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sexta-feira, 11 de março de 2016

Discos para história: Maysa, de Maysa (1966)


A 119ª edição da seção fala sobre o retorno da cantora Maysa às gravações depois de quase dois anos sem disco no mercado

História do disco

Maysa Monjardim (1936 – 1977) viva entre Brasil e Espanha no início dos anos 1960. Casada com espanhol Miguel Azanza, fazia algumas curtas temporadas de shows em pequenas casas em São Paulo e no Rio de Janeiro, mas voltava à Europa. Vivendo sérios problemas com álcool, arrumava confusão e brigava muito com qualquer um – marido, promotores, plateia ou qualquer um que atravessasse seu caminho.

Por um ano e meio, o nome da cantora sumiu do noticiário e poucas pessoas se perguntaram – ou se importaram – com o assunto. Mas quando ela reapareceu, foi para sumir de novo. O final de 1965 reservou um anúncio bombástico: ela estava se aposentando da música em definitivo para tomar conta da família e do marido na Espanha. Como tudo em sua vida era fogo de palha, como dizem os antigos, ela mudou de ideia rapidamente. Sete meses depois do anúncio, com direito a matérias em revistas e jornais, ela anunciava uma apresentação em São Paulo, no glamuroso Urso Branco, para quase duas mil pessoas, seu maior público até em então.

Um dos responsáveis pelo retorno da cantora aos palcos foi Abelardo Figueiredo, empresário e diretor musical de grande nome à época, que a incentivou a fazer reabilitação para parar de beber, algo que vinha atrapalhando sua carreira e a vida pessoal. Empolgada, entrou de cabeça no mundo do showbiz novamente ao fundar a Guelmay, produtora que faria os discos, programas para TV e administraria a carreira dela. Uma ótima jogada para escapar das gravadoras e dos empresários, e ainda tirar um dinheiro para seguir fazendo outras coisas.

Figueiredo foi convidado a dirigir o primeiro empreendimento da Guelmay: uma série de vídeos para TV que serviriam como base para o futuro disco de Maysa. De custo altíssimo porque a cantora queria o melhor, ninguém se interessou para patrociná-lo. Ela, então, usou todas as economias para dar vida ao ambicioso projeto. Além dos programas, um disco seria lançado em sociedade com a RCA Victor, gravadora que estava de olho em Maysa havia muitos anos. Como no primeiro álbum da cantora - ainda Maysa Matarazzo - Convite para Ouvir Maysa (1956), o texto da contracapa foi assinado por Roberto Corte Real, descobridor do talento da jovem cantora em uma das muitas reuniões na casa dos pais dela.

Sem nome ou sobrenome – acabou sendo lançado como Maysa –, o projeto musical era a comemoração de dez anos de carreira da interprete com releituras de canções marcantes e regravações de sucessos recentes. Com previsão para o primeiro semestre de 1966, foi adiado algumas vezes até ser finalizado e lançado em junho. O disco foi para as lojas, o programa não. Estourando muito o teto orçamentário, nenhuma emissora quis comprá-lo e acabou nunca indo ao ar, deixando as finanças da empresa em ruínas antes mesmo do início.

Em única apresentação, o show no Urso Branco foi uma daquelas noites em que Maysa estava mais inspirada e melhor do que nunca, segundo relatos da época – ela estava completamente limpa, magra e feliz. Mais uma vez, ela provava ser uma das grandes cantoras de seu tempo. Mais uma vez, quebrava a cara por dar um passo maior do que a perna por colocar muita paixão. Assim era Maysa.


Resenha de Maysa

O pot-pourri inicial de “Fantasia de Trombones” já mostrava algo que não acontecia há muito tempo: a voz de Maysa estava impecável, melhor do que esteve em boa parte de sua carreira – repetindo os melhores momentos de Voltei (1960). Os primeiros versos de "Demais", de 1964, quase uma biografia da cantora, ganhou um toque de jazz ótimo. Ela emenda com um trecho da letra de "Meu Mundo Caiu", sucesso de Convite para Ouvir Maysa nº 2 (1958). Por fim, "Preciso Aprender a Ser Só" amarra o início grandioso.

Composta pelo casal Bené Nunes e Dulce Nunes, "Canto Livre" ganhou uma interpretação profunda, característica do vocal de Maysa, e um belo arranjo da Sinfônica e Filarmônica de São Paulo. A cantora conseguiu dar seu toque particular sem tirar a beleza de "Just In Time", um jazz composto em 1956 interpretado por Tony Bennett e Frank Sinatra nos anos 1950 e 1960, ao respeitá-la do início ao fim.



A mistura do ritmo de Baden Powell com as letras de Vinicius de Moraes gerou "Canto de Ossanha", abertura de Os Afro-Sambas, terceiro disco da parceria. Foi assim que a influência da África conseguiu entrar na MPB sem problemas, um afro-samba de alto nível. E foi essa música que a cantora escolheu para uma bonita releitura – atente ao refrão, ela dá seu melhor ali. Outra linda interpretação é a de "As Mesmas Histórias". A melodia tem um quê de jazz absurdo, uma combinação campeã para encher os olhos de lágrimas.

Entre o fim dos anos 1950 e início dos anos 1960, Maysa fez algumas apresentações na França e decidiu impressionar o público ao cantar "Ne Me Quitte Pas", composta por Jacques Brel. Gravada pela primeira vez em Maysa Sings Songs Before Dawn (1961), a regravação mostrava uma cantora ainda mais empenhada em colocar tudo de si para cantar em francês. Uma das músicas mais bonitas que ela gravou, certamente. O samba "Tristeza", último trabalho de Haroldo Lobo (1910 – 1965) gravado em vida, ganhou essa versão com um coral e parte da bateria da Escola de Samba do Salgueiro a ajudando – é interessante vê-la cantando um samba depois de tantos anos.



O arranjo do início de "Fantasia de Cellos", um pot-pourri que começa com "Primavera", é emocionante e profundo. E parece que a faixa começa de novo quando entra "Valsa de Eurídice", momento em que a melodia acompanha o vocal e fica ainda mais densa e profunda. Por fim, o bolero "Canção do Amanhecer" encerra de maneira brilhante ao amarrar tudo como se fosse uma única letra. A seguinte, "Canção sem Título" foi a primeira gravação de uma composição inédita de Maysa em cinco anos. O piano dá o suporte, enquanto a cantora destila o melhor tipo de letra que sabia fazer: as de fossa, aquelas para fazer qualquer um chorar pela identificação fácil com situações românticas que deram errado, mas ainda segue na busca pelo amor sincero.

O clima segue com a interpretação de "Morrer de Amor", de Luvercy Fiorini e Oscar Castro Neves. Mais uma vez, arranjos e vocais estão em harmonia e conseguem encerrar o LP de maneira emocionante em outra letra biográfica. A canção sucesso nas rádios, um retorno depois de quatro anos sem um trabalho de inéditas. Mesmo sendo um disco com apenas uma inédita, Maysa acaba sendo importante na música brasileira pelas canções – tem de tudo um pouco de diversos autores – e marca o retorno dela ao mostrar como sua voz era belíssima e conseguia cantar qualquer coisa boa. Um álbum fundamental para entender um pouco quem era Maysa há 50 anos.



Ficha técnica:

Tracklist:

1 - "Fantasia de Trombones" (5:53)
"Demais" (Tom Jobim/Aloysio de Oliveira)
"Meu Mundo Caiu" (Maysa)
"Preciso Aprender a Ser Só" (Marcos Valle/Paulo Sérgio Valle)
2 - "Canto Livre" (Bené Nunes/Dulce Nunes) (3:26)
3 - "Just In Time" (Jule Styne/Creem/Comden) (3:50)
4 - "Canto de Ossanha" (Baden Powell/Vinícius de Moraes) (3:00)
5 - "As Mesmas Histórias" (Edu Lobo/Vinícius de Moraes) (5:47)
6 - "Ne Me Quitte Pas" (Jacques Brel) (3:53)
7 - "Tristeza" (Haroldo Lobo/Miltinho) (3:15)
8 - "Fantasia de Cellos" (7:28)
"Primavera" (Carlos Lyra/Vinicius de Moraes)
"Valsa de Eurídice" (Vinicius de Moraes)
"Canção do Amanhecer" (Edu Lobo/Vinicius de Moraes)
9 - "Canção sem Título" (Maysa) (2:17)
10 - "Morrer de Amor" (Luvercy Fiorini/Oscar Castro Neves) (4:50)

Gravadora: RCA Victor
Produção: Guelmay
Duração: 49min50

Maysa: voz

Convidados:

Sinfônica e Filarmônica de São Paulo: instrumentos diversos
Gino Afonsi/Elias Slom: violinos
Elza Guarnieri: harpa
Chico de Moraes/ Erlon Chaves/ Roberto Menescal/Lindolpho Gaya/Oscar Castro Neves: arranjos
Maciel, Lira, Bill e Toucinho: trombones
Escola de Samba do Salgueiro: ritmo



Veja também:
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