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sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Discos para história: O Sucesso É Samba, de Walter Wanderley (1961)


História do disco

Walter Wanderley foi um verdadeiro fenômeno da música mundial nos anos 1960. Quando se mudou para os Estados Unidos, se especializou em tocar órgão ao invés do piano do início da carreira e chegou a vender 1 milhão de cópias do single "Summer Samba (So Nice)", algo inimaginável para um artista brasileiro em outro país. A canção foi a 12ª mais ouvida no mundo em 1966*.

Ele nasceu em 1932, em Pernambuco, e começou a tocar piano aos cinco anos e já era visto como um garoto prodígio por quem o ouvia e impressionava os adultos. Aos 12, chegou em São Paulo para estudar na prestigiada Liceu de Artes e Ofícios, lugar em que se formou em harmonia e composição.

Mais álbuns dos anos 1960:
Discos para história: Showcase, de Patsy Cline (1961)
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Discos para história: O Amor, O Sorriso e A Flor, de João Gilberto (1960)

Como qualquer um que desejasse viver de música, começou a tocar nas boates em Recife, mas logo viu que o lugar para estar naquele momento era na capital paulista. Chegou em São Paulo em 1958, aos 26 anos, e logo era visto desfilando todo talento na boate Oásis e no Bar do Capitão. O talento foi notado por muita gente do meio e, em 1959, teve a oportunidade de fazer as primeiras gravações da carreira, sendo a estreia no piano de "Lobo Bobo", de Carlos Lyra.

Um dos pontos fundamentais da carreira de Wanderley foi justamente gravar canções dos então jovens compositores da bossa nova do calibre de Marcos Valle, Tom Jobim, João Donato e outros. Os arranjos animados e considerado modernos das músicas instrumentais fizeram sucesso e começaram a vender muito bem nas versões em LP.

Ele também foi parte importante da carreira da cantora Isaurinha Garcia, com quem chegou a se casar em 1959, mas se separaram pouco tempo depois por um caso extraconjugal que ele manteve com outra diva da música brasileira, Claudette Soares. Mulherengo, Wanderley tinha problemas com álcool e, quando passava do ponto, não era incomum chegar às vias de fato com qualquer um — músicos em estúdio, cantores, produtores e até mesmo a ex-mulher, que não deixava barato e partia para cima dele também.

Veja também:
Discos para história: Metá Metá, do Metá Metá (2011)
Discos para história: Ruido Rosa, do Pato Fu (2001)
Discos para história: Os Grãos, dos Paralamas do Sucesso (1991)
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Discos para história: Imagem e Som, de Cassiano (1971)
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Mas tudo isso não chegou a atrapalhar a carreira dele, seja nos álbuns solo lançados com Seu Conjunto, seja como músico de estúdio, creditado ou não. Dentre os trabalhos mais famosos da carreira, está "O Sucesso É Samba", LP em que ele pega composições do pessoal da bossa nova, então na crista da onda, com sambas antigos e transforma o material numa intersecção de Brasil, mostrando que o velho e novo podiam caminhar juntos e muito bem.

Ao escolher os Estados Unidos para morar até o fim da vida, precocemente perdida aos 54 anos, Walter Wanderley acabou sendo colocado de lado ou esquecido quando o assunto é bossa nova e a importância dele em popularizar as músicas compostas por jovens ambiciosos. Ele foi um verdadeiro gênio da música brasileira e merece todas as reverências e lembranças.

*história contada por João Marcelo Bôscolli no Sala de Música, quadro no Estúdio CBN

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Resenha de "O Sucesso É Samba"

Um dos trunfos de Walter Wanderley era conseguir transformar qualquer canção em algo animado. Ao começar "O Sucesso É Samba" com "Teleco Téco Nº2", ele prova que esse talento é realmente para poucos. A vontade de sair dançando pela casa é muito grande.

Desde a primeira música, a habilidade dele no órgão é incrível. E tudo vai ficando mais claro em canções como "Samba De Uma Nota Só", de Antonio Carlos Jobim e Newton Mendonça, e "Saudade Querida", de Tito Madi — um dos melhores compositores do samba-canção da história do Brasil. Até mesmo a inofensiva "O Pato" tem seu gracejo na versão instrumental.

A primeira parte termina com a bonita "Meditação" e a melancólica "Cheiro De Saudade". Mas o lado B começa com a animada "O Amor E A Rosa", de Antônio Maria e Pernambuco, gravada e regravada por diversos artistas ao longo dos anos. E "Ninho Do Nonô" poderia fazer parte do núcleo de comédia de qualquer novela de época da Globo.

Outra canção presente regravada foi "O Menino Desce o Morro", assim como "Chora Tua Tristeza", que ganha um tom melancólico na medida certa. Por fim, "Dona Baratinha" e "Mulata Assanhada", um clássico de Ataulfo Alves, encerram o trabalho.

Uma pena que Walter Wanderley seja reconhecido como um grande músico apenas nos Estados Unidos. Ele merecia mais do lugar onde nasceu e passou os primeiros anos da carreira. Que o futuro fale mais sobre ele, o trabalho e a importância ao longo de mais de 30 anos de contribuição para a música brasileira.

Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Teleco Téco Nº2" (Nelsinho/Oldemar Magalhães)
2 - "Samba de Uma Nota Só" (Antonio Carlos Jobim/Newton Mendonça)
3 - "Saudade Querida" (Tito Madi)
4 - "O Pato" (Jaime Silva/Neuza Teixeira)
5 - "Meditação" (Antonio Carlos Jobim/Newton Mendonça)
6 - "Cheiro de Saudade" (Djalma Ferreira/Luiz Antônio)

Lado B

1 - "O Amor e a Rosa" (Antônio Maria/Pernambuco)
2 - "Ninho do Nonô" (Denis Brean)
3 - "O Menino Desce o Morro" (Vera Brasil/De Rosa)
4 - "Chora Tua Tristeza" (Luvercy Fiorini/Oscar Castro-Neves)
5 - "Dona Baratinha" (Almeida Rêgo/Newton Ramalho)
6 - "Mulata Assanhada" (Ataulfo Alves)

Gravadora: Odeon
Produção: Julio Nagib
Duração: 30min42s

Walter Wanderley: órgão

Existem outros instrumentistas no álbum, mas, infelizmente, não estão creditados. Quem souber, basta entrar em contato que o post será atualizado.

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