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quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Discos para história: Usuário, do Planet Hemp (1995)


Banda carioca lançou um dos trabalhos mais controversos dos anos 1990

História o disco

"O grupo Planet Hemp lança seu primeiro disco e aquece a questão da descriminalização da maconha". Esse é o título de uma entrevista na finada 'Folhateen', antigo caderno dedicado às crianças e adolescentes no jornal 'Folha de S. Paulo', feita pela repórter Nina Lemos. Poderia ser 2017, mas é 1995, véspera do lançamento de um dos clássicos da música brasileira daquela década. Entre 1994 e 1996, a música brasileira passou por seu último período com relevância em novidades. Era o último 'boom' das gravadoras e havia dinheiro para ser despejado em promoção dessas revelações.

Mas, como toda banda iniciantes, eles tiveram que brigar por espaço. E muito mais do que qualquer uma. A começar pelo discurso. Era meio dos anos 1990, o Brasil estava livre da ditadura (1964-1985) há uma década, mas havia escândalos suficientes para tirar o primeiro presidente eleito pelo povo em pouco mais de dois anos de mandato. O conservadorismo jogou contra na maioria do tempo, porém não foi suficiente para impedir o sucesso deles entre os adolescentes. Não é à toa que Usuário, o primeiro disco de estúdio deles, é um clássico. É um manifesto em forma de música.

Mais discos dos anos 1990:
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Também como quase toda banda, eles quase acabaram antes de conseguir gravar o primeiro trabalho. Skunk, vocalista e parceiro de longa data, morreu em decorrência de complicações do vírus HIV em junho de 1994. "A gente nem gosta de falar nisso. Ele era quase meu irmão. A banda quase acabou na época. A gente não conseguia pensar em nada", disse BNegão, entrevista à 'Folhateen'.

"Não dá para falar nisso sem ter vontade de chorar. Esse disco é em homenagem a ele. O Skunk era nosso amigo, era um cara cheio de vida. É bom deixar isso claro: ele morreu porque transou sem camisinha. Que sirva de lição. Gente, não transe sem camisinha!", completou Marcelo D2, em discurso que pode ser repetido tranquilamente mais de 20 anos depois.

Muitas bandas do underground estavam em alta naquela época. Empolgados com a possibilidade de trabalhar com esse novo grupo de músicos que estavam ganhando destaque, os Titãs criaram o Banguela Records em São Paulo. O selo foi responsável por alguns dos grandes lançamentos daquela época, como a estreia dos Raimundos. Mas e o Rio de Janeiro? Em 1994, a produtora Elza Cohen também tentava fazer algo parecido com os Titãs. Ela tinha tudo acertado com Planet Hemp, O Rappa, Jorge Cabeleira e Kongo para o Festival Superdemo. Disso, tendo esses músicos bem próximos, Cohen tinha o desejo de transformar o evento em um selo vinculado à Sony.


No documentário Sem Dentes - Banguela Records e a Turma de 1994, dirigido pelo jornalista Ricardo Alexandre, o produtor Carlos Eduardo Miranda conta como o Planet Hemp conseguiu o primeiro contrato. "Ela [Cohen] ia fazer uma coletânea", contou Miranda. Ela fazia isso na raça, igual a todos nós... Quando eu soube que aquela coletânea era um contrato de quatro músicas, dois compactos simples, por cinco anos, que ia travar Planet Hemp, O Rappa, o Kongo, Jorge Cabeleira... Eu falei: 'nem fodendo, veio!'. Liguei pra Elza e falei: 'ô Elza, isso aí que você tá fazendo é uma cagada. Tu tá fazendo um pau de sebo disfarçado, tão te usando, e isso aí eu não vou permitir que aconteça. Não é hora de ter uma coletânea dessa travando esses artistas importantes para o mercado por cinco anos'. Daí eu falei: 'quer saber o seguinte, confia em mim. Eu vou botar pra foder pra cima de ti. Vou ligar pro [André] Forastieri [editor da Ilustrada, caderno da 'Folha de S. Paulo', à época] e nós vamos te arregaçar no mercado. Mas vai ser pro bem", explicou.

"Ele já saiu bombardeando na Folha, e eu mandei contrato falso pra banda [o Planet Hemp] e liguei pras bandas: 'Não assina essa porra'. Liguei pro empresário do Planet Hemp e falei: 'tô te mandando um contrato pra tu esfregar na cara dos caras lá na Sony. Eu falei pra ele: 'olha, esse contrato é frio. Eu não vou te contratar, porque não dá para os Titãs contratar o Planet Hemp. Porque se pegarem vocês com maconha, e fomos nós soltarmos vocês, vão nos prender junto. Vocês têm que estar numa gravadora com uns caras de gravata pra soltar vocês, não os loucos. Então, eu não quero encrenca, não vou contratar o Planet Hemp'. E foi o que a gente fez", continuou.

Veja também:
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"E nessa brigaiada toda, não sei quem era lá na Sony, deu uma pernada nos caras lá. Mandou os dois à merda e foi fazer ele o negócio. 'Vamos fazer um selo e escolhe duas bandas [disse para Cohen]'. O Jorge Cabeleira foi afobado e já tinha assinado o contrato [...]. Daí [depois disso tudo] virou um selo [Chaos] com essas duas contratações [Cabeleira e Planet Hemp]. E foi assim que o Planet Hemp assinou o primeiro contrato profissional.

Lançado em 1º de abril de 1995, o primeiro disco do Planet Hemp levantou uma ótima discussão sobre o uso recreativo da maconha, que ainda segue viva mais de 20 anos depois. Mas esse disco está longe de ser apenas isso. É a fusão do rock com o rap no Brasil de um grupo iniciante, porém sabia exatamente o tipo de mensagem que desejava passar ao público e como queria passá-la.


Resenha de Usuário

O disco começa com "Não Compre, Plante!", em que a guitarra aparece para mostrar que o Planet Hemp não seria apenas um grupo de rap. A mistura de gêneros seria fundamental na construção de alguns dos grandes sucessos. É fundamental entender nessa primeira faixa como a guerra às drogas já havia fracassado há mais de 20 anos. E como os membros da banda passaram por todas as fases da escalada da violência no Rio de Janeiro entre os anos 1970 e 1990, principalmente pelo poder financeiro do tráfico de drogas. A liberação da maconha, segundo eles, seria uma maneira de iniciar o abafa dessa grande operação.

A crítica a polícia não poderia faltar, e "Porcos Fardados" mostra a rotina de alguns membros da corporação quando estão em serviço – de proteger apenas ricos até entrar na casa das pessoas sem mandato. Já no clássico "Legalize Já", o Planet Hemp apresenta argumentos para mostrar que existem coisas piores vendidas livremente e como a maconha, usada moderadamente, não faz nenhum mal. A curta "Deisdazseis" serve para abrir para a potente "Phunky Buddha", bem ao estilo do Rage Against the Machine, e "Maryjane", um bom hard rock. Aliás, é das melhores coisas como eles vão de um lado (hard rock) para o outro (rap) de forma muito natural.



A ponte para a segunda parte do disco leva o nome da banda, mas ela começa mesmo em "Fazendo A Cabeça", faixa em que, novamente, eles expõem a realidade das favelas do Rio de Janeiro. Marcelo D2 fez muito sucesso ao buscar à batida perfeita no início dos anos 2000. E ele começou isso em "Futuro Do País", um samba que vai ganhando a guitarra discreta ao fundo até tudo acelerar e ganhar um tom bem pesado. Depois vem outro clássico: "Mantenha o Respeito" fala sobre desigualdade, mas, principalmente, sobre como usar maconha não diminui nenhum ser humano.

"P... Disfarçada" é uma faixa bem rancorosa sobre o fim de um relacionamento com uma moça de uma classe mais alta, enquanto a instrumental "Speed Funk" mostra todo gingado do grupo para encaminhar o ouvinte até a parte final. Ao iniciar com "Muthafuckin' Racists", o recado é claro: racismo não terá vez no Planet Hemp. Outra discussão muito atual puxada por eles em 1995, que cai em "Dig Dig Dig (Hempa)" – a letra fala dos problemas em tratar usuário recreativo como bandido.



A parte final do disco reserva uma homenagem a Skunk em uma bonita faixa instrumental, "A Culpa É De Quem?" surge para ir amarrando as pontas soltas dos argumentos pela liberação e "Bala Perdida" é outra faixa sobre a dura realidade da violência do Rio de Janeiro – outra que, infelizmente, segue das mais atuais em 2017.

Um disco que ainda segue atual, Usuário é um clássico dos anos 1990 que causou muitos problemas ao Planet Hemp. Prisões, processos e exposição excessiva na mídia por outro assunto que não a música fizeram parte do primeiro de contrato com a Sony. Sorte deles, como disse Miranda, tinha uns engravatados para tirá-los da prisão. A cada show, admiração só aumentava, criando todo um mito em torno do grupo. Por esses e outros motivos, esse trabalho é um dos melhores da música brasileira.



Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Não Compre, Plante!" (Marcelo D2, Rafael Crespo) (4:12)
2 - "Porcos Fardados" (D2, Crespo) (3:06)
3 - "Legalize Já" (D2, Crespo) (3:01)
4 - "Deisdazseis" (D2, Black Alien) (0:48)
5 - "Phunky Buddha" (D2, Crespo) (2:50)
6 - "Maryjane" (D2, Crespo) 2:10
7 - "Planet Hemp" (Crespo) (0:32)
8 - "Fazendo A Cabeça" (Marcelo D2, Rafael Crespo, Formigão, Bacalhau) (3:20)
9 - "Futuro Do País" (D2, Crespo) (3:39)
10 - "Mantenha o Respeito" (D2, Crespo) (3:16)
11 - "P... Disfarçada" (D2, Crespo) (2:26)
12 - "Speed Funk" (Crespo, Bacalhau) (1:23)
13 - "Muthafuckin' Racists" (D2, Black Alien, Crespo) (3:44)
14 - "Dig Dig Dig (Hempa)" (D2, Crespo, Formigão, Bacalhau) (1:53)
15 - "Skunk" (Crespo (3:35)
16 - "A Culpa É De Quem?" (D2, Crespo) (3:48)
17 - "Bala Perdida" (D2, Crespo, Formigão, BNegão) (2:33)

Gravadora: Chaos/Sony
Produção: Fábio Henriques e Planet Hemp
Duração: 47min42s

Marcelo D2: vocal
BNegão: vocal, guitarra em "Bala Perdida"
Rafael Crespo: guitarra, bateria em "Bala Perdida"
Formigão: baixo
Bacalhau: bateria
DJ Rodrigues: scratchs

Convidados:

Marcos Suzano: percussão em "Não Compre, Plante!", "Legalize Já" e "Speed Funk"
Speed Freaks: baixo em "Speed Funk" e "Skunk"
Marcelo Lobato: teclados em "Não Compre, Plante!", "Dig Dig Dig (Hempa)" e "Skunk"
Chico Neves: programação em "Porcos Fardados", "Futuro do País" e "A Culpa é de Quem"
Black Alien: vocal em "Deisdazseis" e "Muthafuckin' Racists" e vocal de apoio em "Planet Hemp" e "Mantenha o Respeito"



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