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quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Discos para história: Presence, do Led Zeppelin (1976)


Disco foi lançado pouco tempo após o acidente sofrido por Robert Plant na Grécia

História do disco

O Led Zeppelin foi uma das bandas mais mágicas que já passaram pelo mundo. Entre o fim dos anos 1960 e meio dos anos 1970, não havia concorrência para o quarteto. Juntos, eles quebraram recordes e levaram o rock a outro patamar, colocando a banda entre as maiores da história. Eram gigantes caminhando sobre a Terra. Repletos de súditos, eles eram reis. "Physical Graffiti" (1975) havia consolidado essa posição de forma definitiva. Mas o que era bom estava para acabar. E rápido.

O primeiro evento pelo qual a banda precisou passar foi a orientação dos contadores sobre a situação fiscal deles. Para evitar a cobrança dos altos impostos – algo comum com músicos britânicos que estavam ficando milionários –, uma mudança de país foi sugerida por eles. Eles puderam dividir uma parte considerável do arrecadado com vendas de discos e da receita da turnê feita em 1975, mas teriam que deixar o Reino Unido imediatamente e não poderiam voltar até abril de 1976. Eles alugaram uma casa em Montreaux, na Suíça.

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John Paul Jones lamentou quando recebeu a notícia, mas deu seu jeito. Jimmy Page e Robert Plant viram a chance ideal para explorar o mundo e viajar para lugares desconhecidos por eles até então. John Bonham ficou arrasado e relutou o máximo que pôde. Ele cedeu quando o empresário Peter Grant deixou claro que, sem a mudança, ele perderia até 95% do arrecadado no período. Page passou pelo Brasil antes de ir ao Marrocos, lugar onde já encontrava-se Plant. Lá, participaram de um festival local antes de irem para Suíça e encontrar os outros membros da banda.

Poucos dias depois, em 4 de agosto, Plant e a família foram dirigindo até a Ilha de Rodes, na Grécia, porque o cantor queria esticar um pouco as pernas e ver um pouco de sol antes da gravação do novo álbum. E foi na Grécia que aconteceu a primeira grande tragédia envolvendo um membro do Led Zeppelin, o primeiro dos acontecimentos que culminariam no fim da banda quatro anos depois.

Maurren Plant dirigia um carro alugado quando derrapou, perdeu o controle e bateu em uma árvore que estava à beira de um precipício. Ela quebrou a perna e o quadril, além de sofrer traumatismo craniano. Robert Plant quebrou o tornozelo, o ombro e partiu a perna direita em várias partes. Duas das três crianças também sofreram traumas – perna e pulso –, enquanto a outra só sofreu ferimentos leves. Entre idas e vindas, transferências e longas viagens de avião, o vocalista ficou sabendo que ficaria, no mínimo, seis meses sem andar sem qualquer garantia de plena recuperação física. E ele ainda teria que ficar longe da mulher, já que vivia uma espécie de exílio fiscal.

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O fim do Led Zeppelin foi cogitado, claro. Page ficou arrasado quando recebeu a notícia e remoeu muito o possível fim da banda em que ele havia colocado tanta energia nos últimos sete anos. Entre tristeza e dias tomando remédio com cerveja, Plant decidiu que o trabalho era a melhor forma de tentar absorver todo acontecido nos dias anteriores. Na cadeira de rodas, o vocalista foi colocado em um avião para Malibu, Califórnia, onde Page havia alugado uma casa para o trabalho de composição de novas letras. O que não ajudaria muito seria o vício de Page em cocaína e heroína, disponível em abundância em Los Angeles.

Sem nenhuma sobra de estúdio, já que as melhores foram usadas no álbum anterior, o trabalho precisou começar do zero pela primeira vez em muito tempo. Ao longo do mês, eles trabalharam até formatar algo bom o suficiente. Isso aconteceu em outubro, quando Bonham e Jones foram chamados para os primeiros ensaios do novo material. E foi durante o processo de gravação que ficou claro que, assim como no primeiro disco, esse seria um trabalho quase exclusivo de Page.

As versões dadas sobre o assunto são conflitantes. No livro "Quando Os Gigantes Caminhavam Sobre a Terra", de Mick Wall, Page afirma que trabalhou assim porque "ninguém trouxe ideias (...) Eu tive que criar todos os riffs (...) Mas não culpo ninguém, estávamos todos meio pra baixo". Já Jones revelou que, coincidentemente, ele e Plant nunca encontravam o guitarrista no estúdio no horário marcado no dia anterior, mas, ironizando, "aprendi muito sobre beisebol vendo a World Series daquele ano".

Quatro semanas depois dos ensaios, o Led Zeppelin partiu para Munique, na Alemanha, para gravar o sétimo disco de estúdio no Musicland Studios. Mas eles precisariam lidar com o prazo limitado de exatos 18 dias para gravar tudo, sendo que o tempo nunca havia sido tão curto em nenhum dos outros álbuns. Claro, Page chamou a responsabilidade para si e chegou a trabalhar três dias seguidos sem dormir. Em uma sessão de gravação, ele levou 14 horas para finalizar os overdubs, sendo seis delas dedicadas para "Achilles Last Stand".

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Page achava que ali era o lugar certo e a agora certa para gravar um disco, já que aproveitar o momento de tristeza para mostrar ao mundo que o Led Zeppelin conseguiria superar qualquer problema que viesse pela frente. Até por conta de todo esforço colocado na produção de "Presence", o guitarrista e produtor o coloca como um dos melhores discos da banda. Lançado em 31 de março de 1976, o LP conquistou um disco de ouro no Reino Unido e um de platina nos Estados Unidos – isso apenas em vendas antecipadas, tornando-se o disco vendido com maior rapidez na história da gravadora Atlantic. Os números impressionantes não influenciaram nas críticas que, em geral, apontavam um bom trabalho, mas aquém dos anteriores.

Isso não afetou a popularidade do grupo, que só não fez uma turnê mundial por conta dos problemas físicos de Plant. O interesse pelo disco caiu ao longo das semanas seguintes, então Page passou para outro projeto – esse mais ambicioso do que um disco gravado às pressas. O próximo passo seria finalizar o filme e a trilha de "The Song Remains the Same".


Resenha de "Presence"

O fato de o disco não ser um dos mais lembrados entre os fãs nas listas de melhores, não tira o mérito de "Achilles Last Stand" ser uma das melhores músicas da discografia do Led Zeppelin. As horas de estúdio que Page gastou nela foram recompensadas por um bom desempenho de Plant, ainda que debilitado, e Bonzo melhor do que nunca na bateria – é um de seus grandes momentos em estúdio – ao longo de pouco mais de dez minutos.

A seguinte, "For Your Life", dá para ouvir como Page estava empenhado em fazer o disco e gravar sua parte, mas também dá para ouvir que é um disco apressado. Não é uma música ruim, porém, com mais tempo, é sabido que o Led Zeppelin poderia ter feito algo melhor – mesmo para falar sobre o modo de vida em Los Angeles e o fácil acesso às drogas. Para fechar o lado A, surge "Royal Orleans". Única faixa com os quatro creditados, ela trata de de um evento real – o dia em que Jones, por engano, levou um travesti para o quarto quando estava hospedado em Nova Orleans. Essa faixa é bem animada e funciona muito bem.



Gravada por Blind Willie Johnson em 1927, "Nobody's Fault but Mine" ganhou uma versão futurística de si com, de novo, Page extremamente inspirado na guitarra. Outra que entra no grupo das animadas é "Candy Store Rock", essa uma homenagem ao rockabilly – ambas foram gravadas quando Plant ainda estava na cadeira de rodas.

Penúltima canção, "Hots On for Nowhere" é o grito de protesto de Plant contra Page e Grant, que pouco ligaram para seu acidente e focaram as atenções exclusivamente no que seria da banda sem o vocalista. Para fechar, "Tea for One" é a banda olhando para "Since I've Been Loving You, e Plant começando a questionar se a vida na estrada realmente valia a pena, enquanto sua mulher estava na cama de um hospital e ele ali, bancando o rockstar.

"Presence" não é trabalho mais inspirado do Led Zeppelin, mas a história por trás do disco é muito fascinante e acaba atraindo colecionadores e fãs de música em geral. Afinal, não é todo dia que o vocalista quase morre em um acidente e, quase oito meses depois, lança um disco de inéditas gravado em pífios 18 dias. Para si mesmo e para os outros, o Led Zeppelin provava que era imenso e superaria qualquer adversidade. Até que ela fosse insuperável.



Ficha técnica

Tracklist:

Lado A

1 - "Achilles Last Stand" (10:30)
2 - "For Your Life" (6:22)
3 - "Royal Orleans" (John Bonham, John Paul Jones, Page, and Plant) (2:58)

Lado B

4 - "Nobody's Fault but Mine" (6:16)
5 - "Candy Store Rock" (4:10)
6 - "Hots On for Nowhere" (4:44)
7 - "Tea for One" (9:27)

Gravadora: Atlantic/Swan Song
Produção: Jimmy Page
Duração: 44min25s

John Bonham: bateria e percussão – drums, percussion
John Paul Jones: baixo (quatro e oito cordas)
Jimmy Page: guitarra e violão
Robert Plant: vocal principal; gaita em "Nobody's Fault but Mine"



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