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quinta-feira, 18 de maio de 2017

Discos para história: Tim Maia, de Tim Maia (1970)


Estreia do cantor está entre as melhores daquela década

História do disco

Tim Maia (1942-1998) fez parte da mesma geração de Roberto e Erasmo Carlos, Jorge Ben e outros tantos nomes que fariam muito sucesso na música brasileira nos anos seguintes. Dentre todos eles, Tim seria o último a gravar seu primeiro disco, a fazer sucesso e ser reconhecido como um talentoso cantor e compositor. Porque Sebastião Rodrigues Maia não seguiu uma linha certa para isso. Se na vida existem dois caminhos, o certo e o errado, ele criou um terceiro: o próprio. Nem fácil, nem difícil, apenas próprio.

A carreira começou ainda no fim dos anos 1950 com a participação em diversos grupos amadores, sendo o mais famoso deles contando com Roberto Carlos na formação. Os Sputinks chegaram a se apresentar no Clube do Rock, programa comandado por Carlos Imperial (1935-1992) na TV Tupi. Mas ele vislumbrava conhecer os Estados Unidos, a Meca para quem era amante da música. E lá foi ele, aos 16 anos, desbravar uma terra desconhecida.

Mais discos dos anos 1970:
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Lá, morou em Nova York, trabalhou em lanchonetes, conheceu e ficou encantado com o soul e o R&B. Chegou a fazer uma gravação, mas foi coisa pequena. Cansado, queria explorar o sul do país e, ao lado de três amigos, começou a praticar pequenos furtos para sobreviver e manter a empreitada de pé. Foi preso por porte de maconha e acabou sendo deportado em 1964. Independente da maneira que retornou à terra natal, Tim Maia era outro homem. Musicalmente maduro, ficou espantado com o sucesso dos amigos, enquanto ele estava sem dinheiro e precisando de trabalho.

Recorreu aos amigos próximos que estavam bem colocados na indústria musical, mas foi ignorado na maioria das vezes – o mais famoso caso é de Roberto Carlos. Mesmo cedendo em algumas coisas, ele conseguiu entrar na indústria como produtor e arranjador. Conhecedor da soul music, ele foi fundamental para entrada do gênero no mainstream da música brasileira. A grandeza de Tim Maia se daria pelo fato de ele ser inspirado pelo gênero, não copiá-lo. Ao colocar coisas brasileiras nele, conseguiu fazer algo único e de nível muito alto.

Veja também:
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No fim dos anos 1960, lançou um compacto com duas faixas pela CBS e foi convidado por Elis Regina (1945-1982) para gravação de “These Are The Songs”. Foram dois movimentos suficientes para o Brasil conhecê-lo. Tim ainda contou com uma ajudinha dos Mutantes, que o indicaram a gravadora Polydor. Misturando as influências de Ray Charles, Stevie Wonder, The Supremes e o baião, o cantor entrava no estúdio para gravar seu primeiro disco cheio. A experiência de produtor e arranjador davam a ele conhecimento para trabalhar – do jeito bem Tim Maia – junto dos músicos para ajudá-los nos arranjos das faixas e a conseguir chegar no tom desejado nas faixas.

Ter seu nome e uma foto enorme na capa do LP formavam seu cartão de visita. Todos o reconheceriam quando o vissem. E foi bem reconhecido graças aos elogios da crítica e da alta venda desse primeiro trabalho, que chegou às 24 semanas na primeira posição. Cheio de hits e canções importantes do repertório de Tim Maia, a estreia em estúdio serviu para consolidar a então novata cena de soul music brasileira, que ainda teria Cassiano e Hyldon como nomes fortes ainda naquela década. E ela não poderia ter um representante melhor do que o "Síndico".



Resenha de Tim Maia

O LP começa com uma releitura de "Coroné Antonio Bento", clássico composto por João do Vale e Luiz Wanderley. Fundamental para entender essa fusão entre R&B e forró feita por Tim Maia neste disco é ouvir como o arranjo se desenvolve com os vocais de apoio, dando o suporte necessário para o vocal principal brilhar e já mostrar seus famosos maneirismos. Daí a black music toma conta com a dançante "Cristina", faixa sobre se apaixonar pela primeira vez e como ir ver esse amor faz bem para corpo e alma.

Inspirado pelos anos que passou nos Estados Unidos, a letra de "Jurema" é toda em inglês, mas tem um gingado tipicamente brasileiro nessa curta faixa que serve para dançar em qualquer lugar – publicamente ou não. E "Padre Cícero", parceria com Cassiano, uma melancólica canção sobre uma das pessoas mais admiradas entre os nordestinos. E "Flamengo" não tem nada de mais, mas mostra como um bom arranjo pode subir o nível de uma palavra dita várias vezes. A melancólica "Você Fingiu" ganhou a interpretação para virar uma das mais tristes de seu repertório.



Para abrir o Lado B, um clássico: "Eu Amo Você". O arranjo dessa música é simplesmente espetacular porque ajuda o ouvinte a entrar nesse clima de tristeza e abandondo, fora que o refrão é para arrebentar o coraçãod e qualquer um (O meu amor/ Meu coração [Pensa que não vai ser possível]/ De lhe encontrar [Pensa que não vai ser possível]/ De lhe amar [Pensa que não vai ser possível]/ Te conquistar. E se depois de um clássico vem outro, "Primavera (Vai Chuva)" chega na hora certa. Ao colocar duas canções de mesmo tom em sequência, o ouvinte facilmente reconhece os problemas e o tom usado para descrever as situações.

Na seguinte, "Risos", o cantor pede para deixar os problemas de lado em mais uma faixa em que o arranjo tem grande destaque ao deixá-la parecida com muita coisa feita nos anos 1950 e 1960 na música brasileira, mas, diferente delas, Tim imprime um ritmo vocal muito próprio e é isso que dá a ela a identidade necessária para fugir do óbvio. Muito do repertório vem de parcerias, principalmente de Cassiano, porém Tim Maia foi um compositor de mão cheia pelo simples fato de ter escrito "Azul da Cor do Mar".



Composta quando morava em uma república, ele a fez quando olhava desolado para um calendário de praia e pensava se, algum dia, alguma garota sairia com ele. Uma de suas melhores canções. "Cristina nº. 2" é uma versão mais crua e menos épica de "Cristina". E, para encerrar, "Tributo a Booker Pitman" é um jazz cantado inteiro em inglês em homenagem a Booker Pittman (1909-1969), clarinetista que tocou com Louis Armstrong (1901-1971) durante uns anos e morou em Copacabana até morrer, aos 60 anos.

O primeiro disco de Tim Maia pavimentou sua carreira de sucesso. Ao gravá-lo com mais experiência do que seus amigos do início da carreira, acabou criando uma identidade própria que muitos deles só viriam a ter anos depois. Essa estreia mostra um vocalista e arranjador maduro, e acompanhado por uma banda de alto nível. O resultado é um dos melhores trabalhos da música brasileira.



Ficha técnica

Tracklist:

Lado A

1 - "Coroné Antonio Bento" (João do Vale/Luiz Wanderley)
2 - "Cristina" (Carlos Imperial/Tim Maia)
3 - "Jurema" (Tim Maia)
4 - "Padre Cícero" (Tim Maia/Genival Cassiano)
5 - "Flamengo" (Tim Maia)
6 - "Você Fingiu" (Genival Cassiano)

Lado B

7 - "Eu Amo Você" (Genival Cassiano/Silvio Rochael)
8 - "Primavera" (Genival Cassiano/Silvio Rochael)
9 - "Risos" (Fabio/Paulo Imperial)
10 - "Azul da Cor do Mar" (Tim Maia)
11 - "Cristina nº. 2" (Carlos Imperial/Tim Maia)
12 - "Tributo a Booker Pitman" (Cláudio Roditi)

Gravadora: Polydor
Produção: Jairo Pires e Arnaldo Saccomani
Duração: 30min22s

Tim Maia: vocal, violão, arranjos e vocal de apoio

Convidados:

Paulinho: bateria
Zé Carlos e Capecacete ("Primavera" e "Jurema"): baixo
Guilherme: percussão
Cassiano: guitarra e vocal de apoio
Garoto: vibrafone
Carlinhos: piano e órgão
Maestro Waltel, Maestro Waldir, Maestro Cláudio: arranjos
Amaro, Fernando, Marcos, Malu, Regina e Dora: vocal de apoio



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