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sexta-feira, 13 de março de 2020

Discos para história: All That You Can't Leave Behind, do U2 (2000)


História do disco

"Eu acho que naquele momento fazia sentido, geograficamente e de outras formas [voltar às origens musicais]. Nesse ponto, o U2 já havia feito o 'Achtung Baby' (1991). Isso foi sobre como fazer um disco de rock 'n' roll um pouco mais europeu em Berlim. Então, depois de flertar com a música americana ['Zooropa' e 'Pop'], eles ficaram felizes o suficiente para voltar para casa. Não estávamos procurando inspiração externa, só de quem estava lá", contou o produtor Daniel Lanois, em entrevista ao site 'Consequence of Sound', em entrevista para celebrar os 15 anos de "All That You Can't Leave Behind".

A década de 1980 foi mágica para os irlandeses do U2. Conseguindo falar de temas muito próprio de onde moravam com letras universais, a banda formada por Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. lançou alguns dos discos clássicos do período -- "The Joshua Tree" (1987) é um desses exemplos. Mas os anos seguintes foram, no mínimo, controversos na discografia da banda.

"Achtung Baby" (1991), "Zooropa" (1993) e "Pop" (1997) foram recebidos de maneira mista entre os fãs, gerando discussões bem acaloradas sobre o futuro do U2. Por um lado, principalmente "Achtung Baby", muitos achavam que a modernização necessária para seguir em frente e ganhar novos fãs; outros, principalmente em "Pop", achavam que o avanço havia sido muito extremo e, além de não conseguir nada novo, iam perder os fãs mais antigos. Todos esses trabalhos chegaram ao número 1 das paradas, mas nenhum durou tanto em lembrança quanto os anteriores.

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A banda até que ficou satisfeita com os resultados, mas, depois de uma década experimentando gêneros e partindo para novas aventuras, era hora de voltar para casa. Para isso, eles recrutaram dois velhos parceiros: os produtores Daniel Lanois e Brian Eno. Lanois relembra de como foi gravar o álbum e exalta o fato de ele fazer parte de um bom time quando se junta com o U2 em estúdio, apesar de toda pressão que envolve todo lançamento da banda ("estamos nos candidatando ao trabalho de melhor banda do mundo" é uma das frases mais famosas de Bono, dita na época da gravação do trabalho).

"Não me lembro de haver muito trabalho fora do estúdio. Eles estavam dispostos a trabalhar. E a história mostrou que quando estamos juntos, fazemos um bom trabalho. Queríamos esse sentimento novamente. Não queríamos fazer pirotecnia. Ficamos felizes por estar em Dublin [no estúdio da banda]. A equipe vencedora voltou a se reunir, então havia uma sensação de 'vamos tirar o máximo proveito disso'. Eles não queriam viajar tanto naquele momento. Como uma banda de longas turnês, eles estavam felizes por estar em casa. Fiquei feliz em deixar minha casa no Canadá para estar com meus companheiros irlandeses", contou.

Claro que o trabalho (quase) messiânico de Bono atrapalhou um pouco as coisas, principalmente quando ele se envolveu na campanha "Jubileu 2000" -- quando artistas e entidades fizeram uma campanha pelo perdão da dívida externa dos chamados países de terceiro mundo. Claro, Eno considerou tudo isso uma distração do trabalho, pausado por dois meses para o vocalista e Lanois trabalharem na trilha sonora de "O Hotel de Um Milhão de Dólares" (2000).

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Quando o planejamento foi colocado no papel, banda, produtores e gravadora achavam que teriam um álbum pronto ainda em 1999. Mas com tantos compromissos dos envolvidos mais o trabalho no estúdio mais longo do que o esperado, ficou claro que o prazo não seria cumprido e por muito tempo. O U2 teve uma experiência ruim com isso quando acelerou a finalização de "Pop" para não atrasar a turnê previamente agendada e muitos consideram o resultado final do disco muito aquém do esperado. A gravação do futuro novo álbum só terminou no segundo semestre de 2000.

Lançado em 30 de outubro de 2000, "All That You Can't Leave Behind" foi o primeiro álbum do U2 desde os anos 1980 a não liderar a parada americana ao estrear na terceira colocação. Já no Reino Unido o trabalho conseguiu ficar no principal posto logo na estreia. Ao conseguir equilibrar passado, presente e futuro, o U2 mostrava que ainda tinha fôlego para ser a maior banda do mundo.

Clique aqui e leia o Discos para história de "War".


Resenha de "All That You Can't Leave Behind"

Um disco que começa com "Beautiful Day" não tem como ser um disco ruim, certo? Um dos muitos sucessos do U2 nas apresentações, a faixa tem aquele tom épico pelo qual a banda ficaria conhecida com o passar dos anos e a letra mostra que nem tudo é escuro o tempo inteiro no mundo -- existem tons de otimismo, às vezes, em passear no parque em um fim de tarde bonito. E ainda apresenta uma mescla do passado, principalmente na guitarra de The Edge, com o trabalho feito nos discos anteriores.

A triste balada "Stuck in a Moment You Can't Get Out Of" simula uma conversa entre dois amigos sobre suicídio e é inspirada em um evento real: a morte de Michael Hutchence, vocalista do INXS, que cometer suicídio em 22 de novembro de 1997. É uma das canções mais tristes da história do U2, algo que é difícil de colocar para fora, mas Bono faz um trabalho vocal dos melhores e soa visivelmente emocionado nos momentos finais da gravação.

Outro sucesso do álbum foi "Elevation", essa faixa reflete ainda mais a fase mais experimental do grupo antes da gravação desse álbum. Cheia de efeitos de sintetizadores, ela mostra que o grupo ainda estava querendo fazer mais trabalhos do tipo, só que bons -- como é o caso aqui, é uma ótima faixa. Talvez um dos segredos desse álbum foi a composição de canções mais acessíveis para o grande público, letras de tons identificáveis e prontas para romper as barreiras e fazer sucesso mundial. É o caso da balada "Walk On", dedicada à ativista da birmanesa Aung San Suu Kyi e trata da sua luta por uma Birmânia democrática. É dessas músicas que só o U2 consegue fazer por soar muito... U2.



A emocionante "Kite" surge na sequência e é inspirada em um passeio de Bono com as filhas. Eles tentaram empinar uma pipa, mas tudo deu tão errado que uma delas simplesmente quis ir para casa jogar videogame. Isso fez o vocalista lembrar de um passeio de mesmo resultado com o pai que, durante a composição da música, estava com câncer terminal -- ele morreria durante a então nova turnê da banda. A letra acaba sendo uma reflexão sobre o momento em que o filho sente que não precisa mais do pai.

Bono cantou a letra de "In a Little While" depois de passar a noite em uma festa e ir trabalhar virado, então a voz falha em determinados momentos não é problema de gravação. A bonita canção é em homenagem a mulher de Bono, Ali Hewson, que ele começou a namorá-la muito cedo e o chamavam de papa-anjo -- a diferença entre eles é de dois anos, uma eternidade quando se está no colégio. Foi a última canção que Joey Ramone ouviu antes de morrer.

Houve muito debate para saber se "Wild Honey" entraria em "All That You Can't Leave Behind". O baterista Larry Mullen Jr. a detestou desde o início e não queria, mas Bono e Brian Eno venceram a queda de braço e ela foi incluída como uma espécie de interlúdio entre duas partes do álbum. Porque depois a coisa muda completamente de figura em "Peace on Earth", uma das canções mais irritadas e amargas da história do grupo ao abordar um atentado que matou 29 pessoas e feriu 220 na Irlanda, em 15 de agosto de 1998, e tudo isso em meio às negociações de um processo de paz. Esse lamento amargo mostra porque a banda acabou virando uma espécie de porta-voz desse tipo de evento -- a Irlanda era um barril de pólvora até pouco tempo atrás.



Então quando surge "When I Look at the World", uma crise fé em meio às tragédias do cotidiano, impossível não pensar nisso nos dias atuais e até se questionar se continuar mantendo algum tipo de fé em qualquer coisa ainda vale a pena. Canção do álbum que ganhou uma sobrevida por conta dos atentados de 11 de setembro, "New York" nasceu para homenagear Lou Reed e Frank Sinatra, dois dos grandes símbolos musicais da cidade, mas acabou ganhando uma conotação mais global ao servir para dar força aos locais após a tragédia. O disco finaliza com "Grace" ao falar sobre como a chegada de alguém pode mudar nossas vidas -- para o bem e para o mal.

"Peace on Earth", "New York", "Grace", "Beautiful Day", "Stuck in a Moment You Can't Get Out Of" e "Walk On" ganharam um novo significado após os atentados, o que ajudou muito na popularização do álbum quase um ano depois do lançamento. Não dá para dizer que o U2 retomou o caminho de antes porque não é verdade, mas também não dá para dizer que eles fizeram um álbum experimental. Talvez se alguém procurar a palavra equilíbrio no dicionário, vai encontrar a foto da capa do álbum. "All That You Can't Leave Behind" tem tudo que moldou o U2 musicalmente entre os anos 1980 e 1990, preparando a banda para o estrelato no início do século 21.



Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Beautiful Day" (4:06)
2 - "Stuck in a Moment You Can't Get Out Of" (Bono, The Edge) (4:32)
3 - "Elevation" (3:45)
4 - "Walk On" (4:55)
5 - "Kite" (Bono, The Edge) (4:23)
6 - "In a Little While" (3:39)
7 - "Wild Honey" (3:47)
8 - "Peace on Earth" (4:46)
9 - "When I Look at the World" (Bono, The Edge) (4:15)
10 - "New York" (5:28)
11 - "Grace" (5:31)

Todas as faixas foram escritas por Bono, exceto as marcadas.

Gravadora: Island/Interscope
Produção: Daniel Lanois e Brian Eno
Duração: 49:25

Bono: vocal, guitarra e sintetizadores
The Edge: guitarra, piano, vocal de apoio, sintetizadores e violão
Adam Clayton: baixo
Larry Mullen Jr.: bateria e percussão

Convidados:

Brian Eno: sintetizadores, efeitos, vocal de apoio e arranjo de cordas
Daniel Lanois: vocal de apoio e guitarra
Paul Barrett: naipe de metais



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