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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Discos para história: O Samba Poconé, do Skank (1996)


Terceiro disco de estúdio mostrou o poder da banda em fazer hits

História do disco

O Skank surgiu muito bem no cenário musical brasileiro. Depois do 'boom' de bandas nos anos 1980, as coisas começaram a mudar de rumo. Alguns que fizeram sucesso antes já não estavam tão bem assim, então os lugares começaram a serem ocupados por outros nomes. A banda de Minas Gerais foi uma dessas novidades do início da década seguinte. E eles foram muito bem.

No álbum autointitulado, de 1992, rolou música em novela – uma ótima porta de entrada para qualquer banda novata. Em 1994, Calango foi um estouro ao vender mais de um milhão de cópias, algo enorme mesmo naquela época, e ter sete de suas 11 músicas tocadas nas rádios. E os singles "Jackie Tequila", "A Cerca", a versão do clássico "É Proibido Fumar" e "Pacato Cidadão" entraram na vida das pessoas para não sair mais. Claro que havia pressão para manter-se no topo, mas não tinha como saber que eles entregariam um trabalho de ainda mais sucesso comercial.

Mais discos dos anos 1990:
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Como acontece com todas as bandas de sucesso, a agenda de shows aumenta muito depois de tantos hits nas rádios. O trabalho seguinte, que viria a ser O Samba Poconé, veio disso. Era o contato com outros lugares, culturas e pessoas, mas sem esquecer de onde vieram e de suas referências pessoais na música. No site oficial, o grupo diz que o álbum foi "inspirado nos filmes da Atlântida com Zé Trindade, Renata Fronzi e Grande Otelo e nos pequenos circos que percorrem o país, o nome O Samba Poconé foi criado (...)". Poconé é o nome de um município no interior do Mato Grosso, que representou a intenção de mostrar toda mistura de ritmos, brasileiros e outros, que eles desejavam fazer no registro.

"É um disco marcante por vários motivos. Pela alta vendagem, de dois milhões de cópias, ele foi bem representativo. Não só para o Skank, mas para todo o pop rock brasileiro (...)", disse Samuel Rosa, em entrevista ao 'UOL', publicada em novembro de 2016.

Sim, é isso mesmo. O Samba Poconé foi um estouro de vendas, mesmo com o desenho de uma mulher nua na capa e explorando temas como racismo, reforma agrária e as chanchadas. O Brasil era outro em 1996, então esse disco do Skank foi encarado da melhor maneira possível pelo público ao responder comprando o CD. Aliás, foi um trabalho tão marcante que, recentemente, ganhou uma cuidadosa reedição especial tripla e uma excursão do Skank para tocá-lo na íntegra.

Veja também:
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"Está entre os três discos de pop rock que mais venderam na história da música brasileira. Fizemos uma turnê em oito países diferentes. Foi uma reviravolta na nossa carreira, então acho que isso merece um registro", contou o vocalista, na edição de 1º de outubro do programa 'Altas Horas', apresentado por Serginho Groisman, na Globo.

Depois de superar a maldição do segundo disco, o Skank se consolidou de vez no terceiro. As fortes canções de trabalho e a participação de Mano Chao ainda deram ao grupo força suficiente para ter sucesso nos mercados internacionais. De Minas Gerais para o mundo, esses mineiros lançaram um trabalho bom por demais da conta.



Resenha de O Samba Poconé

Começando pela faixa que deveria ser patrimônio imaterial da humanidade, "É uma Partida de Futebol" virou um sucesso certeiro pelo simples motivo de mexer com a paixão do brasileiro. Não só a letra, a descrição de um jogo, mas o arranjo é feito para ficar gravado na cabeça por anos. É difícil esquecê-la. E, com 20 anos recém-completados, ainda é usada em vários vídeos de programas esportivos – um sucesso feito para durar sempre.

A balada meio reggae "Eu Disse a Ela" funciona bem por ser cheia de ritmo e por ser uma faixa à la Skank, já "Zé Trindade" é uma bonita homenagem a um dos grandes atores brasileiros do século 20. Biográfica, a faixa mescla bem os momentos acelerados e os mais lentos. A tal mistura de ritmos que o Skank desejava pode ser vista com clareza neste momento do álbum.
Se existe uma música do Skank inesquecível é "Garota Nacional". Meio funk, meio latina e de letra bem sacana (Porque ela derrama um banquete, um palacete/ Um anjo de vestido, uma libido do cacete/ Ela é tão, tão vistosa, que talvez seja mentira/ Quem dera minha cara fosse de sucupira), acabou virando a canção que é a cara da banda ao longo dos anos. O sucesso transformou o grupo em sucesso internacional, inclusive tocando em festivais importantes.



Outro sucesso é a balada alegre, romântica e de refrão fácil "Tão Seu". Além da letra (Eu faço tanta coisa/ Pensando no momento de te ver/ A minha casa sem você é triste/ A espera arde sem me aquecer), mais uma vez o destaque vai para o arranjo simples e bem fácil de cantarolar por aí. Em 1996, o Movimento dos Sem Terra estava em evidência e o Skank não deixou a chance de falar deles em "Sem Terra", uma faixa com cara de América Latina. "Os Exilados" é outro reggae leve e bem bonitinho, suficiente para preencher o disco, e "Um Dia Qualquer" é um ska para lá de animado.

A ajuda de Mano Chao para tratar do racismo em "Los Pretos", mais uma canção com uma latinidade que ainda impressiona para um trabalho brasileiro – falta mais união entre o Brasil e o resto da América Latina de maneira geral. "Sul da América" é outra de bom refrão, mas acabou não fazendo sucesso, o que não faz muito sentido. A última, "Poconé", ganha muita força pelo conjunto de metais em um forró bem acelerado e dançante.

O Skank já havia ganhado cara, mas o novo trabalho deu corpo ao grupo. Pode não parecer, mas, há 20 anos, esses mineiros viravam cidadãos do mundo com um disco muito bem feito e cheio de hits certeiros. O terceiro trabalho de estúdio os consolidou na cena musical mainstrem brasileira.



Ficha técnica

Tracklist:

1 - "É uma Partida de Futebol" (Nando Reis/Samuel Rosa) (3:56)
2 - "Eu Disse a Ela" (4:14)
3 - "Zé Trindade" (4:07)
4 - "Garota Nacional" (5:17)
5 - "Tão Seu" (4:03)
6 - "Sem Terra" (4:39)
7 - "Os Exilados" (4:05)
8 - "Um Dia Qualquer" (Chico Amaral) (4:52)
9 - "Los Pretos" (3:59)
10 - "Sul da América" (4:14)
11 - "Poconé" (Chico Amaral) (5:21)

Gravadora: Chaos/Sony Music
Produção: Skank e Dudu Marote
Duração: 40min51s

Samuel Rosa: guitarra e vocal
Henrique Portugal: teclado
Lelo Zaneti: baixo
Haroldo Ferreti: bateria

Convidados:

Manu Chao: vocais em "Zé Trindade", "Sem Terra" e "Los Pretos"
Chico Amaral: saxofone e arranjo de metais
Ed Côrtes: saxofone, percussão e arranjo de metais em "É Uma Partida de Futebol"
Proveta e Teco Cardoso: saxofone
João Vianna, Walmir Gil e Naor: trompete
Edivaldo Silva e Sidnei: trombone
James Müller e Marcos Romera: percussão
Toninho Ferragutti: sanfona
Paco Pigalle: vocais em "Los Pretos"
Débora Reis, Vânia Abreu, Graça Cunha e Kelly Cruz: vocais de apoio



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