marr.

Com dez anos de atraso, Morrissey matava um dançarino de disco music. "Death of a Disco Dancer" é uma das faixas mais experimentais do disco, com Marr mostrando o que ele gostaria de fazer enquanto músico para o futuro da banda, enquanto a letra foca em um dos muitos recados que o vocalista adora passar em suas canções. A seguinte, "Girlfriend in a Coma", mostra duas propostas completamente diferentes. A letra (Morrissey) é séria e fala sobre uma possível despedida, mas a melodia (Marr) é alegre. Aposto que muita gente canta essa faixa obscura feliz da vida.

O nome imenso da quinta faixa, "Stop Me If You Think You've Heard This One Before", não deve preocupar ninguém, pois temos os Smiths em forma e lembrando muitas das faixas lançadas nos discos anteriores – leia-se uma boa letra melancólica e um ótimo riff para acompanhá-la. Outra de nome não muito fácil para decorar, "Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me" tem uma longa introdução para uma das canções mais melancólicas da história da banda ("Last night I dreamt/ That somebody loved me/ No hope, no harm/ Just another false alarm", diz um trecho da letra).



Humor e ironia fazem parte de ser inglês e essas duas coisas aparecem em "Unhappy Birthday", em que o autor deseja tudo de ruim para uma pessoa por um motivo simples: ela é uma pessoa horrível. Acústica, ela mostra como Marr foi fundamental na construção do repertório dos Smiths, enquanto "Paint a Vulgar Picture" é um recado de um magoado Morrissey para indústria musical sobre como o legado de artistas é maltratado pelas gravadoras e emissoras de TV.

A curta "Death at One's Elbow" é uma canção de despedida, resta saber se é para alguém especificamente ou se Morrissey já previa o rompimento da banda e usou de uma metáfora para dizer adeus. Por fim, "I Won't Share You" é um recado claro e egoísta a Marr sobre não querer dividi-lo com ninguém. Apesar de tratá-lo como um fardo, o "amante" ainda é motivo de disputa e dúvida interna, mas ele sabe que o adeus é questão de tempo.

A despedida dos Smiths, ainda que sem querer, é um dos grandes discos dos anos 1980. A lamentar o que seria da banda se tivesse apostado nesse caminho um pouco mais experimental sem perder a identidade. Poucos meses depois, Morrissey lançaria o primeiro single de sua carreira solo. Johnny Marr só faria o mesmo movimento em 2013.



Ficha técnica

Tracklist:

1 - "A Rush and a Push and the Land is Ours" (3:00)
2 - "I Started Something I Couldn't Finish" (3:47)
3 - "Death of a Disco Dancer" (5:26)
4 - "Girlfriend in a Coma" (2:03)
5 - "Stop Me If You Think You've Heard This One Before" (3:32)
6 - "Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me" (5:03)
7 - "Unhappy Birthday" (2:46)
8 - "Paint a Vulgar Picture" (5:35)
9 - "Death at One's Elbow" (2:01)
10 - "I Won't Share You" (2:48)

Todas as letras foram escritas por Morrissey e Johnny Marr.

Gravadora: Rough Trade/Sire
Produção: Johnny Marr, Morrissey e Stephen Street
Duração: 36min37s

Morrissey: vocais; piano em "Death of a Disco Dancer"; palmas em "Paint a Vulgar Picture"
Johnny Marr: guitarra, teclado, gaita; harmônio em "Unhappy Birthday"; auto-harpa em "I Won't Share You"; sintetizadores, saxofone; vocal de apoio em "Death at One's Elbow"; palmas em "Paint a Vulgar Picture"
Andy Rourke: baixo, teclado; palmas em "Paint a Vulgar Picture"
Mike Joyce: bateria, percussão; palmas em "Paint a Vulgar Picture"

Convidado:

Stephen Street: bateria eletrônica em "I Started Something I Couldn't Finish", "Paint a Vulgar Picture" e "Death at One's Elbow"; arranjo de cordas em "Girlfriend in a Coma"; efeitos em "Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me" e "Death at One's Elbow"



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