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quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Discos para história: Mutantes, dos Mutantes (1969)


Segundo álbum de estúdio do grupo solidificou trabalho do trio

História do disco

A música brasileira estava passando por um tempo de efervescência como há muito não se via. A nova geração estava com tudo, enquanto os barões da Bossa Nova estavam perdendo cada vez mais espaço para essa leva de música jovem muito influenciada pelos acontecimentos nos Estados Unidos e na Inglaterra. A era psicodélica surgida no Brasil durou pouco, mas suficiente para deixar marcas latentes para sempre – de Sean Lennon a Kurt Cobain.

A Tropicália havia chegado ao fim com as prisões de Caetano Veloso e Gilberto Gil em 1968, mas o show tinha que continuar de qualquer jeito – aliás, eles estavam na última apresentação da dupla no Brasil antes do exílio. Os Mutantes estavam frequentando programas, principalmente o comandado por Ronnie Von, e festivais. Entre classificações, eliminações e prêmios, a banda tinha uma cara e estava conseguindo alguma coisa, ainda que não tocasse na rádio e fosse tratada com excentricidade por parte de alguns apresentadores e de uma parcela considerável do público.

Mais discos dos anos 1960:
Discos para história: Os Afro-Sambas, de Baden Powell e Vinicius de Moraes (1966)
Discos para história: Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles (1967)
Discos para história: Samba Esquema Novo, de Jorge Ben (1963)
Discos para história: Kinks, do Kinks (1964)
Discos para história: Giant Steps, de John Coltrane (1960)
Discos para história: Pet Sounds, do Beach Boys (1966)


Esse sucesso rendeu um convite para ir ao Miden (Marché international du disque et de l'édition musicale, no original), a maior feira musical do mundo. A banda já estava trabalhando no segundo disco, sucessor de Os Mutantes (1968) enquanto faziam suas apresentações ao vivo, mas eles só tinham prontas "2001" e "Don Quixote". Isso gerou certa correria no Estúdio Escatena, em São Paulo, para conclusão do novo álbum.

Na autobiografia lançada no final de 2016, Rita Lee conta que, para esse novo LP, instituiu-se uma nova regra: as canções seriam registradas em nome dos três, independentemente de quem havia começado ou terminado. O trabalho estava indo bem. Mas, segundo a (ex) cantora, Sérgio e Arnaldo Baptista queriam incluir o irmão Claudio nos créditos. Rita não gostou e fez um ultimato: ou Claudio, ou ela. Ela ficou, mas se arrepende profundamente de ter dividido os créditos das canções. Com tudo resolvido, é assombroso saber que eles só levaram dez dias para finalizar tudo.

Veja também:
Discos para história: Cê, de Caetano Veloso (2006)
Discos para história: Orfeu da Conceição, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes (1956)
Discos para história: Unknown Pleasures, do Joy Division (1979)
Discos para história: Suede, do Suede (1993)
Discos para história: From Her to Eternity, de Nick Cave and The Bad Seeds (1984)
Discos para história: Mr. Tambourine Man, do Byrds (1965)

Sobre a capa, os três foram fotografados durante a apresentação no Festival Internacional da Canção (FIC) de 1969. Já contracapa é uma imagem dos três vestidos de ETs que, segundo Rita, "a maquiagem é para lá de malfeita chupada da maquiagem também para lá de malfeita de Boris Karloff em Frankenstein".

Se nos dois anos anteriores os Mutantes ficaram conhecidos como banda de apoio, com o segundo álbum de estúdio a banda mostrava-se pronta para mostrar ainda mais potencial musical com uma das mais importantes uniões da música brasileira.


Resenha de Mutantes

O disco abre com a quixotesca "Dom Quixote" (sacaram?). De arranjo grandioso e bem psicodélica, podemos ver toda influência do que estava rolando na música internacional – leia-se Beatles e Rolling Stones em suas fases lisérgicas. É inegável a influência, mas é inegável que eles deram uma cara muito própria ao que faziam no estúdio. Hoje conhecida por ter sido incluída em um comercial, "Não Vá Se Perder Por Aí" começa parecendo um erro até ganhar o ritmo que conhecemos. Um dos grandes sucessos d'Os Mutantes, a segunda faixa do disco foi composta por Raphael Vilardi e Roberto Loyola, dois amigos dos irmãos Baptista. E acabou virando um clássico instantâneo.

Se Claudio Baptista não ganhou crédito nas músicas, ao menos ele contribuiu de forma decisiva para o som da banda. Em "Dia 36", a voz sai do órgão através deum voice box que distorce a voz desenvolvido em um dos seus muitos "desmonta e remonta" na garagem dos pais. Acabou criando o efeito ideal para cantar coisas do tipo Hoje é dia trinta e seis/ Um grito ele amou/ Lençóis e colchas vão se encontrar. E só mesmo Os Mutantes para fazer uma canção high-tech com moda de viola em "2001", única composição assinada por alguém da banda (Rita Lee) e outra pessoa (Tom Zé). Mesmo de teor engraçadinho, é possível pescar algumas coisas profundas (Minha dor é cicatriz, minha morte não me quis).



"Algo Mais" é o famoso single gravado para uma campanha da Shell. À época, a empresa apostava em um marketing agressivo para atrair a juventude. E nada melhor do que uma banda nova fazendo coisas diferentes do habitual na já cansada música popular brasileira. A animada faixa quase ficou de fora, e eles tiveram que lutar muito para inclui-la no trabalho. Felizmente deu tudo certo. Para encerrar o lado A, a linda "Fuga Nº II" traz Rita Lee com sua bonita voz em um arranjo muito delicado para falar sobre sair de casa e se perder pelas ruas da vida.

"Banho de Lua (Tintarella di Luna)" ficou conhecida na voz de Celly Campello (1942-2003) e ganhou uma versão das mais malucas pelos Mutantes. Eles pegaram uma faixa dançante dos anos 1950 e a transformaram em algo experimental e cheio de nuances, e a voz de Rita consegue ser tão atraente como a de Campello. E "Rita Lee" soa como a "Penny Lane" dos Mutantes – em questão de estilo, no caso – misturada com um o tom engraçadinho do grupo.



O tom lisérgico retorna como tudo na ótima "Mágica", uma faixa das mais bonitas já feitas pelo trio. Depois aparece "Qualquer Bobagem", gaguejada por Arnaldo em uma das suas muitas loucuras musicais que, por incrível que possa parecer, deram certo no disco. Outra das mais bonita, com imenso destaque para o arranjo de Rogério Duprat, "Caminhante Noturno" encerra o disco de maneira primorosa ao mostrar que o trio poderia ir muito além musicalmente.

Mais maduros, os Mutantes conseguiram entregar um de seus melhores discos com o trio original. Rita Lee, Sergio Dias e Arnaldo Baptista fizeram um trabalho dos mais brilhantes ao conseguir unir as habilidades de cada um de maneira a mostrar que eles eram a grande banda brasileira dos anos 1960. Não podemos esquecer que todos eles eram de famílias privilegiadas e com acesso aos discos de sucesso da época, mas uma coisa é ter acesso, outra é saber o que fazer com essa influência. E eles souberam aliar seus talentos com isso, criando um disco inesquecível.



Ficha técnica

Tracklist:

Lado A

1 - "Dom Quixote" (3:55)
2 - "Não Vá Se Perder Por Aí" (Raphael Vilardi e Roberto Loyola) (3:16)
3 - "Dia 36" (Arnaldo Baptista, Johnny Dandurand, Rita Lee e Sérgio Dias (4:02)
4 - "2001" (Rita Lee e Tom Zé) (3:58)
5 - "Algo Mais" (2:39)
6 - "Fuga Nº II" (3:43)

Lado B

7 - "Banho de Lua (Tintarella di Luna)" (B. Filippi e F. Migiacci; versão: Fred Jorge) (3:41)
8 - "Rita Lee" (3:10)
9 - "Mágica" (4:38)
10 - "Qualquer Bobagem" (Arnaldo Baptista, Rita Lee, Sérgio Dias e Tom Zé) (4:37)
11 - "Caminhante Noturno" (5:10)

Todas as músicas foram compostas por Arnaldo Baptista, Sergio Dias e Rita Lee, exceto as marcadas.

Gravadora: Polydor
Produção: Manoel Barenbein
Duração: 42min43

Arnaldo Baptista: vocais, baixo e teclado
Rita Lee: vocais, percussão, teremim, auto-harpa e flauta doce
Sérgio Dias: guitarra, vocais e baixo; bateria em "Fuga Nº II"

Convidados:

Ronaldo Leme (creditado como "Sir Ronaldo I Du Rancharia"): bateria
Cláudio César Dias Baptista: efeitos
Liminha: viola
Rogério Duprat: arranjos



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