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sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Discos para história: Lado B Lado A, d'O Rappa (1999)


História do disco

O Rappa foi formado na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, e teve o primeiro álbum de estúdio lançado em 1994. Desde o início, por ter integrantes com referências próprias na música, o grupo sempre misturou as influências de rock, funk, rap e reggae. E uma das marcas das composições sempre foi denunciar e expor a realidade das favelas e dos moradores em meio ao caos diário de tentar sobreviver em meio a todos os problemas.

Mas foi em "Rappa-Mundí" (1996) que o grupo ganhou uma produção mais pop por parte do já consagrado Liminha. Foi ele que ajudou O Rappa a se encontrar em meio a tudo e ainda conseguir dar uma pegada mais para o rádio, mais palatável para qualquer público. É desse disco que veio o hit "Pescador de Ilusões", um dos grandes sucessos daquela década. A banda estava vivendo uma efervescência criativa que resultaria, três anos depois, em um auge que não foi mais revisto por eles nos anos 2000.

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A intenção ainda era retratar a vida no Rio de Janeiro, mas como fazer isso sem soar repetitivo? Foi aí que a banda teve a ideia de se juntar em um apartamento para trabalhar o novo repertório. Além d'O Rappa, apenas Chico Neves, produtor de 10 das 12 faixas, o DJ Negralha e outros poucos profissionais de apoio participaram das gravações dentro do lugar. Mas ainda não havia um foco ou um fio condutor para servir de base para o trabalho.

Durante o processo de construção do repertório, eles conseguiram a parceria de Bill Laswell para produzir duas faixas: "Lado B Lado A" e Na Palma da Mão". Ao ter essas duas faixas prontas, eles sentiram mais segurança para desenvolver melhor o resto do trabalho, que traria novamente a miscelânea do dub, reggae, soul, funk e hip hop tão presente nos dois primeiros trabalhos de estúdio.

“Ele deu a segurança que nós queríamos. Trouxe um modo objetivo de ver a música que ditou o clima de todo o trabalho”, comentou Xandão ao jornalista Walter da Silva em 1999, reproduzido pelo site da Warner Music Brasil.

"Quando sugerimos o cara para a gravadora, eles acharam que a gente estava brincando. Acabou que o Yuka foi até os EUA para ver se o cara era legal mesmo e se nós topávamos trabalhar com ele", completou Lobato, tecladista, ao site da 'Folha de S. Paulo' (clique aqui e leia).

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Trabalhar próximo deu ao grupo uma noção de família que ainda não era presente. À época, o baterista Marcelo Yuka (1965-2019) mostrava-se bem satisfeito com que havia feito para gerar o novo álbum. "Esse trabalho, nós fizemos do jeito que a gente quis, num clima família. Se não vender nada, dane-se, estamos felizes com o resultado", contou ele também à 'Folha'. Mal sabia que, dois anos depois, o álbum ganharia platina dupla ao chegar na marca de 500 mil cópias vendidas.

Lançado em setembro de 1999, "Lado B Lado A" é considerado até hoje o auge d'O Rappa. Logo, "Me Deixa" e "Minha Alma (A Paz que Eu Não Quero)" viraram sucessos instantâneos, garantindo ao grupo presença constante nas rádios, em festivais e na TV. E "Minha Alma" ainda é o maior vencedor da história da VMB, premiação da extinta MTV Brasil, ao levar os prêmios de Escolha da Audiência, Clipe do Ano, Clipe Rock, Direção, Fotografia e Edição, em 2000.



Resenha de "Lado B Lado A"

O disco abre com o samba "Tribunal de Rua", faixa que aborda a truculência das ações policiais dentro das favelas e/ou próximo delas ("Era só mais uma dura/ Resquício de ditadura/ Mostrando a mentalidade/ De quem se sente autoridade/ Nessa tribunal de rua"). Infelizmente, a faixa continua muito atual, mostrando que não mudamos absolutamente nada desde sempre então.

Um dos hits do álbum, "Me Deixa" fala sobre como sonhar ainda faz parte de ser um humano, independente da classe social, e isso faz parte de ele ser "(...) homem mais sincero e mais justo comigo" e até desafiando quem quer que seja. O jeito como Marcelo Falcão canta faz você acreditar em cada palavra dele, e a mistura de rap com eletrônico deixou a música com um tom dançante feita para pular e cantar durante as apresentações.



"Cristo e Oxalá" é puro suco de Brasil, um país em que a pessoa vai à missa no domingo e na benzedeira duranta a semana para tirar o mau olhado, é aqui que podemos ouvir mais das muitas referências musicais da banda -- no caso, a mistura entre o pop e o rap. Ela acaba abrindo para outro grande hit do álbum: "O Que Sobrou do Céu". A quarta canção do trabalho é uma dessas canções que ecoarão por aí por muitos e muitos anos, pois consegue explorar a história de um dia sem luz e como só é possível prestar atenção na vida quando nos desligamos totalmente do automático. Tranquilamente poderia ser qualquer comunidade em qualquer lugar do Brasil.

E se a "Se Não Avisar o Bicho Pega" é sobre as maneiras que o tráfico usa para saber quem entra e quem sai da comunidade, principalmente a polícia, "Minha Alma (A Paz que Eu Não Quero)" é a grande música da carreira d'O Rappa. A faixa aborda com maestria os dilemas da vida, como ficar calado quando vê uma injustiça ou se levantar ("pois paz sem voz, paz sem voz, não é paz, é medo") em meio ao que acontece no mundo e a paralisia causada pelo cotidiano ("procurando novas drogas de aluguel nesse vídeo coagido/ é pela paz que eu não quero seguir admitindo"). É uma das grandes músicas gravadas no Brasil nos últimos 50 anos.



O vocal de Falcão estava muito inspirado nesse trabalho, principalmente na potente "LadoB LadoA". A faixa-título apresenta a história de um homem que sabe o que esperar, mas se apega na fé para seguir em frente e não ser confundido quando surgir alguma operação policial. Depois vem a bonita homenagem ao samba em "Favela", quando alguns dos ícones do gênero são citados.

As referências musicais retornam em "Homem Amarelo", que muitos alegam ter sido feita tendo o traficante Marcinho VP como base, enquanto a parte final apresenta "Nó de Fumaça" (história da vida em comunidade), "A Todas as Comunidades do Engenho Novo" (um relato muito pessoal do Falcão sobre onde morou) e "Na Palma da Mão", um encerramento muito tocante e necessário.

"Lado B Lado A" é o melhor trabalho d'O Rappa ao apresentar uma banda madura para avançar na estética e no discurso. E um disco de duas décadas atrás ainda soar muito atual diz muito sobre o hoje do que sobre 1999. E a banda conseguiu sintetizar esse discurso, ainda parte da nossa realidade.



Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Tribunal de Rua" (Marcelo Yuka) (4:20)
2 - "Me Deixa" (Marcelo Yuka) (4:06)
3 - "Cristo e Oxalá" (Marcelo Yuka) (4:26)
4 - "O Que Sobrou do Céu" (Marcelo Yuka) (3:52)
5 - "Se Não Avisar o Bicho Pega" (Jorge Carioca, Marquinho PQD, Marcinho) (5:14)
6 - "Minha Alma (A Paz que Eu Não Quero)" (Marcelo Yuka) (5:02)
7 - "LadoB LadoA" (Marcelo Falcão, Marcelo Yuka) (5:05)
8 - "Favela" (Marcelo Falcão, Xandão Marcelo Yuka, Lauro Farias, Marcelo Lobato) (3:20)
9 - "Homem Amarelo" (O Rappa) (4:16)
10 - "Nó de Fumaça" (Marcos Lobato) (3:44)
11 - "A Todas as Comunidades do Engenho Novo" (Marcelo Falcão) (6:18)
12 - "Na Palma da Mão" (Marcelo Yuka) (7:02)

Gravadora: WEA Music
Produção: Chico Neves (Bill Laswell nas faixas "Lado B Lado A" e Na Palma da Mão")
Duração: 56min55s

Lauro Farias: baixo; baixo synth em "Cristo e Oxalá"; vocal de apoio
Marcelo Falcão: voz; violão em "Tribunal de Rua" e "A Todas As Comunidades Do Engenho Novo"; guitarra em "Me Deixa" e "O Que sobrou do Céu"; tamborim e percussão de boca em "Me Deixa" e "Cristo e Oxalá"; mellotron em "A Todas As Comunidades Do Engenho Novo"; flauta
Marcelo Lobato: teclados, cuíca, vibrafone, talk box; talking drum em "O Que Sobrou do Céu"; melódica, programação MPC; derbak em "Favela"; mellotron flauta e vocal de apoio
Marcelo Yuka: bateria; rapping, loop; percussão de boca em "Tribunal de Rua"; derbak, moog; agogô e harmônio em "Minha Alma"; teclado; caixa em "Homem Amarelo"; purrinhola em "Nó de Fumaça"; vocal de apoio
Xandão: guitarra; derbak em "Nó de Fumaça"; vocal em "Se Não Avisar, o Bicho Pega"

Convidados:
Bill Laswell: baixo em "Na Palma da Mão"
Carlos Eduardo Hack: violino em "Na Palma da Mão"
DJ Negralha: scratch; frase de metais em "Me Deixa" e "Cristo e Oxalá"
Wellington Soares: pandeiro em "Favela"
Aline, Amilaque, Felipe, Fernando, Gustavo, Núbia e Pedro: coro de crianças em "A Todas as Comunidades do Engenho Novo"
Carlinhos Vaca Prenha, Carlos Henrique Groid, Eduardo Fifi, Rodrigo Molusco e O Rappa: palmas em "Na Palma da Mão"



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