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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Discos para história: Led Zeppelin III, do Led Zeppelin (1970)


A 112ª edição do Discos para história fala sobre o terceiro do disco do Led Zeppelin, momento da carreira em que a banda inglesa optou por expandir seus horizontes ao fazer algo mais acústico.

História do disco

Depois do lançamento de Led Zeppelin II, a banda saiu em uma longa turnê pelos Estados Unidos. A diferença em relação ao ano anterior era o tamanho dos lugares, cada vez maiores para suportar o aumento da demanda do público para vê-los ao vivo. Era um claro sinal de que a popularidade deles estava só crescendo no país ao longo dos últimos 12 meses. Algumas das apresentações ultrapassaram quatro horas, mostrando todo potencial do grupo ao vivo ao ser um deleite para os fãs.

Foi nessa mesma turnê que os excessos e a excentricidade do Led Zeppelin apareceram com força. Um exemplo disso era a vida dupla de Jimmy Page, casado em Londres, mas com uma amante nos Estados Unidos. A bebedeira de Bonzo aumentava em períodos em que a saudade de casa era cada vez maior e Robert Plant não ficava muito atrás disso. O cansado era evidente também – eles haviam feito 153 shows em solo americano entre 1968 e início de 1970.

Por incrível que isso possa parecer, foi nesse momento de sucesso que os quatro ficaram mais unidos no quesito música. Há quase dois anos juntos, o entrosamento nas apresentações estava cada vez melhor e mais afiado, agora era a hora de mostrar isso no estúdio – local em que Page também fazia sua mágica acontecer, não sendo muito incomodado pelos outros. A pressão para fazer dois discos rapidamente foi colocada de lado. Ao invés disso, Page e Plant se isolaram em Bron-Yr-Aur, uma casa sem energia e sem banheiro, para fazer o novo álbum.


Bron-Yr-Aur foi a casa de campo de um amigo da família Plant durante alguns anos. Localizada no País de Gales, era o local perfeito para afastar qualquer pressão de gravadora por resultados rápidos ou por um novo sucesso tão arrebatador quanto “Whole Lotta Love”. O interesse por parte deles em um novo sucesso beirava o zero, tanto é que a abordagem foi mudada e um disco folk ia surgindo enquanto os dias iam acontecendo. No caso, a influência de Music From Big Pink, da The Band, de Crosby, Stills e Nash (leia aqui o Discos para história do primeiro disco do trio), Joni Mitchell e Van Morrison foram fundamentais na construção desse novo som. Naquela época, a mistura de folk com rock, country e/ou blues fazia um enorme sucesso, mas também era a chance esperada para mostrar que o Led Zeppelin era muito mais do que “uma banda de heavy metal”, disse Page, anos depois.

John Bonham e John Paul Jones gostaram bastante do material gravado por Page e Plant no País de Gales, e isso gerou um otimismo por parte da banda quando se juntaram em Headley Grange – outro lugar em péssimas condições para se fazer um disco, mas de história incrível – para finalizar o disco. Eles contrataram o estúdio móvel do Rolling Stones, um facilitador e tanto para quem vivia em turnês ao longo de todo ano.

Uma pequena pausa para uma turnê, em que mostraram como eram grandes no Reino Unido, eles retornaram os trabalhos com tudo ao finalizar 17 canções. A agenda ficou cada vez mais apertada e a banda precisou viajar aos Estados Unidos novamente para uma nova série de apresentações, então Page, responsável por finalizar o trabalho, ficava muitas horas no estúdio, fazia a apresentação, descansava pouco e logo retornava para o local mais próximo do show seguinte para seguir trabalhando em Led Zeppelin III.

Lançado em 5 de outubro de 1970 nos Estados Unidos, sendo colocado no mercado no Reino Unido quase 20 dias depois, o disco chegou ao número um das paradas rapidamente. À época, o lançamento dividiu os fãs e crítica, que não esperavam um disco desse tipo vindo da banda. Segundo o biógrafo Mick Wall, Led Zeppelin III é o álbum “mais ignorado, mal interpretado e atacado do Led Zeppelin, sendo o que menos vendeu entre toda discografia deles até os dias atuais”. A mudança foi inesperada por parte de alguns, mas fazia total sentido dentro das pretensões musicais deles.


Resenha de Led Zeppelin III

Escrita durante as apresentações do grupo na Islândia, durante a pausa dos trabalhos do disco, "Immigrant Song" foi inspirada no trabalho dos estudantes em fazer o show do Led Zeppelin acontecer durante a greve que assolou o país naquela semana. Mesmo sendo ingleses, os dois conseguiram criar uma perspectiva histórica dos vikings, lendários guerreiros. Curta e bem agitada, é uma das muitas canções do grupo que ultrapassaram a música e está inserida na cultura pop.

A parte acústica do disco começa mesmo em "Friends". Composta por Page e Plant, é o início do espanto geral por ver o Led Zeppelin empenhado em fazer mais desse tipo de música do que nos discos anteriores. Ela transita entre o folk mais pop e os ritmos orientais que dominaram a música americana e inglesa em meados dos anos 1960 e início dos anos 1970. Já "Celebration Day" é carregada de efeitos, solos e tem um Page bem inspirado na guitarra.



Como todo disco do Led Zeppelin tem pelo menos um clássico inspirado no blues, "Since I've Been Loving You" é a canção que mais chama atenção no disco inteiro. De difícil construção, Page ficou algumas semanas tentando fazer o solo perfeito, ela é uma das melhores canções da história do grupo. Ela também tem um Robert Plant em plena forma vocal, um Bonzo fazendo o que sabia fazer de melhor e um John Paul Jones preciso no comando do órgão e no baixo. Uma das raras composições em que John Bonham foi creditado, "Out On the Tiles" foi inspirada nos momentos de relaxamento do baterista – leia-se idas ao bar. Bem mais hard rock do que a proposta do álbum, ela acaba sendo uma ótima faixa para fechar o lado A.

Gravada durante retiro da dupla Page e Plant no País de Gales, "Gallows Pole" é uma canção que é aquele folk de origem desconhecida, mas que ganhou o país e suas histórias ao longo dos anos. A adaptação ganhou uma nova roupagem no estúdio, em Londres, e inspirou "Battle of Evermore", no disco seguinte. Ainda assim, tem a cara do Led Zeppelin. Composta ainda nos tempos de Yardbirds, "Tangerine" é uma canção muito bonita, de uma profundidade e leveza destoantes ao ritmo alucinante do grupo, com os instrumentos de corda merecendo todo destaque do início ao fim.



Depois de uma longa caminhada, Page e Plant escreveram letra e melodia da também muito bonita "That's the Way", em que o mérito está no quê oriental da distorção da guitarra, e "Bron-Y-Aur Stomp" beira um Byrds mais agitado, uma faixa da The Band feita de maneira diferente. Por incrível que soe, ela acabou sendo a única canção facilmente classificada como country folk. O disco encerra com "Hats Off to (Roy) Harper", outra canção sem compositor que ganhou os músicos dos Estados Unidos desde os anos 1930. Aqui, a banda aproveitou para homenagear Roy Harper em uma gravação que soa ter sido feita em algum ponto dos anos 1940.

Mesmo não sendo considerado por alguns críticos o melhor disco do Led Zeppelin, Led Zeppelin III é um dos grandes discos de 1970. Criativo, inventivo e sem roubar música de ninguém, a banda conseguiu provar que a criatividade estava em alta naqueles dias.



Ficha técnica:

Tracklist:

Lado A

1 - "Immigrant Song" (Jimmy Page, Robert Plant) (2:26)
2 - "Friends" (Page, Plant) (3:55)
3 - "Celebration Day" (John Paul Jones, Page, Plant) (3:29)
4 - "Since I've Been Loving You" (Jones, Page, Plant) (7:25)
5 - "Out On the Tiles" (John Bonham, Page, Plant) (4:04)

Lado B

6 - "Gallows Pole" (Traditional, arr. Page, Plant) (4:58)
7 - "Tangerine" (Page) (3:12)
8 - "That's the Way" (Page, Plant) (5:38)
9 - "Bron-Y-Aur Stomp" (Jones, Page, Plant) (4:20)
10 - "Hats Off to (Roy) Harper" (Traditional, arr. Charles Obscure) (3:41)

Gravadora: Atlantic
Produção: Jimmy Page
Duração: 43min04s

John Bonham: bateria, percussão e vocais de apoio
John Paul Jones: baixo, órgão Hammond, sintetizador Moog, bandolim, baixo duplo em "Bron-Y-Aur Stomp" e arranjo de cordas
Jimmy Page: violão, guitarra, pedais, banjo, saltério dos apalaches, baixo em "That's the Way" e vocais de apoio
Robert Plant: vocais e gaita



Veja também:
Discos para história: A Tábua de Esmeralda, de Jorge Ben (1974)
Discos para história: My Generation, do The Who (1965)
Discos para história: Doolittle, do Pixies (1989)
Discos para história: Tonight's the Night, de Neil Young (1975)
Discos para história: Murmur, do R.E.M. (1983)
Discos para história: Rubber Soul, dos Beatles (1965)
Discos para história: Yoshimi Battles The Pink Robots, do Flaming Lips (2002)

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