quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Discos para história: Amor de Gente Moça, de Sylvia Telles (1959)


Trabalho colocou a cantora entre as grandes de sua geração

História do disco

Algumas das grandes cantoras da bossa nova acabaram sendo esquecidas ao longo do tempo. Ou foram suplantadas por outras em sua época, ou simplesmente foram deixadas para trás por outros fatores. O caso de Sylvia Telles (1934-1966) acaba sendo um misto das duas coisas. Ao morrer muito jovem, ela não deixou um vasto material para ser analisado ao longo dos anos. E como outras cantoras do mesmo estilo surgiram logo depois, como Dolores Duran e Maysa, Telles acabou sendo esquecida.

Telles começou a carreira em 1955, quando cantou "Amendoim Torradinho", de Henrique Beltrão, para a revista musical chamada 'Gente de Bem e Champanhota'. Nesse mesmo ano, ela gravou o primeiro compacto e, de fato, iniciou uma carreira na música. Mas o começo não foi lá dos mais fáceis para ela. É sempre bom lembrar que, para uma considerada "moça de família", cantar era uma atividade para os boêmios e considerada vulgar pela alta sociedade.

Mais discos dos anos 1950:
Discos para história: Dance Mania, de Tito Puente (1958)
Discos para história: Luiz Gonzaga Canta Seus Sucessos com Zé Dantas, de Luiz Gonzaga (1959)
Discos para história: The "Chirping" Crickets, dos Crickets (1957)
Discos para história: Convite para Ouvir Maysa Nº2, de Maysa (1958)
Discos para história: Gunfighter Ballads and Trail Songs, de Marty Robbins (1959)
Discos para história: Brilliant Corners, de Thelonious Monk (1957)

Ainda no final da adolescência, Telles mostrava talento em casa -- assim como Maysa fazia. Em uma dessas reuniões, ela começou um namorico com João Gilberto, considerado o pai da bossa nova, pessoa que o pai, Paulo Telles, não gostava nenhum pouco. Escondida, apresentou-se no programa Calouros em Desfile, de Ary Barroso, na Rádio Tupi, no Rio de Janeiro. De maneira muito sagaz, na tentativa de convencer o pai, Mário Telles, irmão da cantora e futuro compositor de sucesso, colocou no programa enquanto estava no carro com o pai. Seu Paulo elogiou muito uma moça que estava cantando. Era Sylvia. Quando Mário contou que era a irmã, não teve jeito. Ele viu que a filha era talentosa demais para ficar trancada em casa.

O primeiro grande momento da carreira da cantora foi no ano seguinte, quando interpretou "Foi a Noite", de Antônio Carlos Jobim e Newton Mendonça, na TV. A canção fez parte do 78 rotações lançada por ela no mesmo ano. A faixa tinha Candinho, ex-marido e pai de Cláudia Telles, no violão. A canção está presente em "Carícia", primeiro disco cheio da discografia de Telles.


À época, e até hoje, ela é conhecida como a grande intérprete das canções do então jovem Tom Jobim. Tanto é que, em 1959, ela gravou dois LPs em apenas quatro meses. Das 24 canções gravadas, 18 eram de Jobim. Aliás, Telles não apenas ajudou Jobim, como também colaborou com o início de carreira de Caetano Veloso, Chico Buarque, Elza Soares e Maria Bethânia, além de ser a primeira pessoa da bossa nova a gravar uma música composta pelo então mirrado capixaba Roberto Carlos.

Um desses discos gravados em 1959 foi "Amor de Gente Moça", o último disco cheio para Odeon. São 12 canções compostas por Tom Jobim e algum parceiro -- Aloysio de Oliveira, Newton Mendonça e Vinicius de Moraes -- ou assinadas apenas pelo músico. Até por isso, sua história musical está entrelaçada com a da bossa nova para sempre. No livro "Chega de Saudade", o autor Ruy Castro aponta que ela manteve os grupos unidos e foi uma importante influência musical para João Gilberto ao apontar sua mudança vocal entre o início da carreira e o consagrado disco "Chega de Saudade".

Veja também:
Discos para história: Out of Time, do R.E.M. (1991)
Discos para história: Hot Fuss, do Killers (2004)
Discos para história: Raising Hell, do Run-D.M.C. (1986)
Discos para história: Yellow Submarine, dos Beatles (1969)
Discos para história: Presence, do Led Zeppelin (1976)
Discos para história: The Atomic Mr. Basie, de Count Basie (1958)

Poucos meses depois do lançamento do disco, Lúcio Alves, Sérgio Ricardo, ela e outros grandes nomes foram demitidos da gravadora. Isso gerou a fúria e saída de Aloysio de Oliveira em protesto. Ele acabou assinando com a Phillips e levou Sylvia Telles junto. A cantora ainda conseguiu ter uma boa carreira internacional pela fluência em inglês e francês, mas não chegou a atingir o sucesso de Astrud Gilberto, por exemplo. Foram quatro discos lançados fora do país, todos produzidos por Aloysio.

Quando a bossa nova estava no auge, Sylvia Telles sofreu um acidente de carro quando ia para Maricá, no Rio de Janeiro, com o namorado Horacinho de Carvalho, e morreu aos 32 anos.


Resenha de "Amor de Gente Moça"

É um disco recheado de clássicos e, logo nos primeiros acordes de "Dindi", é possível perceber a beleza da escolha dos arranjos e toda competência da Orquestra da Odeon. Por ser um clássico, a faixa já foi regravada várias vezes por interpretes diferentes. A versão de Sylvia Telles está entre as mais bonitas, pois ela consegue colocar toda potência musical para fora ao mesmo tempo em que é possível acreditar em cada palavra dita por ela.

"De Você Eu Gosto" apresenta um tom muito melancólico para o que deveria ser uma declaração de amor, mas, quando a música avança, é possível perceber que trata-se de uma trágica despedida e "Discussão" tem um arranjo típico do samba-canção da época -- é o tipo de canção animada que tocava nas rádios ao longo do dia para animar o povo. A primeira parceria de Tom Jobim e Vinicius de Moraes no disco é a melancólica "Sem Você". A letra soa uma poesia musicada, algo não incomum na parceria mais conhecida da música brasileira.



E a primeira das três composições "solitárias" de Jobim é "Fotografia", essa tem um toque de jazz americano bem perceptível aos ouvidos mais sensíveis, e "Janelas Abertas" e "Demais" têm tons parecidos, mas a segunda ficou famosa na voz de Maysa anos depois -- também por soar autobiográfica, ainda que sem querer.

Se "O Que Tinha de Ser" consegue compensar a curta duração com uma profundidade muito grande, "A Felicidade" é sobre o carnaval e como povo anseia por esse período do ano (o verso Tristeza não tem fim/ Felicidade sim está nessa faixa). A parte final apresenta a melancólica "Canta, Canta Mais", a saudosa e animada "Só em Teus Braços" e "Esquecendo Você" encerra o trabalho.

Esse disco mostra toda força da cantora em conseguir tirar o melhor de cada música. Tendo a vida interrompida de maneira trágica, não teve chance de mostrar ao mundo todo seu talento. Já passou a hora de Sylvia Telles ser redescoberta pela nova geração.




Tracklist:

1 - "Dindi" (Tom Jobim/Aloysio de Oliveira)
2 - "De Você Eu Gosto" (Tom Jobim/Aloysio de Oliveira)
3 - "Discussão" (Tom Jobim/Newton Mendonça)
4 - "Sem Você" (Tom Jobim/Vinicius de Moraes)
5 - "Fotografia" (Tom Jobim)
6 - "Janelas Abertas" (Tom Jobim/Vinicius de Moraes)
7 - "Demais" (Tom Jobim/Aloysio de Oliveira)
8 - "O Que Tinha de Ser" (Tom Jobim/Vinicius de Moraes)
9 - "A Felicidade" (Tom Jobim/Vinicius de Moraes)
10 - "Canta, Canta Mais" (Tom Jobim/Vinicius de Moraes)
11 - "Só em Teus Braços" (Tom Jobim)
12 - "Esquecendo Você" (Tom Jobim)

Gravadora: Odeon
Produção: Aloysio de Oliveira
Duração: 31 minutos

Sylvia Telles: vocal
Arranjos: Lindolfo Gaya
Regência: Oswaldo Borba
Orquestra da Odeon: instrumentos diversos



Siga o blog no Twitter e no Facebook e assine o canal no YouTube. Compre livros na Amazon e fortaleça o trabalho do blog!

Saiba como ajudar o blog a continuar existindo

Gostou do post? Compartilhe nas redes sociais e indique o blog aos amigos!

Continue no blog: