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sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Discos para história: Ghost in the Machine, do Police (1981)


História do disco

O Police vinha em franca evolução desde o primeiro álbum da carreira e "Zenyatta Mondatta" (1980) confirmou os prognósticos ao ser o primeiro trabalho do trio formado por Sting, Stewart Copland e Andy Summers a entrar no top 10 da parada britânica ao chegar na quinta posição. O sucesso puxado pelos singles "De Do Do Do, De Da Da Da Da" e "Don't Stand So Close to Me", até hoje duas das músicas mais famosas e importantes na discografia da banda. Trabalhando em um ritmo alucinante de um disco por ano, eles retornaram ao estúdio pouco menos de seis meses depois para começar a gravar um novo LP. Mas existia algo a ser observado: eles estavam esgotados.

Os problemas que caracterizariam as relações entre os integrantes nos 40 anos seguintes começaram se acentuaram nesse período. Em entrevista para a 'Q', em 1993, Sting contou que o clima já não era dos melhores entre eles e os problemas pessoais só fizeram os três afundarem ainda mais durante o processo de composição de "Ghost in the Machine".

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"As coisas estavam ficando muito horríveis. Muito sombrias. Miseráveis. Nossos casamentos estavam se desfazendo, nosso casamento [como membros da banda] estava se desfazendo e ainda tínhamos que fazer outro álbum. Um pesadelo. Então, nos ocorreu pensar em nossa vida para o resto de nossas carreiras. Comecei a procurar uma saída. Foi um choque muito grande porque eu disse desde o início que o Police duraria três álbuns e bem, realmente duramos", contou ele.

Diferentemente do trabalho anterior, quando acabaram tudo faltando quatro horas para o embarque para a turnê mundial, eles tiveram seis meses para trabalhar os aspectos do disco. Com o sucesso nas costas, o trio decidiu avançar um pouco mais na sonoridade das músicas e nas referências das letras. A inspiração para Sting escrever a maioria delas veio do livro "The Ghost in the Machine", de Arthur Koestler, sobre a relação mente e corpo e como é possível explicar a tendência humana de autodestruição a partir desse ponto de vista. Para ajudá-los nessa nova empreitada, eles contaram com os serviços de Hugh Padgham na produção. Ele já havia trabalhado com Genesis e The Human League nos anos anteriores.

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O disco foi fundamental para o crescimento musical do Police. Nos outros álbuns, ainda que muito bons, parecia que a banda estava se segurando por ser iniciante. Agora sendo famosos e com grande orçamento, era possível explorar novas possibilidades musicais. A inclusão de sintetizadores, arranjo de metais e teclado eram apenas a ponta do potencial do grupo, prestes a explodir mundialmente.

"Costumava tocar saxofone na adolescência, embora não muito a sério. O dedilhado sempre ficou comigo, e eu consigo ler música, então foi bastante simples. Comprei um saxofone alto e um tenor em janeiro e trabalhei cerca de duas horas por dia, cujos frutos você pode ouvir no álbum", contou Sting à revista 'Musician' em 1981. "É um trabalho específico, na verdade. Não sou Charlie Parker, mas é muito gratificante juntar um riff simples e harmonizá-lo. As habilidades envolvidas são bastante semelhantes as que você usa para cantar", completou.

Nem todos estavam felizes com o andamento dos trabalhos. Summers era o mais insatisfeito de todos, principalmente, segundo ele, pelo fato da essência de o trio em ser algo simples com três instrumentos estar se perdendo com a adição de novidades. E também pelo fato de Sting procurar cada vez mais o sucesso e o reconhecimento como grande músico, algo que deixava os outros dois irritados ao ponto serem apenas veículos das mensagens e das ambições do baixista.

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"Estava ficando desapontado com a direção musical de 'Ghost in the Machine'. Com os arranjos de metais e o sintetizador chegando, a sensação fantástica de trio cru estava se perdendo. Estávamos apoiando um cantor que fazia suas canções pop. Mas ainda havia grandes momentos em que Sting foi capaz de se soltar o suficiente", contou.

Tudo ficou maior em "Ghost in the Machine" e acabou virando uma prévia do trabalho seguinte, o grande sucesso da história do Police. Lançado em 2 de outubro de 1981, o disco chegou na primeira posição na parada do Reino Unido e na segunda nos Estados Unidos. Era um trabalho complicado, inteligente, político e ainda cheio de energia de uma banda que ainda se importava em ser uma coisa coesa antes de implodir. Depois disso, o Police caminharia para o fim.

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Resenha de "Ghost in the Machine"

O tom político do disco começa com a curta e tensa "Spirits in the Material World" para falar sobre ter algo a mais para resolver os problemas do mundo, não apenas vontade política. O arranjo da canção carrega essa tensão desde cara e começar o trabalho com ela era bem arriscado, mas acabou dando tudo certo. Lançada como single, conseguiu entrar no top 20 da parada britânica e americana, mostrando toda força do Police em um disco diferente dos anteriores.

Um dos pontos da briga no Police foi a disputa entre Copeland e Sting durante a gravação de "Every Little Thing She Does Is Magic". O baixista gravou a faixa em um estúdio separado com o tecladista Jean Roussel, algo que irritou os outros integrantes. O baterista, então, tentou regravar a música para deixá-la "mais Police". Sem sucesso e contra a presença no álbum, ele tocou a demo original para provar o erro em mantê-la. O que deveria ser um plano para colocar fim as pretensões de Sting, acabou ajudando a dar a ele a ideia de apenas acrescentar a guitarra de Summers. E assim nasceu um dos maiores hits da banda até hoje. É um bom respiro dado o peso das letras e dos arranjos.

O peso retorna em "Invisible Sun", canção que Sting escreveu para falar sobre a greve de fome feita por prisioneiros do IRA na Irlanda do Norte no início dos anos 1980 contra as péssimas condições da prisão onde estavam. Tensa como a abertura do LP, a canção fala sobre ter esperança em um momento difícil não só sobre essa situação específica, mas sobre o mundo de maneira geral. E como as ambições de Sting estavam crescendo? Simples, "Hungry for You (J'aurais toujours faim de toi)" é toda em francês. E tem saxofone. E é grudenta como só uma música francesa com saxofone seria. Para fechar o lado A, a dançante "Demolition Man", gravada por Grace Jones, ganha uma versão bem Police nesse álbum com tudo que tem direito -- velocidade do vocal, Summers e Copeland arrebentando na guitarra.

A segunda parte começa com Sting falando das suas experiências pelo mundo na animada "Too Much Information", quando ele cita alguns lugares em que passou até aquele momento. Na única parceria do álbum, ele e Copeland unem forças em "Rehumanize Yourself", uma potente e subestimada faixa na discografia do Police em que, do jeito deles, falam em como as pessoas estavam perdendo a humanidade e entrando no partido de extrema-direita inglês para passar uma imagem de valente. Mas uma letra que deu problema foi "One World (Not Three)". Copeland escreveu uma letra com o termo "Terceiro Mundo", mas Sting não gostou e mudou tudo para mais próximo de um reggae. Claro que isso abriu ainda mais as feridas de uma banda prestes a explodir.

Única colaboração de Andy Summers no álbum, "Omegaman" foi eleita pela gravadora como primeiro single do trabalho. Sting não quis e, mesmo sendo apenas um contra dois, acabou vencendo a briga. Simples e direta, a canção aposta muito na guitarra e tem um bom refrão. Dentro daquela área filosófica que Sting estava interessado, "Secret Journey" se encaixa perfeitamente nesse momento. Para encerrar, "Darkness", a única faixa só de Copeland no disco, explora a insatisfação do baterista com a fama ("I wish I never woke up this morning / Life was easy when it was boring").

A evolução musical do Police é evidente nesse trabalho. Eles estavam prontos para ser uma das grandes bandas de rock de arena dos anos 1980, ainda que por pouco tempo. "Ghost in the Machine", com total mérito, está na lista dos melhores discos daquela década graças a qualidade das ótimas canções.

Ficha técnica

Tracklist:

Lado A

1 - "Spirits in the Material World" (2:59)
2 - "Every Little Thing She Does Is Magic" (4:22)
3 - "Invisible Sun" (3:44)
4 - "Hungry for You (J'aurais toujours faim de toi)" (2:52)
5 - "Demolition Man" (5:57)

Lado B

6 - "Too Much Information" (3:43)
7  - "Rehumanize Yourself" (Sting/ Stewart Copeland) (3:10)
8 - "One World (Not Three)" (4:47)
9 - "Omegaman" (stylised as "Ωmegaman") (Andy Summers) (2:48)
10 - "Secret Journey" (3:34)
11 - "Darkness" (Copeland) (3:14)

Gravadora: A&M
Produção: The Police e Hugh Padgham
Duração: 41min03s

Sting: baixo, vocal, vocal de apoio, baixo duplo, teclado e saxofone
Andy Summers: guitarra, vocal de apoio e teclado
Stewart Copeland: bateria, percussão e teclado; vocal de apoio nas faixas 5 e 11
Hugh Padgham: engenheiro de som

Convidados:
Jean Roussel: teclado na faixa 2

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