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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Discos para história: Highway 61 Revisited, de Bob Dylan (1965)


A 114ª edição do Discos para história fala sobre o segundo disco elétrico de Bob Dylan: o excelente Highway 61 Revisited.

História do disco

Bob Dylan estava irritado e cansado. Irritado com o material desenvolvido para sua turnê e cansado pelo longo período fora de casa, praticamente emendado no lançamento de Bringing It All Back Home, em março. Ele chegou e escreveu uma longa peça em várias páginas. Ao editá-los, acabou formatando o que viria a ser “Like a Rolling Stone”. Isso o motivou a entrar em estúdio novamente para gravar um disco menos pouco mais de três meses depois do lançamento do anterior.

A primeira fase das gravações aconteceu entre 15 e 16 de junho, em Nova York, com Tony Wilson na produção, no estúdio disponibilizado pela Columbia a seus músicos. Bobby Gregg na bateria, Joe Macho Jr. no baixo, Paul Griffin no piano e Frank Owens na guitarra foram os escolhidos para o trabalho no primeiro dia, que pouco rendeu. Mas o dia seguinte seria histórico.

Sem resultados que agradasse Dylan no primeiro dia, o seguinte foi dedicado apenas a “Like a Rolling Stone”. Quem estava lá e, não apenas viu tudo, participou foi Al Kooper. O jovem tecladista fez um solo no órgão que acabou virando um pedaço crucial da melodia. Com ele complementando a banda, eles fizeram 11 tentativas até o limite de ideias sobre o que fazer com a faixa. No fim, a quarta foi a escolhida. Por compromissos do cantor, as gravações foram interrompidas, momento que ele usou para se fechar em casa e trabalhar forte em novo material.


Não se sabe ao certo o motivo do rompimento, só se sabe que Dylan trocou Wilson por Bob Johnston para ser o novo produtor de seus discos. Segundo Robert Shelton, o biógrafo mais famoso do cantor, ele encontrou uma “fina sintonia com o produtor nascido em Nashville”. O primeiro dia deles no estúdio foi dedicado a "Tombstone Blues", "It Takes a Lot to Laugh", "Positively 4th Street" e uma tentativa de "Desolation Row".

Mais uma pausa, só desta vez Dylan levou Kooper para sua casa em Woodstock para ajudá-lo nas melodias. O trabalho recomeçou dia 2 de agosto com muito sucesso – três faixas foram finalizadas em um dia. Por fim, 4 de agosto foi o último dia de trabalho e o foco era finalizar "Desolation Row". A convite de Johnston, o guitarrista Charlie McCoy participou da sessão de sete tentativas de um bom resultado, com as duas últimas sendo as escolhidas para mixagem final.

O nome do disco gerou controvérsia na Columbia. Muita gente se opôs a homenagem do cantor a Highway 61, a grande estrada que passa por Duluth, cidade natal de Dylan, ao sul dos Estados Unidos. Também era uma homenagem ao blues – muitos dos músicos mais famosos do gênero passaram pelo caminho indo para o norte. “Eu quis chamá-lo assim e pronto”, disse o cantor à época. E a capa refletia um pouco esse mau humor, essa empáfia em querer mostrar que estava de saco cheio do material acústico antigo.

Lançado em 30 de agosto de 1965, Highway 61 Revisited foi um estouro, principalmente na Inglaterra. O sexto disco de estúdio mostrava um ímpeto de mostrar mais coisas, uma tentativa clara de aprimoramento do repertório para o novo Dylan que estava surgindo. Um Dylan cada vez mais de irritado ao ser questionado sobre ser vendido e de ter desistido das canções de protesto.


Resenha de Highway 61 Revisited

“Ela apenas veio”, disse Dylan a Robert Shelton ao comentar "Like a Rolling Stone", um dos grandes clássicos da música contemporânea dos Estados Unidos. Depois de editá-la ao piano, o cantor ligou para algumas pessoas e decidiram gravá-la imediatamente. É uma das canções mais viscerais e, até certo ponto, cruel da longa discografia dele. Na melodia, tudo se encaixa perfeitamente, do improviso do órgão tocado por Al Kooper até a bateria, tocada de maneira simples e efetiva. O solo de gaita introduz a parte final, uma porrada, que fecha com a repetição do refrão (How does it feel?/How does it feel?/To be on your own?/With no direction home?/Like a complete unknown?/Like a rolling stone?).

Uma das intenções de Dylan no disco era mostrar suas influências do blues – da homenagem feita ao nome do disco e no estilo – e "Tombstone Blues" se encaixa bem nisso. Os solos de guitarra são bem simplórios em comparação com outros nomes da época, mas fazem sentido dentro da proposta. A galope, a canção termina na mesma velocidade em que começou. Uma zoeira de Dylan no título de "It Takes a Lot to Laugh, It Takes a Train to Cry” dá o tom de uma música leve e simples.



"From a Buick 6" não é apenas uma homenagem ao blues dos anos 1950 tão ouvido por Dylan. Vai um pouco além disso, indo nas influências de várias gerações – da música sulista dos anos 1940 até Chuck Berry, segundo Shelton em sua biografia do cantor. Animada, ela dá conta do recado. Outra peça genial, "Ballad of a Thin Man" é o arquétipo de letra feita baseada em alguém, mas quem? Ninguém sabe. Só se sabe que Dylan canalizou sua força em descrever como um homem é amado porque precisam dele, não por gostarem dele. Quem nunca conheceu um ou é o próprio Mr. Jones. Musicalmente, o órgão e a bateria conseguem criar um clima tão absurdo, que é possível imaginar toda narrativa na sua cabeça – com personagens e tudo.

O lado B começa com a questionadora "Queen Jane Approximately". Apesar de uma letra interessante, a melodia é repetitiva e pouco inspirada, sendo o ponto mais baixo de todo disco. As referências religiosas, do Delta do Mississipi, dos mestres e rainhas do blues são as pilastras de "Highway 61 Revisited", uma animada canção de andamento baseado na levada de uma nota da guitarra, uma bateria consistente e um piano de coadjuvante. A triste "Just Like Tom Thumb's Blues" trata de refletir a dura realidade das pessoas, muitas vezes fora de suas casas não conseguem o sucesso. Mas o retorno ao lar é sempre abençoado, de uma forma ou outra.

O apocalipse é tratado em tom de prosa em uma das canções mais fatalistas feitas por Dylan. "Desolation Row" é outra chuva de referências a personagens da literatura popular colocados em um momento específico da história: o fim de tudo. O tom acústico traz um quê de romantismo ao que podemos chamar de uma quase releitura de Bíblia, com a diferença de que o cantor entoa sua voz rouca de forma brilhante e sublime. Não tem como não ficar impressionado com a capacidade intelectual e de escrita. Um gênio que faria história conseguiu mais uma vez.



Ficha técnica:

Tracklist:

Lado A

1 - "Like a Rolling Stone" (6:13)
2 - "Tombstone Blues" (6:00)
3 - "It Takes a Lot to Laugh, It Takes a Train to Cry" (4:09)
4 - "From a Buick 6" (3:19)
5 - "Ballad of a Thin Man" (5:58)

Lado B

1 - "Queen Jane Approximately" (5:31)
2 - "Highway 61 Revisited" (3:30)
3 - "Just Like Tom Thumb's Blues" (5:32)
4 - "Desolation Row" (11:21)

Gravadora: Columbia
Produção: Bob Johnston/Tom Wilson em "Like a Rolling Stone"
Duração: 51min06s

Bob Dylan: vocais, guitarra, gaita, piano e sirene de polícia

Convidados:

Mike Bloomfield: guitarra
Charlie McCoy: guitarra
Paul Griffin/Al Kooper: piano e órgão
Frank Owens: piano
Harvey Brooks/Russ Savakus/Joe Macho Jr.: baixo
Bobby Gregg/Sam Lay: bateria



Veja também:
Discos para história: “Heroes”, de David Bowie (1977)
Discos para história: Led Zeppelin III, do Led Zeppelin (1970)
Discos para história: A Tábua de Esmeralda, de Jorge Ben (1974)
Discos para história: My Generation, do The Who (1965)
Discos para história: Doolittle, do Pixies (1989)
Discos para história: Tonight's the Night, de Neil Young (1975)
Discos para história: Murmur, do R.E.M. (1983)

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