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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Discos para história: Blue Train, de John Coltrane (1957)


Edição 158 da seção traz o segundo disco do saxofonista como líder de banda

História do disco

O saxofonista John Coltrane (1926-1967) teve uma carreira muito curta como músico, mas foi fundamental nas mudanças que levaram o jazz a outro patamar. Pertencendo a uma geração fantástica de músicos, ele entrou na história do gênero como reconhecidamente um dos gênios de sua época. Ele perdeu o pai muito cedo e a mãe teve que começar a trabalhar, mas a música sempre esteve presente. Coltrane começou a carreira tocando clarinete em uma banda da comunidade em que morava.

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Ao conseguir mostrar todo seu talento no saxofone, ele conseguiu trabalho com Miles Davis (1926-1991), Dizzy Gillespie (1917-1993), Earl Bostic (1912-1965) e Johnny Hodges (1906-1970). Todos eram grandes nomes do jazz dos anos 1940 e 1950, e isso rendia um troco para quem queria sobreviver tocando em bares fedorentos. Mas, em algum momento nesse período, a carreira de Coltrane deu uma estagnada por conta do vício em heroína. Ninguém queria trabalhar com ele, porque ter alguém viciado na banda era sempre um problema para o líder – que precisava administrá-lo – e para os outros – sujeitos a irem pelo mesmo caminho.

Demitido duas vezes por Davis e entrando e saindo de grupos, Coltrane estava na fase de parar e voltar para heroína com a mesma rapidez. Em abril de 1957, quando foi despedido mais uma vez, simplesmente decidiu largar a droga e focar no trabalho. Ele já era um músico requisitado, porque, apesar dos problemas, havia muito talento ali. Sem contrato com ninguém, começou a gravar mais vezes sozinho ou com alguns amigos. Ao lado do trompetista Johnny Splawn, do saxofonista barítono Sahib Shihab, dos pianistas Mal Waldron e Red Garland – em faixas diferentes –, do baixista Paul Chambers do e baterista Al "Tootie" Heath, ele lançou o primeiro disco solo: Coltrane (1957). Era setembro de 1957.

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Aliás, esse mês foi bem cheio, porque ele começou a gravar o que seria o segundo trabalho solo de estúdio, Blue Train, já na prestigiada gravadora Blue Note – o anterior saiu pelo selo alternativo, o Prestige. O trabalho foi gravado enquanto Coltrane fazia residência no Five Spot quando estava no Thelonious Monk quartet. O trompetista Lee Morgan, o trombonista Curtis Fuller, o pianista Kenny Drew, o baixista Paul Chambers e o baterista Philly Joe Jones foram os escolhidos para participarem das gravações. Também neste mês ele voltou no que ficou conhecido como Miles Davis Sextet.

Ele ainda lançaria mais dois discos antes de assinar com a Atlantic. Na prestigiada gravadora, logo no primeiro álbum, ele colocaria no mercado uma de suas obras-primas: Giant Steps (1960).



Resenha de Blue Train

A faixa título abre o álbum de maneira esplendorosa, pois John Coltrane estava em ótima fase. A banda, unida apenas para fazer esse álbum, mostra um entrosamento de anos de experiência. Fora que é um começo muito acima da média, já que temos a chance de ouvir um Coltrane pronto para dar um passo à frente na carreira e mudar o jazz com sua habilidade em mudar rapidamente de uma nota para outra pouco mais de dez minutos de duração.

O lado A encerra com a ótima "Moment's Notice", um twist bem agitado e harmonicamente muito bem executado – o solo de Curtis Fuller no trombone é maravilhoso. E em "Locomotion", primeira do lado A, o saxofonista já demonstra estar dentro do hard bop – um estilo de jazz nascido no fim dos anos 1950 e que mudou os rumos do gênero. E aqui estava toda genialidade dele ao mostrar capacidade de fazer algo novo e impressionar no momento de improviso.



Único cover do trabalho, "I'm Old Fashioned" foi lançada pela primeira vez em 1942 no filme Bonita Como Nunca (1942). Aqui, ela é um hard bop melancólico e bem lento, também mostrando a capacidade dos músicos em tocar baladas em alto nível. Pare fechar o LP, aparece "Lazy Bird" e sua progressão espetacular de acordes. Aqui, podemos perceber como Coltrane era mestre em acelerar e diminuir o ritmo quando quisesse, e isso, nesse caso, é o que coloca a faixa em outro patamar.

Blue Train mostra um Coltrane e banda inspirados para fazer bem seu trabalho. É um ótimo disco, no fim das contas, apesar de não ser o melhor daquele ano – nem o seu melhor. Fica a impressão de ele ainda buscar o amadurecimento como artista solo – lembrando: era apenas o segundo disco como líder de uma banda. Mas, graças a esse álbum, o futuro dele seria brilhante. E o início dos anos 1960 provaria isso, quando lançou seus três melhores álbuns.



Ficha técnica

Tracklist:

Lado A

1 - "Blue Train" (John Coltrane) (10:43)
2 - "Moment's Notice" (John Coltrane) (9:10)

Lado B

1 - "Locomotion" (John Coltrane) (7:14)
2 - "I'm Old Fashioned" (Johnny Mercer, Jerome Kern) (7:58)
3 - "Lazy Bird" (John Coltrane) (7:00)

Gravadora: Blue Note
Produção: Alfred Lion
Duração: 42min50s

John Coltrane: saxofone tenor
Lee Morgan: trompete
Curtis Fuller: trombone
Kenny Drew: piano
Paul Chambers: baixo
Philly Joe Jones: bateria



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