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quinta-feira, 8 de junho de 2017

Discos para história: Mr. Tambourine Man, do Byrds (1965)


Primeiro disco da banda entrou para história por ser o primeiro classificado como folk rock

História do disco

O ano de 1965 foi muito louco na música. Beatles, Beach Boys, Bob Dylan, Rolling Stones, The Who, Animals, Zombies e Kinks estavam nas paradas. O velho estava se renovando e o novo estava surgindo de maneira esplendida. E a música não seria mais a mesma. Em Los Angeles, havia um grupo tão especial quanto os citados, que também mudaria os rumos da música, que também faria sucesso, que também entraria na história. Era o Byrds.

A gênese do que seria o Byrds nasceu um ano antes de um dos grandes lançamentos daquela década. Roger McGuinn, conhecido e creditado como Jim McGuinn no início da carreira, e Gene Clark (1944-1991), cantores folk, se uniram em uma banda chamada The Jet Set para tocar covers dos Beatles, canções tradicionais do folk e uma ou outra composição solo. Não demorou muito para a entrada de outro membro para formar um trio: era o cantor e guitarrista David Crosby.

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Mas ainda faltava gente para completar a formação do primeiro álbum. Com a ideia de encorpar um pouco mais o som, Crosby indicou aos companheiros de banda o baterista Michael Clarke (1946-1993) e o baixista Chris Hillman. A nova formação levou o grupo, que havia mudado para Beefeaters, a uma nova mudança de nome, essa definitiva. Inspirados pela grafia dos Beatles – uma mistura de 'beat' (batida) com beetle (besouro) escrito errado –, eles seriam The Byrds.

Muito do que a banda construiu aconteceu no lendário estúdio World Pacific. Lá, eles aperfeiçoaram melodias, ritmos, coordenaram os vocais e ensaiaram muito para as apresentações. Nesse período, eles conheceram e assinaram com o empresário Jim Dickson (1931-2011), que viu neles potencial para chegar em algo parecido com a inspiração deles: os Beatles. No início de 1965, eles teriam contato com alguém que mudaria a vida deles para sempre: Bob Dylan.

Dylan já era famoso e reconhecidamente um músico e compositor de bastante sucesso. À época, ele estava escrevendo as canções do disco Bringing It All Back Home (1965), lançado em março de 1965. Nesse álbum, está incluída a versão original de "Mr. Tambourine Man", o primeiro sucesso dos Byrds. A amizade entre a banda e o cantor ajudou na cessão da canção, mas a Columbia também tinha muito interesse no sucesso do grupo. E o empresário havia conseguido uma cópia da demo em agosto de 1964 e fez a banda trabalhar nela por semanas.

Sim, a mesma gravadora de Dylan havia assinado com os Byrds. Como? O famoso 'quem indica' ajudou bastante. Um contato aqui, outro ali, uma visita, um papo, um show. Pronto, os Byrds estavam em uma das grandes da época. Quando uma empresa deste tamanho aposta em alguém, é bom ter ajuda. Se você tem Bob Dylan na sua cartela de clientes, que tal ele ceder uma canção ao grupo? Querendo ou não, ele tinha contrato. Então isso foi feito.

Havia uma nova cena surgindo por conta da mudança de Dylan do violão para guitarra. Era o chamado folk rock, uma espécie de vertente pop de um dos gêneros mais antigos do mundo. O acréscimo de guitarras, órgãos, teclados, baixo e bateria deu ao gênero uma nova cara – mais popular. Os puristas, claro, odiaram. Mas era a evolução natural de uma nova geração surgindo.

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No dia 20 de janeiro de 1965, "Mr. Tambourine Man" e "I Knew I'd Want You" foram gravadas, sendo a primeira lançada como single de trabalho. Nessa primeira gravação, como a banda ainda não estava ensaiada o suficiente, McGuinn foi o único membro da formação original a estar presente. Isso levanta suspeitas até hoje, porque muitos desconfiam que o produtor Terry Melcher (1942-2004) usou a banda Wrecking Crew (Hal Blaine, Larry Knechtel, Jerry Cole e Leon Russell) em todas as faixas do álbum – é mais uma dessas histórias da indústria musical. À medida que Melcher foi conhecendo melhor os Byrds, ele percebeu que não precisaria de ninguém para ajudá-los.

A banda começou a fazer sucesso na cena local, e isso foi coroado com o lançamento da primeira faixa de trabalho. Era tudo tão novo e fresco e surpreendeu os ouvintes das rádios e os críticos da época. O Byrds foi sucesso quase instantâneo. O folk rock estava pronto para voar. Para completar esse sucesso todo, rapidamente foi encomendado um LP cheio.
Lançado em 21 de junho de 1965, Mr. Tambourine Man chegou ao sexto lugar da parada americana e ao sétimo da britânica na semana de estreia.

O álbum foi marcante por ser o primeiro lugar de um grupo americano desde a chamada Invasão Britânica nas paradas dois anos antes. Os Byrds, com uma pequena ajuda de Bob Dylan, quebraram essa sequência ao chegar aos corações dos adolescentes. Eles estavam prontos para dominar os Estados Unidos.



Resenha de Mr. Tambourine Man

A versão dos Byrds para "Mr. Tambourine Man" é muito diferente da lançada por Dylan dias depois – sim, eles lançaram primeiro. Do arranjo completamente diferente ao estilo vocal, a faixa ganhou uma repaginada das mais complexas por parte do grupo e acabou virando o símbolo do nascimento do folk rock nos Estados Unidos em uma intepretação das mais famosas na cultura pop. A primeira original deles aparece em "I'll Feel a Whole Lot Better", uma balada simples, sarcástica e cheia de energia sobre o amor que está indo embora.

"Spanish Harlem Incident" mostra a diferença brutal entre as versões: a harmonia vocal faz toda diferença. E, ainda que não propositadamente, eles colocam uma energia jovial nas letras, muito diferente do estilo mais melancólico e profundo do cantor. Depois vem duas seguidas de composição de Gene Clark, mostrando seu talento como letrista.



A primeira é a otimista "You Won't Have to Cry", sobre a garota encontrar apoio no homem que gosta dela, enquanto "Here Without You" soa a continuação da anterior, mas, no caso, a garota nunca ficou com o rapaz e ele lamenta profundamente que a distância tenha separado esse amor. O cover de "The Bells of Rhymney", conhecido na voz de Pete Seeger, fecha o lado A e o destaque é como o trabalho da guitarra ajuda na condução do resto da banda na melodia – por ser um poema do escritor galês Idris Davies, a pronúncia correta de Rhymney seria "Rumney", não "Rimney".

"All I Really Want to Do" ganha cor na interpretação dos Byrds – sim, é mais uma canção de Dylan cedida aos companheiros de gravadora. Simples, mostra toda a harmonia e entrosamento da banda. "I Knew I'd Want You" surge e mostra semelhança com "You've Got to Hide Your Love Away", dos Beatles, em pequenas coisas – essa foi uma das duas não gravadas pela formação original. Uma das melhores do LP, "It's No Use" mostra como vocais bem harmônicos fazem a diferença.



Já "Don't Doubt Yourself, Babe" tem um lado country delicioso, explorado pelo Byrds mais à frente na carreira. Quarta e última de Dylan no repertório, "Chimes of Freedom", por tratar do apoio aos oprimidos e àqueles que sofrem na mão dos poderosos, não é tão solar como as outras versões, mas é tão boa quanto. E virou uma das marcas das apresentações ao vivo. Por fim, "We'll Meet Again", uma das mais importantes canções do Reino Unido – foi uma espécie de segundo hino durante a Segunda Guerra Mundial –, fecha o trabalho com uma mensagem de otimismo sobre encontrar o amor em um dia ensolarado um dia.

A estreia do Byrds traz muitas canções de Bob Dylan, mas, ao ouvi-las, nem parece que são dele. Elas, por direito, também pertencem à banda que as regravou de maneira magistral. O resto do disco não destoa ao mostrar a potência harmônica de três vocalistas e uma cozinha musical extremamente organizada e disposta a simplificar ao máximo. O primeiro LP deles é para se ter na coleção.



Ficha técnica

Tracklist:

Lado A

1 - "Mr. Tambourine Man" (Bob Dylan) (2:29)
2 - "I'll Feel a Whole Lot Better" (Gene Clark) (2:32)
3 - "Spanish Harlem Incident" (Dylan) (1:57)
4 - "You Won't Have to Cry" (Clark, Jim McGuinn) (2:08)
5 - "Here Without You" (Clark) (2:36)
6 - "The Bells of Rhymney" (Idris Davies, Pete Seeger) (3:30)

Lado B

7 - "All I Really Want to Do" (Dylan) (2:04)
8 - "I Knew I'd Want You" (Clark) (2:14)
9 - "It's No Use" (Clark, McGuinn) (2:23)
10 - "Don't Doubt Yourself, Babe" (Jackie DeShannon) (2:54)
11 - "Chimes of Freedom" (Dylan) (3:51)
12 - "We'll Meet Again" (Ross Parker, Hughie Charles) (2:07)

Gravadora: Columbia
Produção: Terry Melcher
Duração: 31min35s

Jim McGuinn: guitarra e vocais
Gene Clark: guitarra, tambourine e vocais
David Crosby: guitarra e vocais
Chris Hillman: baixo
Michael Clarke: bateria

Convidados:

Jerry Cole: guitarra (faixas 1 e 8)
Larry Knechtel: baixo (faixas 1 e 8)
Leon Russell: teclado (faixas 1 e 8)
Hal Blaine: bateria (faixas 1 e 8)



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