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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Discos para história: Saúde, de Rita Lee (1981)


Edição 155 traz um dos bons discos lançados no início dos anos 1980

História do disco

Depois de ser chutada dos Mutantes, Rita Lee encontrou o sucesso na carreira solo, principalmente quando uniu-se ao músico Roberto de Carvalho – parceiro musical e na vida, fonte de muitas músicas. Aliás, sucesso é pouco para definir o que a cantora fez entre o meio dos anos 1970 e o início dos anos 1980. Ela redefiniu o pop nacional ao emplacar hit atrás de hit, especiais na Globo e servir de inspiração para geração seguinte de músicos de sucesso no Brasil.

Em 1979, o primeiro disco da parceira, Mania de Você (1979), foi um estouro: "Chega Mais", "Papai me Empresta o Carro", "Doce Vampiro" e "Mania de Você" a colocaram em um patamar muito alto. E enganou-se que a boa fase acabaria logo: Lança Perfume (1980) também foi um estouro. “Lança Perfume”, “Baila Comigo”, “Nem Luxo, Nem Lixo” e “Caso Sério” a colocaram como uma das grandes hitmakers da história da música brasileira.

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Mas a indústria musical é cruel – por isso, é chamada de indústria. Como diria a chamada de uma rádio: "depois de um sucesso, vem outro". Claro que 1981 chegou e Rita Lee estava pressionada a continuar no topo das paradas. Era bom para todos os envolvidos no processo. Em entrevista ao jornal 'O Estado de S. Paulo', do dia 8 de novembro daquele ano, Roberto de Carvalho avisava que o próximo disco era "um trabalho novo, já que desde o início tivemos a preocupação de não nos repetirmos, aproveitando o sucesso alcançado. E essa é uma coisa realmente tentadora", contou.

À época, a crítica não gostou de Rita e Roberto terem optado por mixar o disco em Nova York e pela escolha do uso da bateria eletrônica em algumas faixas, algo perfeitamente normal no início dos anos 1980. No fim, era a dupla sendo pioneira no quesito no Brasil. Lá fora, era comum a bateria eletrônica, principalmente por bandas da new wave e do pós-punk – no Reino Unido era tendência. Aqui, eles foram julgados e condenados por usá-la.

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O planejamento era o mesmo: dedicar-se ao máximo para completar o disco, ensaiar para a turnê e gravar o especial para Globo, dirigido por Daniel Filho. Como estavam de mudança, a casa antiga, mas vazia, foi o cenário escolhido para gravação de "Atlântida", para o Fantástico, sendo "o primeiro registro no formato de clipe, muito antes de a MTV existir", escreve Rita Lee em sua autobiografia lançada no final de 2016.

Sobre o disco, a entrevista de Rita ao jornal 'O Estado de S. Paulo' é bem esclarecedora. "A música é um reflexo do que está acontecendo com o mundo, e particularmente, o Brasil. E talvez essas pessoas se expressem assim, de um modo que às vezes pode parecer chato. Eu não, já tenho o lance do palhaço... até no meu visual: sabe, já estou cheia de cabelos brancos, mas pinto de vermelho, porque adoro mudar a cor e ver no que dá". Rita Lee emplacou mais sucessos na conta, acrescentando ótimas músicas em seu já vasto repertório. Um sucesso era difícil, dois era mais ainda. Três era impossível. Não para Rita Lee.



Resenha de Saúde

O disco abre com a faixa título, um roquinho bem maneiro para balançar o esqueleto. Aqui, temos muito da influência dos anos 1980 na música como um todo – teclado, uma longa introdução instrumental, um riff de guitarra ao fundo para ditar o ritmo, a bateria eletrônica, o teclado. A intenção de Rita Lee é mostrar que "enquanto estou viva, cheia de graça, talvez ainda faça um monte de gente feliz". É bem por aí, e a faixa funcionou muito bem.

A bobinha "Tatibitati" tem bom ritmo, mas a letra é preguiçosa e tem uma duração exagerada. Para compensar, o último verso (Sempre fui levada-da-breca/ Brincar de médico/ É melhor que boneca) é algo bem ritaleeano, algo que só ela parecia ter essa sacada em uma canção. "Mutante" tem uma mistura de anos 1980 com ritmos latinos em uma aula de como se fazer uma balada romântica de primeiro nível. A cantora falava de sua mutação e "de sair do conforto ilusório para viver na fragilidade da dúvida", segundo ela própria em sua autobiografia.



Tema de novela da Globo do mesmo nome, "Tititi (Galinhagem)" ficou conhecida na versão da banda Metrô, mas ganhou uma regravação de Rita no remake da trama exibido em 2010. O quê Rolling Stones é interessante, mostrando sempre aquele pé no rock, além da letra rebelde (Se pintar um negócio na China/ Corre e vê se eu estou lá na esquina/ E se estiver vê se me deixa em paz/ Eu quero mais é ficar bem longe desse tititi).

Uma das muitas músicas censuradas pela ditadura, "Banho de Espuma" ganhou a versão do discoquando foi carimbada pelo órgão regulador. A faixa chamava-se "Afrodite" e precisou ser reescrita em alguns pedaços. No fim, sinceramente, ficou muito melhor esse jogo de palavras e essa sensualidade do que a original. É uma das muitas letras que Rita teve o relacionamento com Roberto de Carvalho como inspiração – no caso, um belo banho de banheira com muita sacanagem. É uma faixa maravilhosa, dessas de sair cantando pela rua. Um acerto imenso.

(Aliás, sobre Rita Lee e Roberto de Carvalho, Tom Zé disse algo muito... Tom Zé sobre a cantora tirar tanta inspiração para suas letras: "Ele foi responsável pela educação sexual daquela época, com suas letras sexo-pedagógicas criadas pelo fato de Rita ter encontrado um marido tão fantástico como Roberto de Carvalho. Nunca vi uma pessoa se apaixonar tanto pelo pau de um namorado a ponto de tecer loas constantes e repetidas em tudo que cantava", disse ele, em entrevista à revista 'Rolling Stone', em 2007, na matéria de capa da 15ª edição).



Uma jam de meia hora virou a psicodélica de ar pop "Atlântida". Bem compassada, tem na parte instrumental o grande trunfo para uma letra bem "viajandona". Os mais de seis minutos de duração ajudam a criar a sensação de estar em um mundo próprio, em que Rita é a guia que apresenta os tesouros perdidos do mar. Em "Favorita", Roberto de Carvalho canta mais uma faixa bobinha e de levada simples. Não faria falta se não estivesse no disco, assim como a versão em inglês de "Mamãe Natureza". Os censores eram cruéis, então, às vezes, era melhor se contentar com pouco e ficar de boca fechada.

Não é o melhor disco de Rita Lee – os dois anteriores são melhores. Mas conseguir mais da metade do LP em singles não é moleza. Pois ela conseguiu. Era 1981 e, muito antes de a nova geração chegar com pé na porta, o pop brasileiro tinha dona. Era Rita Lee, que mostrou seu potencial em fazer canções de sucesso e de identificação com o público. Ninguém venderia tantos discos como ela.



Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Saúde" (5:01)
2 - "Tatibitati" (4:01)
3 - "Mutante" (3:25)
4 - "Tititi (Galinhagem)" (4:40)
5 - "Banho de Espuma" (3:42)
6 - "Atlântida" (6:20)
7 - "Favorita" (4:09)
8 - "Mother Nature" (versão de "Mamãe Natureza") (Rita Lee) (4:11)

Todas as músicas são de autoria de Rita Lee e Roberto de Carvalho, exceto a marcada.

Gravadora: Som Livre
Produção: Rita Lee e Roberto de Carvalho
Duração: 35 minutos

Rita Lee: vocais e vocais de apoio

Convidados:

Roberto de Carvalho: vocais em "Favorita"
Ariovaldo: percussão
Gel, Alfredo Lynn e Picolé: bateria
Lee Marcucci e Jamil Joanes: baixo
Lincoln Olivetti: teclados
Wander Taffo e Robson Jorge: guitarra
Leo Gandelman, Zé Carlos e Oberdan: saxofone
Serginho do Trombone: trombone
Márcio Montarroyos e Bidinho: trompete
Lúcia Turnbull: vocal de apoio e arranjo de metais



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