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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Discos para história: Blood Sugar Sex Magik, do Red Hot Chili Peppers (1991)


História do disco

Quem vê o Red Hot Chili Peppers hoje, uma banda consagrada que toca no Rock in Rio em praticamente todas as edições nos últimos anos, não imagina como os anos 1980 e início da década trouxeram sucesso na mesma medida em que as pancadas da vida foram cruéis. O vocalista Anthony Kiedis e o baixista Flea viam o grupo atraindo cada vez mais pessoas nas apresentações, mas todo esse potencial era desperdiçado por produtores que não conseguiam reproduzir essa empolgação no estúdio e por uma intensa rotatividade de bateristas e guitarristas.

Quando a coisa parecia ter se assentado um pouco com a entrada do jovem guitarrista John Frusciante e Chad Smith fixado como baterista, Smith e Flea foram acusados de agressão a uma mulher durante a gravação do MTV Spring Break e , por coincidência ou não, o contrato com a gravadora EMI acabou não sendo renovado mesmo o disco anterior, "Mother's Milk" (1989), sendo o primeiro a entrar no top 200 da Billboard. Parecia que a banda estava destinada a ser mediana pelo resto da vida, um alto preço a ser pago pelos problemas com drogas que tiraram a vida do guitarrista Hillel Slovak e fizeram o baterista Jack Irons sair. Mas eles não iam desistir. Eles precisavam dar esse passo rumo ao estrelato, afinal havia potencial ou os shows não estariam lotados, certo?

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O primeiro passo era encontrar uma nova gravadora. Algo que poderia parecer difícil acabou não sendo, já que algumas boas propostas chegaram. Eles acabaram fechando com CBS, subsidiária da Sony, e colocaram no acordo que a gravadora deveria comprar o disco anterior lançado pela EMI. O que deveria ser algo rápido, acabou demorando alguns meses. Se aproveitando dessa demora, Mo Ostin, da Warner, lançou uma última cartada -- aliás, uma cartada bem conhecida no mundo da música. Ele ligou para Kiedis para parabenizá-lo pelo negócio, e isso tocou muito o vocalista à época.

"Decidimos escolher a CBS, basicamente por dinheiro, e no último minuto Mo Ostin nos ligou para nos parabenizar pelo acordo que fizemos. Naquela época não havíamos assinado nada, mas tínhamos tirado fotos promocionais e tudo mais. Mas essa ligação meio que nos acendeu. Esse cara não nos contratou, mas nos deu os parabéns de qualquer maneira. Então, pensamos que cara legal", contou o vocalista à 'Louder'.

Duas ligações de Ostin, uma para a Sony e outra para EMI, resolveram o assunto da transferência da banda para a Warner. Agora faltava encontrar o produtor ideal, alguém que pudesse compreender o som dos Chili Peppers. Precisava ser alguém diferente do produtor Michael Beinhorn, com quem eles tiveram diversos problemas na gravação do trabalho anterior -- principalmente sobre a sonoridade da guitarra de Frusciante --, nem poderia ser George Clinton, líder do Funkadelic, já que havia mais potencial musical a ser explorado além da barreira do funk. Então, quem? A resposta era o produtor mais badalado daquele momento: Rick Rubin.

Cofundador da Def Jam, produtor de álbuns que abrangem Run-DMC e Slayer, Rubin era fã da banda e gostaria de ter trabalhado com eles muito antes, mas eles não o queriam por julgá-lo incapaz de entender sonoridade, assim como os outros. E o produtor também estava um pé atrás por saber dos problemas com drogas da banda. "Eles estavam muito mal com as drogas. Eu entrei no estúdio pensando: 'isso é ruim'. Eu não queria fazer isso. Então, quando os conheci para o 'Blood Sugar...' eles eram uma banda diferente, completamente no controle, prontos para fazer algo de bom", disse ele à 'Rolling Stone' alguns anos depois.

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Com isso em mente, eles foram para a mansão de Rubin em Los Angeles e lá se isolaram por sete semanas para focar na gravação do novo álbum -- lugar em que Jimi Hendrix passou um tempo, os Beatles iam para festejar durante alguns dias e ainda era mal-assombrado. Dois pontos principais eram explorar mais a guitarra de Frusciante, frustrado pela experiência anterior, e colocar na cabeça de Flea que ele seria muito mais útil se parasse de florear o tempo inteiro nas músicas e focasse em apenas tocar.

"John realmente se descobriu como músico durante essa época. Ele sempre foi esse tipo de tempestade incontida de inteligência, talento e desejo. Ninguém trabalhava mais horas durante o dia praticando e aprendendo música do que John, mas ele estava meio desligado durante 'Mother's Milk'", disse Kiedis à revista 'Clash'. "Aquela experiência de trabalhar com um produtor que queria que ele fosse de um jeito o levou ainda mais fundo em querer expressar a verdadeira natureza de sua música. E acho que isso floresceu profundamente em 'Blood Sugar Sex Magik', onde ele acabou encontrando sua voz", completou.

A abordagem nada ortodoxa do produtor no modo de gravar e o fato de todos ficaram ali boa parte do tempo -- menos Chad Smith que preferia dormir em casa --, ajudaram a criar o clima necessário para uma boa gravação. Existia algum problema? Todos conversavam e arrumavam um jeito de solucionar. A sonoridade da bateria estava ruim? Vamos encontrar um lugar bom o suficiente. Rubin fez questão de gravar tudo sem nenhum efeito, mais cru possível e mexer o menos possível na edição.

"Onde gravamos aliviou muito da tensão que normalmente acontece quando você faz um disco. Quando gravamos, também estávamos morando juntos, o que criou um ambiente descontraído. E essa foi a chave do álbum. A chave para ser uma grande banda ou um grande músico é ser capaz de relaxar o suficiente para que você possa estar ciente do que está acontecendo ao seu redor, e isso pode fluir através de você para pegar toda energia", falou Flea, em 1991, para a 'Clash'.

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Tudo isso fez de "Blood Sugar Sex Magik" um verdadeiro fenômeno que fez a banda passar no grande teste da carreira ao lançá-los ao estrelato definitivo. Lançado em 24 de setembro de 1991, o disco chegou na terceira posição da parada dos Estados Unidos e na quinta no Reino Unido. "Under the Bridge", "Give It Away", "Suck My Kiss" e "Breaking the Girl" impulsionaram o sucesso e até hoje estão entre as faixas favoritas do fãs.

"Quando tocamos músicas do 'Blood Sugar...' hoje, a última coisa que penso é que são antiquadas. Ainda sinto algo quando toco essas músicas. Não é como se eu estivesse apelando para o mais fácil quando as escolho. Elas ainda são vibrantes e conectadas ao agora, de alguma forma. Então eu acho que o álbum resiste ao teste do tempo", disse Kiedis à 'Guitar World', no aniversário de 20 anos do álbum.

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Resenha de "Blood Sugar Sex Magik"

"The Power of Equality" abre o álbum como pé na porta ao abordar o anti-racismo e como é fundamental aceitar as diferenças. E, claro, musicalmente mostra como a fusão funk e rock era algo cristalino, apenas faltava alguém com o tom certo conseguir colocar isso em prática. Caso fosse uma competição, Rick Rubin estaria liderando por 1 x 0. E quando você menos percebe, "If You Have to Ask" começa e mantém o ritmo dançante da anterior em um acerto incrível para quem organizou a lista com as músicas.

Uma das melhores músicas da discografia do RHCP é "Breaking the Girl", porque é identificável por dez entre dez pessoas. Kiedis fala sobre o fim de um relacionamento e o arranjo transforma a letra em uma balada das mais bonitas para o cantor usá-la quase como um confessionário particular sobre o assunto. Aqui, nesse momento do trabalho, vemos como essa é a melhor formação da história da banda. Todo mundo está tão alinhado e tão bem, que é impossível alguém discordar disso. O funk retorna em "Funky Monks", quando os problemas então enfrentados pela banda são expostos e tudo que eles querem é amor.

O que era amor na faixa anterior virou atração sexual pura e sem rodeios em "Suck My Kiss". O trabalho de Flea no baixo é dos mais brilhantes ao contribuir imensamente para o andamento da faixa de um jeito muito marcante, enquanto "I Could Have Lied" dá um 180º ao apresentar uma balada acústica sobre outro relacionamento de Kiedis. E se "Mellowship Slinky in B Major" soa como um relato de vida dos angelinos ("No, I can not keep my mouth shut/ Rockin' to the beat of the fabulous Forum/ My Lakers I adore 'em/ Blush my lady when I tell her"), "The Righteous & the Wicked" é sobre certo e errado e como os seres humanos erraram tanto na condução das coisas.

Um dos grandes sucessos da banda, "Give It Away" nasceu da colaboração entre Flea e John Frusciante meses antes do início das gravações do álbum e o refrão chegou quando Kiedis foi inspirado por uma frase de Nina Hagen sobre comportamento altruísta e o valor do sacrifício pelo próximo. Disso, nasceu uma das grandes músicas dos anos 1990, transformada no Brasil "guibruei". E a faixa-título traz aquela letra sensual que só o RHCP consegue apresentar, mas, apesar de ser boa, acaba ficando esquecida quando percebemos que ela está entre dois dos grandes sucessos do disco. Sim, a próxima é simplesmente "Under the Bridge", uma balada melancólica de Kiedis sobre as dores dos últimos acontecimentos da própria vida, como a morte de Hillel Slovak, e como ele via apenas Los Angeles, a cidade, como sua verdadeira amiga.

O disco não fica só na melancolia, e isso é importante para entender o todo. A banda também fala sobre a relação com a natureza ("Naked in the Rain"), sobre uma viagem que fizeram para Nova Orleans ("Apache Rose Peacock"), carros e garotas ("The Greeting Song"), como a morte pode afetar a cabeça de uma pessoa ("My Lovely Man" ), as experiências sexuais do vocalista ("Sir Psycho Sexy" ) e encerra com um cover do guitarrista Robert Johnson ("They're Red Hot").

Os Chili Peppers estavam abalados física e psicologicamente com os acontecimentos dos anos anteriores e estavam a ponto de implodir todo potencial que poderia ser colocado para fora. Ainda bem que, por sorte ou destino, encontraram a gravadora certa e o produtor certo para fazer de "Blood Sugar Sex Magik" um dos grandes álbuns dos anos 1990 e, talvez, o mais importante da história da banda.

Ficha técnica

Tracklist:

1 - "The Power of Equality" (4:03)
2 - "If You Have to Ask" (3:37)
3 - "Breaking the Girl" (4:55)
4 - "Funky Monks" (5:23)
5 - "Suck My Kiss" (3:37)
6 - "I Could Have Lied" (4:04)
7 - "Mellowship Slinky in B Major" (4:00)
8 - "The Righteous & the Wicked" (4:08)
9 - "Give It Away" (4:43)
10 - "Blood Sugar Sex Magik" (4:31)
11 - "Under the Bridge" (4:24)
12 - "Naked in the Rain" (4:26)
13 - "Apache Rose Peacock" (4:42)
14 - "The Greeting Song" (3:13)
15 - "My Lovely Man" (4:39)
16 - "Sir Psycho Sexy" (8:17)
17 - "They're Red Hot" (Robert Johnson) (1:00)

Gravadora: Warner Bros.
Produção: Rick Rubin
Duração: 73min55s

Anthony Kiedis: vocal; percussão em "Breaking the Girl"
John Frusciante: guitarra, violão, vocal de apoio; sintetizador em "If You Have to Ask"; percussão em "Breaking the Girl"
Flea: baixo, vocal de apoio; trompete em "Apache Rose Peacock"; piano em "Mellowship Slinky in B Major"; percussão em "Breaking the Girl"
Chad Smith: bateria; tambourine em "Funky Monks", "Mellowship Slinky in B Major", "If You Have to Ask", "Sir Psycho Sexy" e "Give It Away"; marimba em "Sir Psycho Sexy"; percussão em "Breaking the Girl"

Convidados:

Brendan O'Brien: mellotron em "Breaking the Girl" e "Sir Psycho Sexy"; órgão em "Suck My Kiss" e "Give It Away", celesya em "Apache Rose Peacock"; engenheiro de som e mixagem
Gail Frusciante and her friends: coro em "Under the Bridge"
Pete Weiss: berimbau de boca em "Give It Away"

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