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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Discos para história: Magical Mystery Tour, dos Beatles (1967)


Versão americana do disco é muito mais recheada do que a britânica

História do disco

Em 1º de setembro de 1967, Paul McCartney, John Lennon, George Harrison e Ringo Starr se reuniram para definir o que os Beatles fariam da própria carreira daquele momento em diante. Cinco dias antes, o empresário Brian Epstein, que estava com a banda desde o início da carreira, havia sido encontrado morto em casa – o laudo médico atestou overdose acidental de remédios para dormir com álcool. De maneira abrupta, estava encerrada uma das parcerias mais lucrativas da indústria da música.

Diagnosticado com depressão, ansiedade e vício em remédio, Epstein passou um período em uma clínica para tentar tratar os problemas. Pensando 24 horas nos Beatles, a preocupação aumentou quando a banda parou de fazer turnês e uma parte de seu lucro diminuiu consideravelmente. O empresário também acreditava – até de maneira paranoica – que os Beatles poderiam largá-lo a qualquer momento. Centenas de fatores foram fundamentais para o sucesso avassalador do que viria a ser um dos símbolos do século 21. E a administração de Epstein, certamente, foi um deles.

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A reunião com os quatro definiu o planejamento para a sequência da carreira. Primeira providência era garantir que o sócio de Epstein, o feroz empresário Robert Stigwood, não chegasse perto de qualquer negócio que envolvesse a carreira deles. A segunda era o que eles fariam artisticamente para seguir em frente. McCartney, inspirado pelas histórias hippies contadas por membros do Jefferson Airplane e do Greatful Dead sobre a jornada épica do escritor Ken Kesey em um ônibus multicolorido pelos Estados Unidos, sugeriu que seria fazer algo semelhante com os Beatles e uma trupe de pessoas malucas em uma "magical mystery tour".

Mas McCartney tinha algo mais em mente quando falava sobre o projeto. Magical Mystery Tour nasceu para ser disco e filme, um projeto ainda mais ousado que Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, o disco arrasa-quarteirão de poucos meses atrás. Só restava filmar o projeto. E foi aí que, usando uma gíria bem atual, "deu ruim". Através da empresa que dirigia, Epstein era capaz de fazer o que os Beatles queiram em um passe de mágica, mas a coisa era diferente quando eles precisaram agir como empresários. Foi o caos. Problemas sindicais, excesso de pessoas, jornalistas o tempo inteiro, problemas em acomodar todo elenco, falta de locais adequados para gravação... Os Beatles estavam vendo que administrar a própria carreira não era fácil.

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O que também atrapalhou foi a pretensão de McCartney em achar que o processo de fazer um disco e um filme era igual. A edição, que deveria durar duas semanas, durou cinco vezes mais. O trabalho começou com os quatro beatles dando opinião, mas, no fim, Paul tomou a dianteira e assumiu o trabalho. As gravações do disco aconteciam justamente no período em que eles não estiveram ocupados com a edição do filme.

Antes de começar o projeto, "Magical Mystery Tour" e "I Am the Walrus"" já estavam gravadas. A primeira, McCartney gravou com a ideia de ter nela a base do projeto; a segunda foi composta ainda no verão daquele ano por John Lennon. "Uma parte da música eu fiz durante uma viagem de ácido. A segunda parte eu fiz durante outra viagem de ácido", contou Lennon, anos depois.

Para tirar a pressão de ser o sucessor do então maior sucesso da banda, a EMI, distribuidora dos discos e responsável pela propaganda, divulgou o trabalho como a trilha sonora do futuro filme dos Beatles e vendeu o registro no Reino Unido como um EP duplo ("Magical Mystery Tour" e "Your Mother Should Know" no lado A do primeiro LP; "I Am the Walrus" no lado B. "The Fool on the Hill" e "Flying" abrindo o segundo vinil; "Blue Jay Way" encerrando). Como esse tipo de artificio era incomum nos Estados Unidos, a gravadora Capitol teve permissão de colocar todas essas faixas no lado A e fazer o lado B só com os singles lançados nos últimos meses. Assim, pela primeira vez, o material lançado pelos norte-americanos era melhor do que o britânico.

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As capas das versões britânica e americana eram basicamente as mesmas, com uma ligeira mudança entre uma versão e outra. As duas versões vinham com as mesmas coisas, só que, na pressa, os americanos receberam exatamente o mesmo material escrito - sem menção alguma ao fato de ter cinco faixas a mais do que a versão do outro lado do Atlântico. O disco foi bem recebido por público e crítica, principalmente a versão americana, hoje parte da discografia oficial do grupo.

E o filme? Bom, foi um fracasso. Um dos erros primários da gravação foi ter construído a história e as imagens para TV em cores, mas poucos britânicos tinham um aparelho tão sofisticado em casa em 26 de dezembro de 1967, data do lançamento do trabalho. Foi um desastre de proporções épicas. Mas uma lição foi aprendida: os Beatles, afinal, não eram infalíveis.


Resenha de Magical Mystery Tour (versão USA)

A faixa-título abre o trabalho e é inevitável compará-la com o início de Sgt Peppers... A premissa acaba sendo a mesma – no caso, convidar o público a entrar nessa louca aventura desse novo projeto dos Beatles. Uma peculiaridade sobre a animada faixa de refrão simples e grudento que mudava de tempo a todo instante, como se fosse uma prévia do que estávamos perto de assistir: foi a única canção-título de um filme da banda que não virou single.

Erroneamente interpretada como uma referência a Maharishi Mahesh Yogi, mestre em meditação transcendental que os Beatles estavam vendo, "The Fool on the Hill" é um recorte sobre um tolo que passa boa parte do tempo recluso em sua caverna, e mais soa uma história própria ou uma inspiração vinda de alguma outra fonte. McCartney admitiu, meses depois, que ele esperava conhecer alguém como o homem de sua história.

A instrumental "Flying" é um exercício de pura psicodelia, o que, naquela época, era perfeitamente normal, mas é em "Blue Jay Way", de George Harrison, que podemos ver como o trabalho de George Martin na produção é fundamental. Foi ele quem teve a ideia de incremental a faixa com violoncelos, lamentos e efeitos de fita ao contrário. A intenção era destacar as mensagens da letra ("don't be long" [não demore] e "don't belong" [não pertença]) e seu jogo de palavras. E, em outra canção-irmã de Sgt Peppers..., "Your Mother Should Know" é a "When I'm Sixty Four" da vez, só que bem menos atrativa.



Teclado, baixo, bateria, arranjo de cordas, sopros, percussão e um coral com 16 vozes. Essa era a base de "I Am the Walrus", com um vocal arrastado de John Lennon. É a típica canção que o fim dos anos 1960 permitia ao artista fazer por ser uma colagem de várias coisas que não faziam o menor sentido separadas, mas, juntas, faziam um sentido estético dos mais brilhantes. Era o surrealismo entrando com tudo na música pop, tendo Lennon usando trechos de clássicos da literatura britânica. Era John Lennon, 28, sendo a Morsa, encarnando uma das grandes trapaceiras da obra do escritor Lewis Caroll.

"Hello, Goodbye" entra naquela lista de músicas dos Beatles de fácil assimilação por qualquer um. Animada, só poderia ter sido escrita por McCartney para ser um dos singles da banda – e foi mesmo, com "I Am the Walrus" no lado B. Compostas na mesma época, "Strawberry Fields Forever" e "Penny Lane" faziam parte de um projeto inicial de os Beatles voltar às raízes, mas, abortado por conta de Sgt. Peppers, acabaram sendo lançadas em um compacto simples em fevereiro de 1967. E foi o primeiro material do grupo a não chegar ao primeiro posto das paradas.

Uma mansão vitoriana transformada em orfanato, perto da casa onde John Lennon passou a infância, realmente tem o nome de "Strawberry Fields Forever". A faixa pode ser considerada um retorno ao passado ao melhor estilo "que tempo bom que não volta mais" e ganha ainda mais tamanho com os arranjos sinuosos que Martin fez para unir as duas partes de uma mesma faixa – uma mais lenta e outra muito mais voraz. Já "Penny Lane" é muito mais sobre como um lugar fica na memória em comparação com a realidade. À medida em que ouvimos a música, nos damos conta que tudo não passa de um sonho envolvendo um banqueiro, um barbeiro, crianças e uma enfermeira e um tempo que mistura sol e chuva.



Composta a partir de dois fragmentos de músicas de Lennon e McCartney, "Baby, You're a Rich Man" começou em uma piada de McCartney para Epstein ("Baby, You're a Rich Jew" ["Baby, você é um judeu rico"]. Entre as últimas horas de 11 de maio de 1967 e o início do dia seguinte, no Olympic Sound Studios, em Londres, a faixa ficou pronta, sendo a primeira a ser feita e mixada fora de Abbey Road.

Para encerrar a versão americana, "All You Need Is Love" foi apresentada em um especial de TV que uniu várias emissoras pelo mundo, chamado Our World – os Beatles foram escolhidos os representantes britânicos e tiveram a missão de escrever "uma canção de fácil acesso para todos os povos do mundo". A faixa tem um arranjo simples, 13 vocais de apoio e uma letra mais simples que do que parece. A banda não quer que o amor seja a solução dos problemas, mas que ele exista apesar deles. E ainda tem uma piada com "La Marseillaise", o hino da França, que aparece abrindo a faixa.

Assim como no disco anterior, cada beatle compôs um tema particular que, ao mesmo tempo que o representava, entraria como parte de uma mesma engrenagem. Obviamente menos glamourizado do que seu antecessor, Magical Mystery Tour ganhou um brilho a mais na versão americana com a inclusão dos singles. E isso fez toda diferença.



Ficha técnica

Tracklist:

Lado A: trilha sonora do filme

1 - "Magical Mystery Tour" (2:48)
2 - "The Fool on the Hill" (3:00)
3 - "Flying" (George Harrison/Lennon–McCartney/Richard Starkey) (Instrumental) (2:16)
4 - "Blue Jay Way" (Harrison) (3:50)
5 - "Your Mother Should Know" (2:33)
6 - "I Am the Walrus" (4:35)

Lado B: singles de 1967

1 - "Hello, Goodbye" (3:24)
2 - "Strawberry Fields Forever" (4:05)
3 - "Penny Lane" (3:00)
4 - "Baby, You're a Rich Man" (3:07)
5 - "All You Need Is Love" (3:57)

Todas as músicas foram compostas por Lennon-McCartney, exceto as marcadas

Gravadora: Parlophone (UK)/Capitol (USA)
Produção: George Martin
Duração: 36min35s

John Lennon: vocal, harmonia, vocal de apoio, violão, guitarra, teclado, piano, mellotron, órgão e clavioline; gaita em "The Fool on the Hill"

Paul McCartney: vocal, harmonia, vocal de apoio, baixo, baixo acústico, piano e mellotron; flauta doce em "The Fool on the Hill"

George Harrison: vocal, harmonia e vocal de apoio, guitarra, guitarra slide, violão e órgão; gaita em "The Fool on the Hill"

Ringo Starr: bateria e percussão

Convidados:

Mal Evans e Neil Aspinall: percussão
Ken Essex e Leo Birnbaum: violas
Dick Morgan e Mike Winfield: corne inglês
Frank Clarke: baixo duplo
David Mason: trompete pequeno
Eddie Kramer: vibrafone
George Martin: piano
Rex Morris e Don Honeywill: saxofone
Jack Emblow: acordeão
Evan Watkins, Henry Spain, Neill Sanders, Tony Tunstall e Morris Miller: trompa
Ray Swinfield, P. Goody, Manny Winters, Dennis Walton, Christoper Taylor, Richard Taylor e Jack Ellory: flauta
David Mason, Stanley Woods, Leon Calvert, Freddy Clayton, Bert Courtley, Duncan Campbell, Tony Fisher, Greg Bowen, Derek Watkins, Stanley Roderick, David Mason, Elgar Howarth, Roy Copestake e John Wilbraham: trompetes
Sidney Sax, Patrick Halling, Eric Bowie, Jack Holmes, Sidney Sax, Jack Rothstein, Ralph Elman, Andrew McGee, Jack Greene, Louis Stevens, John Jezzard e Jack Richards: violino
Brian Martin, Peter Halling, John Hall, Derek Simpson, Peter Halling, Norman Jones, Lionel Ross, Eldon Fox, Brian Martin e Terry Weil: violoncelo
Peggie Allen, Wendy Horan, Pat Whitmore, Jill Utting, June Day, Sylvia King, Irene, King, G. Mallen, Fred Lucas, Mike Redway, John O'Neill, F. Dachtler, Allan Grant, D. Griffiths, J. Smith e J. Fraser: vocais de apoio
Mick Jagger, Keith Richards, Marianne Faithfull, Keith Moon, Eric Clapton, Pattie Boyd Harrison, Jane Asher, Mike McCartney, Maureen Starkey, Graham Nash, Rose Eccles Nash, Gary Leeds e Hunter Davies: vocais de apoio em "All You Need Is Love"



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