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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Discos para história: Heaven or Las Vegas, do Cocteau Twins (1990)


História do disco

O indie velho pode até brigar e reclamar, mas é fato que não existiria Lana Del Rey (ou Beach House, ou The Horrors) no século 21 se não fosse a influência dos escoceses do Cocteau Twins ao longo dos anos 1980 e 1990. A banda acabou em 1997 por desavenças entre a vocalista Elizabeth Fraser e o guitarrista Robin Guthrie. E não dá para dizer que era uma banda fácil de conviver, já que a gravadora 4AD os dispensou logo após o lançamento da obra-prima "Heaven or Las Vegas" no que o presidente da gravadora chamou de "relação impossível com eles". Mas isso pouco importa quando a marca que eles deixaram na música mundial é sentida até hoje.

A banda iniciou a carreira fazendo um pop alegre e foi progredindo até encontrar uma sonoridade própria em uma estética muito abstrata, sensual e cheia de nuances. Quando o grupo assinou com a gravadora e teve seu primeiro álbum, "Blue Bell Knoll" (1988), distribuído em uma escala maior do que eles estavam acostumados, o Cocteau Twins conseguiu entrada na parada com "Carolyn's Fingers". Foi com essa música em especial que o grupo formado por Fraser, Guthrie e o baixista Simon Raymonde encontrou seu som e teria ali uma base para continuar no trabalho seguinte, agora em um estúdio próprio dos mais caros.

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Entre a não-divulgação de "Blue Bell Knoll", período em que relação com gravadora a banda estremeceu, e o início do trabalho para "Heaven or Las Vegas", em poucos meses, Raymonde casou e viu o pai morrer e a tensão entre Fraser e Guthrie começou em meio à gravidez da vocalista da primeira filho do casal -- muito por conta do vício em álcool e drogas do guitarrista, que perdia o controle muitas vezes.

"De repente [no período entre um álbum e o trabalho no seguinte], havia uma confiança que nunca tive na minha vida, mas perdi depois que tive o bebê. É uma experiência muito assustadora quando se perde a confiança e precisa começar de novo. Mas isso [ter um filho] muda você", contou Fraser, à revista 'Select', em 1990.

Mas havia a música e o bebê. Então, mesmo com as coisas não caminhando muitas vezes com o deveriam caminhar, havia uma inspiração em fazer coisas novas. Em uma retrospectiva sobre o álbum, o jornalista Martin Aston, autor do livro "Facing the Other Way: The Story of 4AD", contou que o trabalho em si foi pautado por essa inspiração nova que chegou para preencher um vazio que eles nem sabiam que existia. "Havia salvação [nos vocais e letras de Fraser], em termos de ajudar a salvar seu relacionamento com Guthrie. Havia a alegria de ter um bebê que eles poderiam amar. Isso deu a eles um novo sopro de vida, energia e vitalidade. Foi muito fácil fazer a música", falou.

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Raymonde lembra que nem tudo era maravilhoso, dada a contínua dependência de cocaína e mudanças de humor de Guthrie, tanto que é, mesmo com o trio bastante afinado musicalmente, as tensões e os problemas acabaram sendo maiores.

“Foi uma época realmente estranha. A música era incrível e divertida. Robin e eu escrevemos algumas de nossas melhores músicas juntos e separadamente também, assim como ele [Robin Guthrie] e eu. Estávamos em um momento muito bom musicalmente, mas estávamos dedicando tanto tempo e esforço à música, que isso tentava mascarar todas as outras coisas que aconteciam que não queríamos parar e pensar", contou o baixista para a revista 'The Skinny'. "Mas o problema das drogas ficou totalmente fora de controle no final das gravações de 'Heaven ou Las Vegas', e isso obviamente levou ao período de reabilitação em que nos colocamos logo depois", completou.

"Heaven or Las Vegas" foi lançado em 17 de setembro de 1990 pela 4AD no Reino Unido e em conjunto com a Capitol Records nos Estados Unidos. Presente no livro "1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer", é a síntese da sonoridade tanto da gravadora quanto da banda. Apontado como trabalho mais coeso do início ao fim desde "Treasure" (1984), é um dos álbuns mais influentes da história da música. Assim como Ride e My Bloody Valentine, espécie de primos do trio escocês, o Cocteau Twins está na história da música.



Resenha de "Heaven or Las Vegas"

É impossível não ficar impactado com a voz de Liz Fraser em qualquer disco, mas ela está particularmente maravilhosa nesse álbum. Um exemplo disso está na bonita faixa de abertura. Não é difícil encontrar análises e listas que cravam "Cherry-Coloured Funk" como uma das melhores canções da história do Cocteau Twins. Uma das primeiras referências mais claras ao nascimento da filha está em "Pitch the Baby", uma gíria em inglês para blefe. E é o tipo de música que é difícil não ficar impactado.

Mas impactado mesmo o ouvinte fica logo que começa "Iceblink Luck", primeiro single e clipe para o álbum. De fácil acesso, apesar de toda a esquisitice no arranjo no fundo, a letra fala sobre otimismo na recém-adição familiar feita por Elizabeth Fraser e Robin Guthrie, e em como isso fez da vocalista uma pessoa melhor por conseguir de descobrir e se abrir emocionalmente. E se a vocalista faz isso nessa faixa, Guthrie usa Fraser para falar de si em "Fifty-Fifty Clown" e sobre como se sente recompensado por ter uma mulher como ela.



A faixa-título surge como se Deus estivesse falando em nossos ouvidos, um pós-punk dramático de fácil identificação para qualquer adolescente, um arranjo perfeito para olhar para a janela e encarar a escuridão de dias solitários. Uma música inesquecível, uma das melhores canções dos anos 1990. Mas a paulada vem em "I Wear Your Ring", de incrível apelo sexual ao mostrar a visão da mulher em uma relação intensa com um homem.

O erotismo não para na canção extremamente sensual "Fotzepolitic", quando o arranjo ajuda muito a criar esse clima propício para união de duas pessoas em um quarto escuro. Se Amanda Palmer gravou um disco inteiro sobre ser mãe, ela precisa agradecer muito a Liz Fraser por ter feito isso aqui, especialmente por "Wolf in the Breast". A canção fala abertamente sobre como é difícil aliar maternidade com criação artística, e como isso desperta os melhores e piores sentimentos nas pessoas.



Em muitas partes do trabalho, a poesia e mensagens indiretas tomam conta de pedaços, mas isso acontece durante toda execução de "Road, River and Rail". Ao soar como trilha de um filme com a dose certa de viagem com arte, a canção usa da poesia para suplicar e pedir por alguma coisa que ninguém sabe ao certo o que é. No fim, é a canção mais artística e abstrata do trabalho, que encerra com a maravilhosa e inacreditável "Frou-Frou Foxes in Midsummer Fires".

Melhor álbum da carreira da banda, "Heaven or Las Vegas" mudou o patamar deles para sempre. É o tipo de disco que é impossível parar de ouvir por um longo tempo. É o tipo de disco que você apresenta para alguém e fica 20 minutos falando cada detalhe de cada música. Cocteau Twins acabaria dali menor de uma década, mas, mesmo com os problemas, eles conseguiram deixar uma obra-prima para o mundo.



Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Cherry-Coloured Funk"
2 - "Pitch the Baby"
3 - "Iceblink Luck"
4 - "Fifty-Fifty Clown"
5 - "Heaven or Las Vegas"
6 - "I Wear Your Ring"
7 - "Fotzepolitic"
8 - "Wolf in the Breast"
9 - "Road, River and Rail"
10 - "Frou-Frou Foxes in Midsummer Fires"

Gravadora: 4AD
Produção: Cocteau Twins
Duração: 37min42s

Elizabeth Fraser: vocais
Robin Guthrie: guitarra
Simon Raymonde: baixo



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