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sexta-feira, 8 de julho de 2016

Discos para história: Giant Steps, de John Coltrane (1960)


A edição 132 da seção fala de um dos clássicos do jazz e primeiro disco solo de John Coltrane na Atlantic

História do disco

John Coltrane foi um dos mais notáveis saxofonistas da história do jazz. Mas, como a maioria, ele não começou de cima. Seu início foi na banda de Miles Davis no fim dos anos 1940, quando uma intensa e respeitosa rivalidade começou entre os dois. Houve um período de separação no início dos anos 1950 por conta do vício de Coltrane em heroína, porém eles voltariam a se encontrar em 1955, quando Miles ligou para o ex-companheiro de banda.

Davis estava com vontade de retomar o trabalho com a formação de um quinteto. Entre idas de vindas e mudanças na formação, foram três anos de Coltrane trabalhando com Davis, que dava sinais de recaídas. No mesmo período, ele gravou alguns de seus discos mais marcantes, como Kind of Blue – um grande clássico do jazz.

Mais discos dos anos 1960:
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No período de um ano, o saxofonista lançou quatro discos pela Blue Note, gravadora de fundamental importância para o blues e o jazz entre os anos 1930 e 1960. O empresário Harold Lovett viu potencial de Coltrane e bateu na porta da Atlantic para saber se havia interesse em gravar um disco solo. Como não era um músico caro, o acordo acabou sendo fechado para o primeiro registro solo – eram US$ 7 mil dólares anuais garantidos.

Ele estava ocupado com as gravações de Kind of Blue, e não conseguiu, de início, encontrar espaço para desenvolver suas ideias. A primeira leva de gravações, em 26 de março de 1959, não rendeu o esperado. Ele só retornaria ao estúdio entre os dias 4 e 5 de maio, duas semanas após o fim dos trabalhos com Davis, para entrar de cabeça em seu primeiro LP com composições totalmente inéditas. Uma última sessão, em 2 de dezembro, serviu para arrematar o serviço.

Lançado em 27 de janeiro de 1960, tornou-se um dos mais icônicos e populares álbuns de jazz de todos os tempos por público e crítica. Giant Steps, o primeiro de quatro discos lançados na Atlantic, foi mesmo um grande passo na carreira de John Coltrane, que pôde mostrar seu talento como músico solo.


Resenha de Giant Steps

A faixa-título abre com um ótimo solo de John Coltrane logo de cara, mostrando um talento até então sobreposto por outro – no caso, Miles Davis. Aqui temos o exemplo perfeito do chamado 'Coltrane changes', uma variação de progressão harmônica usando acordes substitutos aliada ao jazz em sua essência. O resultado é uma mistura de improviso com um toque de genialidade simplesmente fantástico. Em poucas palavras, ele inventou uma progressão harmônica.

E a história de "Giant Steps" vai um pouco mais além: sem ter ensaiado a música, Coltrane nunca fazia isso, o saxofonista viu seus companheiros da banda, Paul Chambers (contrabaixo), Tommy Flanagan (piano) e Art Taylor (bateria), com dificuldade para acompanhá-lo no início. Principalmente Flanagan, que só foi dominar a progressão de acordes anos depois do lançamento do álbum.



O piano divide com o saxofone o tempo dos instrumentos em "Cousin Mary", com o segundo, claro, levando o destaque maior. É incrível perceber como a canção vai evoluindo aos poucos, enquanto o resto da banda apenas acompanha. Quer dizer, apenas acompanha é muito pouco para essa banda. Por exemplo, o solo de piano é de outro planeta nesta segunda faixa. E assim segue, o disco inteiro.

A bateria dá o tom inicial da curta "Countdown", então entra o sax, rápido e rasteiro, para mostrar força e velocidade no improviso, diferente de "Spiral" e sua progressão harmônica mais suave, mas dentro do que o ouvinte pode entender como jazz instrumental. Assim o lado A era encerrado – muito bem encerrado, diga-se.

"Syeeda's Song Flute" abre o lado B de maneira sublime ao termos a chance de ver a banda dando o melhor de si para acompanhar Coltrane. E que homem no saxofone. Não é de graça que ele é um dos ícones no instrumento, não é de graça que ele conseguiu mudar as coisas no jazz ao improvisar de maneira diferente. Era um gênio mesmo.



A balada "Naima" é uma homenagem a esposa de Coltrane. Mostrando uma riqueza instrumental absurda, a canção toma conta dos ouvidos logo em seu início. E fica mais melancólica quando entra um piano, esse um grande instrumento para mostrar esse tipo de sentimento. Outra homenagem, desta vez ao baixista Paul Chambers, "Mr. P.C." é conhecida por ser um 'swing feel' – uma mudança rítmica mais acentuada dentro do bebop, um estilo mais ágil e veloz dentro do jazz. Um belo encerramento.

Esse tipo de álbum não é só um LP que você ouve uma vez e pronto. Você sai encantado ao final da audição, porque é uma verdadeira aula de jazz para quem não é tão próximo do estilo e de tudo que o cerca. Vale a pena ouvir não só por isso, mas também para entender a genialidade de John Coltrane em suas composições.



Ficha técnica

Tracklist:

Lado A

1 - "Giant Steps" (4:43)
2 - "Cousin Mary" (5:45)
3 - "Countdown" (2:21)
4 - "Spiral" (5:56)

Lado B

1 - "Syeeda's Song Flute" (7:00)
2 - "Naima" (4:21)
3 - "Mr. P.C." (6:57)

Gravadora: Atlantic
Produção: Nesuhi Ertegün
Duração: 37min03

John Coltrane: saxofone tenor
Tommy Flanagan: piano
Wynton Kelly: piano em "Naima"
Paul Chambers: baixo
Art Taylor: bateria
Jimmy Cobb: bateria em "Naima"



Veja também:
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