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quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Discos para história: Brilliant Corners, de Thelonious Monk (1957)


Trabalho foi o primeiro grande sucesso da carreira solo do pianista

História do disco

A casa estava cheia para a apresentação. Tão cheia que os seguranças não davam conta e as pessoas se acumulavam na porta do Five Spot Café, clube de jazz inaugurado em 6 de setembro de 1956. Frequentado por escritores como Jack Kerouac (1922-1969) e Allen Ginsberg (1926-1997), o bar havia virado ponto de encontro de artistas e intelectuais. O primeiro músico a fazer uma curta temporada de apresentações foi o pianista Cecil Taylor, acompanhado por Buell Neidlinger no baixo e Denis Charles (1933-1998) na bateria. Mas nenhuma chamou tanto a atenção como o período de shows do também pianista Thelonious Monk (1917-1982).

Em 4 de julho de 1957, o quarteto liderado por Monk, com John Coltrane (1926-1967) no saxofone tenor, Wilbur Ware (1923-1979) no baixo e Shadow Wilson (1919-1959) na bateria começou uma estadia de seis meses no clube. O que era para ser uma simples temporada acabou virando um dos momentos históricos do jazz. O Five Spot Café foi colocado no mapa cultural da cidade ao ter todos os dias lotados, enquanto Monk ganhou fama internacional por suas apresentações. O quarteto mudaria de formação ao longo dos meses, mas as pessoas estavam lá para ver o pianista apresentar as belas canções de Brilliant Corners, o terceiro disco dele lançado pela gravadora Riverside.

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Thelonious Sphere Monk é considerado um dos grandes pianistas da história do jazz. A carreira começou na famosa gravadora Blue Note, em 1947, responsável por alguns dos grandes lançamentos do gênero entre os anos 1930 e 1960 – Miles Davis (1926-1991), Coltrane e Lee Morgan (1938-1972) são alguns dos nomes que lançaram discos importantes sob o selo. A compilação Genius of Modern Music: Volume 1 & 2 (1947 e 1952) foi o primeiro trabalho de Monk em estúdio e, em 1952, conseguiu um contrato para tocar uma carreira solo. Ele foi uma aposta da gravadora Prestige, mas o problema é que o público de jazz não deu muita atenção aos três discos lançados por Monk. Com ambos desiludidos, o selo acabou vendendo o contrato do pianista para a concorrente Riverside.

Monk queria ampliar seu público e acabou abrindo mão de composições originais para focar em suas influências, como o pianista Duke Ellington (1899-1974). A estratégia foi uma completa furada e, além de não atingir esse tal novo público, o músico não estava conseguindo manter o interesse de quem o acompanhava há bastante tempo. Thelonious Monk Plays the Music of Duke Ellington (1955) e The Unique Thelonious Monk (1956) foram dois fracassos. Ainda mais desiludido, Monk desistiu desse trabalho e foi fazer o que sabia de melhor: compor suas próprias músicas.

Em três sessões em estúdio, realizadas nos dias 9 e 15 de outubro e 7 de dezembro de 1956, Monk entrou disposto a fazer um grande trabalho em estúdio. O planejamento inicial era finalizar o disco em uma semana. Tudo correu bem na primeira sessão, mas a segunda foi um pouco mais complicada. A banda ficou quatro horas trabalhando apenas na faixa título por um motivo bem peculiar: Monk aprendeu com Ellington que a banda deveria aprender a faixa só de ouvi-la e que o líder não tinha a menor obrigação de ensiná-los como deveriam tocá-la. Essa decisão em particular acabou gerando um pequeno entrevero do pianista com o baterista Max Roach (1924-2007) e o contrabaixista Oscar Pettiford (1922-1960), que fez birra e, em certo momento, apenas fingia que estava tocando.

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O resultado gerou 25 takes incompletos que precisaram ser unidos para formar a faixa do início ao fim. A demora em conseguir fazer esse trabalho gerou uma pequena mudança na formação da banda que iniciou os trabalhos para última sessão. O trompetista Clark Terry (1920-2015) substituiu Ernie Henry (1926-1957) (em turnê com a banda de Dizzy Gillespie) e um jovem baixista chamado Paul Chambers (1935-1969) substituído por Pettiford, que se recusou a trabalhar com Monk novamente. Eles demoraram tanto para finalizar "Bemsha Swing" naquele dia que sobraram apenas 20 minutos do tempo alugado. Foi aí que Monk mostrou todo seu talento no instrumento ao gravar "I Surrender Dear" em uma única tomada.

Acompanhado por alguns dos grandes músicos de jazz da época, o pianista conseguiu entregar um LP histórico, chamando a atenção do mundo do jazz. Isso gerou o convite para a temporada de seis meses no Five Spot Café. Um ano depois do lançamento do trabalho, Thelonious Monk foi escolhido o Melhor Pianista na enquete de críticos internacionais na revista 'Down Beat'. Seis décadas depois, o disco é um marco na história do jazz e está na Biblioteca Nacional dos Estados Unidos.



Resenha de Brilliant Corners 

A trabalhosa faixa que dá nome ao disco abre o LP mostra bem o motivo de os músicos terem demorado tanto para fazê-la. A faixa começa até que simples, mas a dificuldade vai aumentando a cada nova parte introduzida. Só ela seria suficiente para a carreira de Thelonious Monk ser exaltada por todo amante de jazz. A seguinte, "Ba-Lue Bolivar Ba-Lues-Are", é a primeira de duas homenagens a Baronesa Pannonica de Koenigswarter (1913-1988).

Amiga de muita gente na cena do jazz em Nova York, ela bancou muitos discos de gente de alto calibre como Charlie Parker (1920-1955) e do próprio Monk. Essa épica faixa, com mais de 13 minutos, é a história instrumental dos problemas que a Baronesa teve na administração do Hotel Bolivar, com os saxofonistas Sonny Rollins e Ernie Henry fazendo solos brilhantes. A segunda homenagem está na bonita "Pannonica", quando Monk toca piano e celesta ao mesmo tempo – ele tocou um instrumento com cada mão na gravação.



Gravada em uma única tomada nos momentos finais do tempo alugado no estúdio, "I Surrender, Dear" foi composta por Harry Barris e acabou sendo o primeiro grande sucesso do cantor Bing Crosby (1903-1977). Aqui, a versão instrumental apresenta apenas Monk no piano e mostra o motivo de ele ser uma lenda do jazz. A técnica, a nota certa no momento certo e toda delicadeza na execução são espetaculares. Por fim, "Bemsha Swing", co-escrita com o baterista Denzil Best e gravada pela primeira vez em Thelonious Monk Trio (1952), ganhou uma nova versão neste álbum.

Foi o início de um dos períodos mais férteis na carreira de Monk que, coincidentemente, também foi um período de mudança na estrutura do jazz. A partir de 1957, muitos dos clássicos do estilo foram feitos. E Brilliant Corners está entre eles.



Ficha técnica 

Tracklist:

1 - "Brilliant Corners" (7:42)
2 - "Ba-Lue Bolivar Ba-Lues-Are" (13:24)
3 - "Pannonica" (8:50)
4 - "I Surrender, Dear" (Harry Barris) (5:25)
5 - "Bemsha Swing" (Thelonious Monk, Denzil Best) (7:42)

Todas as faixas foram compostas por Thelonious Monk, exceto as marcadas 

Gravadora: Riverside
Produção: Orrin Keepnews
Duração: 42min47s

Thelonious Monk: piano; celesta em "Pannonica"
Ernie Henry: saxofone alto em "Brilliant Corners", "Ba-lue Bolivar Ba-lues-are" e "Pannonica"
Sonny Rollins: saxofone tenor em todas as faixas, menos em "I Surrender Dear"
Oscar Pettiford: contrabaixo em "Brilliant Corners", "Ba-lue Bolivar Ba-lues-are" e "Pannonica"
Max Roach: bateria em todas as faixas, exceto em "I Surrender Dear"; tímpano on "Bemsha Swing"
Clark Terry: trompete em "Bemsha Swing"
Paul Chambers: contrabaixo em "Bemsha Swing"



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