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sexta-feira, 17 de abril de 2020

Discos para história: O Amor, O Sorriso e A Flor, de João Gilberto (1960)


História do disco

Março de 1959 entrou para a história da música mundial com o lançamento do disco "Chega de Saudade", o clássico LP que levou João Gilberto, Tom Jobim e a turma da bossa nova ao estrelato pelo estilo vocal e composições -- prova disso foi "Amor de Gente Moça" (1959), de Sylvia Telles, cheio de composições de Jobim com alguns de seus parceiros históricos.

Naquela época, artistas e gravadoras tinham contrato por obras entregues. Dependendo do sucesso e das vendas, os contratos eram renovados ou não. João Gilberto e a Odeon tinham um acordo para três álbuns, sendo o primeiro entregue em 1959. Ainda no fim daquele ano, o intérprete e Jobim foram para um sítio na cidade de São Jose do Vale do Rio Preto, no interior do Rio de Janeiro, para trabalhar no segundo álbum.

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Em um lugar cheio de paz e tranquilidade, tal qual a vila do Chaves quando quase todos pegaram catapora, a dupla ficou ensaiando e discutindo os arranjos das composições que entrariam no segundo álbum ao longo de dez dias. Mais uma vez, quase todas as composições eram de Jobim com uma ou outra escolha pessoal de Gilberto no repertório. Aliás, essa é uma das características musicais mais famosas de João Gilberto: ser um garimpador de músicas em que ele pudesse retrabalhar ao ponto de ele tomar quase posse para si.

Outro ponto importante do repertório de Gilberto era como ele conseguiu simplificar as canções de um jeito único. A música brasileira naquela época era cheia de cordas e instrumentos de sopro, já que era inteiramente baseada na música francesa e nos grandes artistas dos anos 1940. O Brasil demorou uns 25 anos para sair dos anos 1940 em diversos aspectos da sociedade.

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Diferente do processo do primeiro álbum, em que foram necessário sete meses entre o início e o fim do trabalho, "O Amor, O Sorriso e A Flor" levou apenas cinco dias para ser gravado. Ficaria provado, pelo menos no início da bossa nova, como Jobim e Gilberto seriam ligados pelo resto da vida por conta desses LPs em que cada um dava ao outro sua expertise em troca de uma colaboração cheia de ideias, ritmo e com o objetivo de divulgar essa imensa novidade ao Brasil e ao resto do mundo.

Considerado um dos grandes clássicos da música brasileira, "O Amor, O Sorriso e A Flor" consolidou um estilo de musica puramente brasileiro. E consagrou João Gilberto, Tom Jobim e muitos músicos que viriam a fazer sucesso nos anos seguintes. E esse disco ganharia um lançamento nos Estados Unidos dois anos depois, os levando ao sucesso também naquele país -- algo impensável para quem tinha começado a carreira com um banquinho e um violão.


Resenha "O Amor, O Sorriso e A Flor"

O disco abre com a fabulosa "Samba de uma Nota Só", em que João Gilberto vai guiando o ouvinte através de uma explicação da composição musical do arranjo da faixa. Simples como boa parte das músicas em que interpretou a vida inteira, a canção consegue ser um bom resumo da carreira inteira do intérprete. Uma das muitas em que é quase o dono intelectual, "Doralice", de Dorival Caymmi e Antônio Almeida, ganhou uma versão animada nesse LP.

Primeira das três composições em que Tom Jobim assina sozinho a composição, "Só em Teus Braços" é uma das muitas letras que são poemas musicados pelo maestro. Aqui, Gilberto dá uma bela interpretação ao lamento, que ganha muito com um bonito arranjo de cordas. Também há espaço para uma marchinha ("Trevo de Quatro Folhas"), uma composição da então nova geração de empolgados pela bossa nova ("Se É Tarde, Me Perdoa") e a única composição do cantor entre as 12 canções do trabalho ("Um Abraço no Bonfá") -- também é a única instrumental.



O lado B apresenta uma das melhores composições de Jobim à época: "Meditação" contém alguns dos versos mais bonitos da música brasileira, apesar de não ser a mais conhecida do repertório dele. Composição de quando fazia parte do grupo Garotos da Lua nos anos 1940, "O Pato" foi um dos grandes sucessos do álbum por conseguir atrair crianças e adultos a cantar os curtos versos da primeira interpretação da canção em um LP -- como curiosidade, Gilberto foi expulso do grupo por sempre chegar atrasado aos ensaios.

Outra que arrebentou nos Estados Unidos saída da cabeça de Tom Jobim foi "Corcovado (O que é Felicidade)". Canção ganhou uma introdução em inglês poucos anos depois e chegou a ser tema de abertura da novela "Laços de Família" (2000-2001), da Globo. A parte final ainda tem espaço para o samba-canção "Discussão", o bonito arranjo de cordas é o destaque de "Amor Certinho" e o final reserva "Outra Vez" e seu verso melancólico (Vejo o sol quando ele sai, vejo a chuva quando cai/ Tudo agora é só tristeza, traz saudade de você/ Outra vez sem você, outra vez sem amor/ Outra vez vou falar mal do mundo, até você voltar).

O segundo álbum de João Gilberto era a reafirmação do trabalho do primeiro, agora ainda mais refinado e com uma linha de trabalho bem definida por ele e Tom Jobim. "O Amor, O Sorriso e A Flor" é o segundo de uma trilogia que definiu a história da bossa nova pelas décadas seguintes ao fazer história com um dos mais brilhantes intérpretes da música brasileira.



Ficha técnica

Tracklist:

Lado A

1 - "Samba de uma Nota Só" (Antônio Carlos Jobim e Newton Mendonça) (1:35)
2 - "Doralice" (Dorival Caymmi e Antônio Almeida) (1:25)
3 - "Só em Teus Braços" (Antônio Carlos Jobim) (1:46)
4 - "Trevo de Quatro Folhas" (H. Woods e M. Dixon) (1:21)
5 - "Se É Tarde, Me Perdoa" (Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli) (1:43)
6 - "Um Abraço no Bonfá" (João Gilberto) (1:35)

Lado B

1 - "Meditação" (Antônio Carlos Jobim e Newton Mendonça) (1:44)
2 - "O Pato" (Jayme Silva e Neuza Teixeira) (1:56)
3 - "Corcovado (O que é Felicidade)" (Antônio Carlos Jobim) (1:58)
4 - "Discussão" (Antônio Carlos Jobim e Newton Mendonça) (1:47)
5 - "Amor Certinho" (Roberto Guimarães) (1:50)
6 - "Outra Vez" (Antônio Carlos Jobim) (1:45)

Gravadora: Odeon
Produção: Aloysio de Oliveira
Duração: 20min42s

João Gilberto: vocal, violão
Antônio Carlos Jobim: direção musical e arranjos
Bebeto: baixo, flauta e saxofone
Carlos Monteiro De Souza: arranjos
Luíz Eça: piano
Durval Ferreira: violão
Severino Filho: arranjos
Carlos Lyra: violão e vocal de apoio
Edson Maciel: trombone
Sergio Mendes: piano
Astor Silva: trombone
Sivuca: acordeão e vocal



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