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sábado, 7 de março de 2020

Discos para história: Fresh Fruit for Rotting Vegetables, do Dead Kennedys (1980)


História do disco

Com a mesma rapidez que nasceu, o punk morreu quase sem deixar saudade para quem era atacado diariamente pelo movimento que surgiu para satisfazer quem estava insatisfeito com o marasmo da música no meio dos anos 1970. Se poucas bandas sobreviveram, a semente foi plantada ao redor do mundo. Um desses lugares foi São Francisco, Califórnia, Estados Unidos, lugar onde nasceu a carreira do vocalista e compositor Jello Biafra.

Os membros da formação original na banda já tinham suas respectivas histórias na música antes de gravar o icônico trabalho. Biafra e East Bay Ray se encontraram pela primeira vez em 1978. Seria um encontro histórico para bem, que resultaria em um dos discos mais importantes da história do punk, como para o mal -- a banda até hoje não para de brigar entre si em disputas minúsculas para ter o controle da narrativa sobre quem fez o quê.

Antes mesmo de nascer, o grupo já era uma bomba cultural pronta para explodir a qualquer minuto. Biafra andava com pessoas dos movimentos de esquerda, especialmente os que protestavam contra o governo e Guerra do Vietnã muito antes de entrar para a música. Muito diferente de seus contemporâneos do punk, ele sempre soou bem articulado e engajado desde o início. Em 1979, ele foi pré-candidato à prefeitura de São Francisco e usou a repentina fama para atrair atenção para a banda.

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Não que o Dead Kennedys precisasse desse tipo de atenção. Ao fazer o primeiro show em 19 de julho de 1978, havia ali um imenso potencial -- comprovado à medida em que o repertório ia aumentando e o público também, apesar de confusões internas e externas durante todo esse processo. Com o repertório e o nome do grupo, nenhuma gravadora em sã consciência faria um convite para tê-los. O que eles fizeram? Biafra e East Bay Ray fundaram a gravadora Alternative Tentacles para lançar o primeiro single do grupo, a porrada "California Über Alles". E assim como os Ramones poucos anos antes, o grupo americano também encantou os britânicos como nunca encantaria o público de casa.

A caminhada até a gravação do primeiro disco não foi das mais fáceis para a banda por muitas dificuldades em encontrar lugares para tocar. Geralmente, a menção ao nome já era motivo suficiente para bani-los, mas os lugares que passaram por cima disso tiveram certo exito -- se o bar não fosse destruído, é claro. A formação dos primeiros shows tinha Biafra nos vocais, East Bay Ray na guitarra, Klaus Flouride no baixo, 6025 (Carlos Cadona) na guitarra e Ted na percussão e na bateria, porém Carlos sairia maio de 1979 e só voltaria como convidado para as gravações de "Fresh Fruit for Rotting Vegetables".

Entre maio e junho de 1979, aconteceram as gravações do primeiro e único álbum da formação original da banda. No livro "Fresh Fruit for Rotting Vegetables – Os Primeiros Anos" (Edições Ideal, R$ 45 em média) [clique aqui e veja a resenha do livro lá no canal no YouTube], o autor Alex Ogg conta que, por incrível que possa parecer, as sessões de gravação foram bem disciplinadas e tudo correu muito bem.

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Biafra era muito meticuloso com relação às gravações e nada soava rápido ou alto o suficiente para ele. Como era uma banda que não conseguiu uma gravadora logo de cara, tocar ao vivo era a única solução para mantê-los em atividade. Ou seja, o Dead Kennedys era uma banda muito bem ensaiada que sabia o próprio repertório do início ao fim. Não houve briga sobre quem seria creditado como produtor, crédito dado ao guitarrista East Bay Ray e ao gato de Oliver Diccico, dono do estúdio, chamado Norm. Mas Biafra participou pessoalmente da mixagem, irritando Bay Ray que se sentiu afastado do processo.

Apesar dos pesares, "Fresh Fruit for Rotting Vegetables" foi lançado e entrou para a história da música. Se não conseguiu chegar nem ao top 100 nos Estados Unidos, ao menos foi segundo lugar na parada independente no Reino Unido. Se a formação original não durou quase nada e os membros -- hoje senhores sexagenários -- ainda seguem brigando por migalhas de mérito individual pelo trabalho, pelo menos conseguiram entrar em acordo em um dos trabalhos mais importantes dos anos 1980 e da música.


Resenha de "Fresh Fruit for Rotting Vegetables"

A abertura de um disco é fundamental para entender a proposta do trabalho. Em "Fresh Fruit for Rotting Vegetables", a banda abre com a música-manifesto-irônico "Kill the Poor" ao falar sobre como bastante gente da direita, segundo eles, gostaria de implementar uma política de eliminação de pobres e assim acabar com todos os problemas. Claro que a faixa foi mal interpretada por várias pessoas que não entenderam a letra.

Escrita por 6025, "Forward to Death" é bem direta ao abordar o suicídio de maneira bem rápida e é emendada quase na sequência por "When Ya Get Drafted", quando a banda aborda sobre a política de começar uma nova guerra quando a economia está ruim. E em Let's Lynch the Landlord" é possível ouvir a influência da surf music na guitarra de East Bay Ray -- soa quase como se os Beach Boys fosse uma banda punk.

Se boa parte do álbum despreza políticos e os ricos, "Drug Me" fala sobre como as massas aceitam qualquer coisa empurrada goela abaixo -- desde remédios milagrosos até políticos populistas. Para finalizar o lado A, a rápida "Your Emotions" fala sobre como as pessoas vivem manipulando os filhos para eles agirem de determinada maneira e nunca ser quem realmente querem, e "Chemical Warfare" fecha explicando como seria uma hipotética guerra química dentro dos Estados Unidos com bastante ironia.



Uma grande canção histórica é "California Über Alles", nascida a partir do que Biafra acreditava ser uma espécie de ditadura hippie implementada pelos apoiadores do então pré-candidato à presidência dos Estados Unidos Jerry Brown -- ele detém as marcas de ser o governador mais jovem e o mais velho a ser eleito na Califórnia --, as fadas sensatas e sem defeitos da época. O título é inspirado em "Deutschland über alles", um slogan nacionalista alemão que significa "Alemanha acima de tudo" e é associado ao nazismo (se isso te lembra o slogan de determinado país sul-americano, você está indo no caminho certo). A canção tem uma força absurda e ainda espanta, 40 anos após o lançamento.

Ao abordar a perspectiva de um serial killer em "I Kill Children", Biafra escreveu uma de suas canções mais fracas e que apenas serviu para completar as 14 faixas do trabalho -- vale pelo solo de baixo de Klaus Flouride --, assim como "Stealing People's Mail" e "Funland at the Beach", canções não mais do que divertidas para pular a gritar junto em um show. Enquanto "Ill in the Head" é mais uma da 6025 a falar sobre seus problemas mentais e como conviver com isso é bem difícil.



Provavelmente uma das aberturas mais conhecidas da música, "Holiday in Cambodia" é a obra-prima do Dead Kennedys. Ao abordar como os ricos adoram tirar vantagem dos pobres em vários aspectos da sociedade, a canção ficou eternizada como uma espécie de hino que trazia à tona todos os assuntos. Nenhuma faixa consegue resumir tão bem o trabalho da banda, pela primeira e única vez funcionando como uma unidade na construção de uma canção, como essa. Com pequenas alterações feitas no segundo e quarto versos, "Viva Las Vegas", eternizada na voz de Elvis Presley, ganhou um cover muito divertido para encerrar "Fresh Fruit for Rotting Vegetables".

"Fresh Fruit for Rotting Vegetables" é um documento histórico sobre uma época em que o mundo passava por diversas transformações. Os anos 1980 seriam estranhos, de certa forma, e ensinaram muito a muita gente. O Dead Kennedys desse disco, assim como aquela década, foi como uma noite inesquecível de um verão. Queimou rápido, mas foi intenso.



Ficha técnica

Tracklist:

Lado A

1 - "Kill the Poor" (East Bay Ray, Biafra) (3:07)
2 - "Forward to Death" (6025) (1:23)
3 - "When Ya Get Drafted" (1:23)
4 - "Let's Lynch the Landlord" (2:13)
5 - "Drug Me" (1:56)
6 - "Your Emotions" (Ray) (1:20)
7 - "Chemical Warfare" (2:55)

Lado B

1 - "California Über Alles" (Biafra, John Greenway) (3:03)
2 - "I Kill Children" (2:04)
3 - "Stealing People's Mail" (1:34)
4 - "Funland at the Beach" (1:49)
5 - "Ill in the Head" (6025, Biafra) (2:46)
6 - "Holiday in Cambodia" (Dead Kennedys) (4:37)
7 - "Viva Las Vegas" (Elvis Presley cover) (Doc Pomus, Mort Shuman) (2:42)

Todas as faixas foram escritas por Jello Biafra, exceto as marcadas

Gravadora: Cherry Red/ Alternative Tentacles/ Faulty Products
Produção: Norm e East Bay Ray
Duração: 33min03s

Jello Biafra: vocal
East Bay Ray: guitarra
Klaus Flouride: baixo e vocal de apoio
Ted: bateria

Convidados:

6025: guitarra em "Ill in the Head"
Paul Roessler: teclado em "Drug Me" and "Stealing People's Mail"
Ninotchka: teclado em "Drug Me"; vocal de apoio
Dirk Dirksen, Bobby Unrest, Michael Synder, Bruce Calderwood (Bruce Loose), Barbara Hellbent, HyJean, Curt e Chi Chi: vocal de apoio



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