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sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Discos para história: Martinho da Vila, de Martinho da Vila (1969)


História do disco

Martinho da Vila virou um dos maiores sambistas da história do cancioneiro brasileiro com seu aclamado álbum de estreia. O primeiro LP da carreira o colocaria como um dos grandes astros do samba moderno ao conseguir unir várias vertentes do gênero em composições memoráveis até os dias de hoje, clássicos inestimáveis de um gênero tão brasileiro quanto o samba.

Nascido Martinho José Ferreira em 1938, passou o início da infância em uma fazenda até mudar-se com os pais para a Cidade do Rio de Janeiro aos quatro anos. Morador do subúrbio, teve contato com o samba desde cedo e começou a escrever algumas letras aos 15 anos, quando escreveu o samba "Piquenique" para a escola de samba Aprendizes da Boca do Mato. Até os 19, escreveria mais 12 para a escola, mostrando um ritmo impressionante para alguém tão como e sem a experiência dos nomes consagrados da época.

Mais discos dos anos 1960:
Discos para história: Bayou Country, do Credence Clearwater Revival (1969)
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Como era impossível viver só de música, acabou tendo um emprego paralelo de escrivão e contador no Exército entre 1956 e 1969. Mas tudo isso sem deixar o samba, mantendo o ritmo de composições sempre regular e de nível muito alto. O próprio admitiu, no aniversário de 45 anos do lançamento do primeiro álbum, que não se considerava cantor.

"Comecei cantando minhas músicas, mas não gostava que falassem que eu era cantor. Era um compositor que sonhava ser gravado. Com o tempo, aprendi a usar a voz. Nos shows, percebi que gostam quando eu canto com banda pequena, que dá para me ouvir melhor. Agora, gosto de cantar a capela. É muito bom, mas é difícil", contou ele em um especial para o jornal 'Extra' (clique aqui e veja na íntegra).

Chamado para reforçar a então novata escola de samba Vila Isabel, vira o principal compositor da agremiação em meados dos anos 1960. Acabou por virar um nome muito conhecido no meio -- um samba composto por ele ganharia o título do Grupo Especial em 1988. Ele se inscreve para participar dos festivais na TV Record em 1967 e 1968 com com os sambas "Menina Moça", uma das músicas finalistas, e "Casa de Bamba", respectivamente, tornando-se um nome conhecido nacionalmente a partir de então.

Veja também:
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Discos para história: Carinhoso, de Orlando Silva (1959)
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Discos para história: Merriweather Post Pavilion, do Animal Collective (2009)
Discos para história: Pump, do Aerosmith (1989)
Discos para história: Abbey Road, dos Beatles (1969)


A fama de Martinho da Vila levou a gravadora RCA a ir atrás dele para gravar um LP. E nem poderia vir em melhor hora para ambos. Então aos 31 anos, o compositor já era um veterano de quase duas décadas no samba e começava o auge que geraria algumas de suas melhores composições de toda carreira. E a gravadora teria em seu elenco um dos sambistas mais famosos do Brasil.

Lançado em 1969, o disco de estreia de Martinho da Vila bateu recordes de vendas e foi o primeiro do gênero a conseguir esse feito. Assim o compositor virou o então novo fenômeno da música brasileira e ajudou a consolidar uma nova fase do samba, agora mais popular do que nunca em todo Brasil.


Resenha de "Martinho da Vila"

O pot-pourri de abertura do LP mostra todo talento de Martinho da Vila em conseguir unir três importantes sambas da própria carreira logo de cara. É uma faixa de abertura pronta para colocar o pessoal para sambar sem o menor constrangimento, uma ótima notícia. Uma das faixas que virou referência de uma nova maneira de fazer samba foi "Quatro Séculos de Modas e Costumes", em que dá para destacar o vocal de apoio feminino bem forte e ajudando no desenvolvimento da letra.

Um reflexo do Brasil até hoje é "O Pequeno Burguês", canção que fala sobre a dificuldade de um pobre em fazer uma faculdade e se formar. É muito triste que uma música, lançada há 50 anos, ainda siga tão atual. Não mudar nada em tanto tempo é muito triste para um país. Se "Iaiá do Cais Dourado" fala uma história típica daquela época, "Casa De Bamba" é um clássico incontestável desse álbum por ter virado uma espécie de hino do samba no Brasil. Só Martinho da Vila seria capaz de fazer algo do tipo. O lado A do álbum encerra com a balada romântica e melancólica "Amor, Pra Que Nasceu?".


O lado B abre com "Quem É do Mar Não Enjoa", um tipo de canção muito comum no samba: afogar as mágoas da perda da mulher amada em uma roda de samba até o amanhecer. "Brasil Mulato" e "Tom Maior" vêm na sequência e soa como um pedido de integração entre todos os brasileiros, enquanto "Pra Que Dinheiro" é outra que também acabou virando um dos sambas mais conhecidos da história da música brasileira. Gravada e regravada diversas vezes por vários músicos ao longo dos anos, a canção ganhou um status enorme no gênero. Certamente, é um dos melhores sambas de todos os tempos.



Mais um pot-pourri, "Parei Na Sua / Nhêm Nhêm Nhêm" encaminha o ouvinte para a parte final de maneira bem animada, mas "Grande Amor" encerra o álbum de maneira bem melancólica (Se o amor se esvai/ Saudade vem/ Um novo amor/ Virá também).

Um álbum com tantos sucessos só poderia dar a Martinho da Vila um status incrível na música brasileira. E foi o que aconteceu. Estrear com um bom disco é bem difícil, mas é ainda mais com algo tão espetacular como ele fez com pouco mais de 30 anos. Essa estreia, certamente, está entre as melhores no Brasil.



Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Boa Noite / Carnaval De Ilusões (Bebete Gemeu/Martinho da Vila) / Caramba" (6:10)
2 - "Quatro Séculos De Modas E Costumes" (3:43)
3 - "O Pequeno Burguês" (2:57)
4 - "Iaiá Do Cais Dourado" (Martinho da Vila/Rodolpho de Souza) (2:20)
5 - "Casa De Bamba" (2:28)
6 - "Amor, Pra Que Nasceu?" (2:21)

1 - "Quem É do Mar Não Enjoa" (3:48)
2 - "Brasil Mulato" (2:10)
3 - "Tom Maior" (3:00)
4 - "Pra Que Dinheiro" (3:11)
5 - "Parei Na Sua / Nhêm Nhêm Nhêm" (Cabana/Martinho da Vila) (3:30)
6 - "Grande Amor" (4:03)

Gravadora: RCA Victor
Produção: Romeu Nunes
Duração: 39 minutos

Martinho da Vila: vocal e cavaquinho



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