Mais no blog:

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Discos para história: Broto Certinho, de Celly Campello (1960)


História do disco

O rock no Brasil nunca chegou a ser um fenômeno como nos Estados Unidos ou no Reino Unido, mas teve seus momentos. E como uma dessas coisas que só poderia acontecer por aqui, uma das estrelas do gênero foi uma mulher. Celly Campello (1942-2003) conseguiu fazer um sucesso estrondoso entre o final dos anos 1950 e início da década seguinte em parceria com o irmão Tony Campello.

Uma das pedras fundamentais do rock brasileiro ao lado do irmão e de nomes como Sergio Murilo (1941-1992) e Ronnie Cord (1943-1986), Celly iniciou a carreira profissional aos 15 anos, em 1958, com o lançamento do compacto "Perdoa-me (Forgive Me) / Belo rapaz (Handsome Boy)", adaptações de músicas de sucesso nos Estados Unidos. Aliás, o Brasil enquanto mercado para o rock não passava de adaptar versões de sucessos. Uma identidade própria ainda demoraria um pouco para vir, isso se a Jovem Guarda for contabilizada como rock. Se não, seria uma longa espera.

Mais discos dos anos 1960:
Discos para história: O Amor, O Sorriso e A Flor, de João Gilberto (1960)
Discos para história: Joan Baez, de Joan Baez (1960)
Discos para história: Martinho da Vila, de Martinho da Vila (1969)
Discos para história: Abbey Road, dos Beatles (1969)
Discos para história: Le Roi de La Bossa Nova, de Luiz Bonfá (1962)
Discos para história: Bayou Country, do Credence Clearwater Revival (1969)


Isso de o Brasil contar apenas com versões de sucessos também levava a adaptações e criações de nomes artísticos para americanizar os talentos surgidos naquela época, principalmente pelo fato de cantarem em inglês. Celly se chamava Célia e Tony tem Sérgio como nome de batismo. Mas antes da fama estrondosa, ainda que curta, a dupla fez bastante sucesso ainda na infância em Taubaté, cidade onde passaram toda infância e adolescência, quando estrelavam programas de rádio locais.

Sérgio tinha uma banda e rapidamente tocara em todos os lugares disponíveis para shows nas proximidades. Quando pintou a chance de gravar o primeiro compacto, pintou um problema: como um homem vai cantar uma música chamada "Handsome Boy"? Foi aí que Célia entrou na jogada. E foi aí que Célia virou Celly e Sérgio virou Tony, com a dupla estreando na TV, em 1958, no programa "Campeões do Disco", da Tupi, graças ao sucesso do compacto "Perdoa-me (Forgive Me) / Belo rapaz (Handsome Boy)".

Os irmão, juntos ou separados, lançaram diversos compactos ao longo de 1958 e 1959. Mas o sucesso só veio mesmo quando Celly lançou uma versão de "Stupid Cupid", chamada "Estúpido Cupido". O sucesso foi avassalador. Aliás, foi em 1959 que a dupla estreou na apresentação do programa "Celly e Tony em hi-fi", na TV Record, em São Paulo, e também assinou contrato para o lançamento do primeiro LP -- "Estúpido Cupido". Para coroar o ano, eles estiveram no filme "Jeca Tatu" (1959), estrelado por Mazzaroppi.

Veja também:
Discos para história: São Paulo Confessions, de Suba (2000)
Discos para história: A Seu Favor, de Jorge Aragão (1990)
Discos para história: Elis, de Elis Regina (1980)
Discos para história: A Máquina Voadora, de Ronnie Von (1970)
Discos para história: Ella Sings Gershwin, de Ella Fitzgerald (1950)
Discos para história: Stories from the City, Stories from the Sea, de PJ Harvey (2000)


O ano seguinte consagrou Celly como a grande estrela da juventude ao ganhar o troféu Roquete Pinto de cantora revelação e a fazer propagandas para a Monark, marca de bicicletas, e Toddy, o famoso achocolatado, ter seu próprio chocolate lançado pela Lacta e uma boneca que levava seu pela Trol. A "Namoradinha do Brasil" estava com tudo no ano em que lançou o segundo LP da carreira, chamado "Brôto Certinho" -- o primeiro de dois trabalhos em estúdio daquele ano.

A fórmula do segundo álbum obedecia diretamente a do primeiro: a criação de versões de músicas em português para alguns dos sucessos em inglês. Com apenas uma faixa sendo uma composição nacional, "Broto Certinho" ganhou o público com "Banho De Lua", adaptação da canção italiana "Tintarella di Luna" lançada alguns anos antes. E é outra faixa que ainda faz parte da vida dos brasileiros 60 anos após o lançamento original.

Assim como o primeiro trabalho, o segundo LP de Celly Campello também foi um estouro entre a juventude brasileira da época. Pouco tempo depois, ele decidiu abandonar a carreira para focar no casamento. Independentemente da escolha, ela cravou o nome nos primórdios do rock no Brasil ao ser uma das primeiras grandes estrelas do gênero.


Resenha de "Broto Certinho"

Os primórdios do rock tinham muita inocência, pelo menos no Brasil. A faixa de abertura do segundo LP de estúdio de Celly Campello fala sobre como a moça inocente precisa escolher bem o namorado e futuro marido, então o "Broto Certinho" tinha que ser bonito e ser uma pessoa sem segunda intenções -- pelo menos na frente dos pais da moça. E a sequência mostra como "Billy" é esse rapaz ideal que a personagem da música deseja até sonhar com ele.

Claro que cantar em inglês era praxe, e "To Know Him Is To Love Him" é a primeira de três canções do tipo no álbum. Diferente das outras, é uma balada mais pesada na letra e nos arranjos, feita para dançar mais coladinho nos bailes. "Querida Mamãe" é aquele tipo de música que os adultos da época poderiam ter ficado com os cabelos em pé, já que é o tipo de letra um tanto desafiadora para os padrões da época.

O lado A ainda tem espaço para uma interpretação do clássico "Over The Rainbow", presente no filme "O Mágico de Oz" e conhecida na voz de Judy Garland, e a adaptação de "Frankie", uma balada em que Celly Campello se declarada apaixonadamente para Frankie.



A segunda parte do LP abre com "Banho De Lua", um dos maiores clássicos da música brasileira. E é quase perfeita. De letra grudenta, o arranjo funciona muito bem para manter o ouvinte atento e querendo dançá-la em qualquer lugar -- ainda tem um solo de... saxofone. Depois vem "Os Mandamentos Do Broto", uma espécie de manual de instrução para ter qualquer relacionamento na época. É bem inocente e ainda pede para quem ouvir focar nos estudos, uma maneira de também agradar aos pais.

O disco busca esse equilíbrio entre agradar pais e filhos, então depois do manual de instruções vem "Para Mim e Você", faixa que surge para falar das sensações em ter a pessoa amada ao lado. E logo em seguida vem "Broken Heart Melody", cantada também por Sarah Vaughan em 1960, e "Não Tenho Namorado", sobre a importância de não ir farrear para focar nos estudos -- os diálogos na música são sensacionais -- ao mesmo tempo em que também é um lamento por ficar de fora dos bailes. E "Grande Amor" finaliza o álbum com uma canção bem romântica, o jeito que a época pedia.

"Broto Certinho" colocou Celly Campelo como uma protagonista do rock brasileiro feito nos anos 1960. Se pensarmos que ela, em dois anos, abandonaria a carreira para casar-se e constituir família, os feitos dela são ainda mais impressionantes não apenas do ponto de vista estético, mas de sucesso mesmo. Ela e o irmão Tony abriram as portas para a Jovem Guarda, um dos movimentos mais importantes da música brasileira.



Ficha técnica

Tracklist*:

Lado A

1 - "Broto Certinho" ["One Woman Man"] (Howard Greenfield / adaptação: Fred Jorge)
2 - "Billy" (Joanette Archey / adaptação: Fred Jorge)
3 - "To Know Him Is To Love Him" (Philip Spector)
4 - "Querida Mamãe" ["Dear Mom And Dad"] (Frank C. Slay Jr. / Bob Crewe / adaptação: Fred Jorge)
5 - "Over The Rainbow" (Harold Arlen / E. Y. Hamburg)
6 - "Frankie" (Neil Sedaka / Howard Greenfield / adaptação: Fred Jorge)

Lado B

1 - "Banho de Lua" ["Tintarella di Luna"] (B. de Filippi / Franco Migliacci / adaptação: Fred Jorge)
2 - "Os Mandamentos Do Broto" (Mário Gennari Filho / Jorge)
3 - "Para Mim e Você" ["For Me And My Gal"] (George W. Meyer / Edgar Leslie-E. / Ray Goetz / adaptação: Fred Jorge)
4 - "Broken Heart Melody" (Sherman Edwards / Hal David)
5 - "Não Tenho Namorado" ["I Ain’t No Steady Date"] (Gladys Marie Caballero / adaptação: Fred Jorge)
6 - "Grande Amor" ["Instant Love"] (Fred Spielman / Milton Drake / adaptação: Fred Jorge)

*crédito da ficha técnica: Entreacordes

Gravadora: Odeon
Produção: Júlio Nagib
Duração: 32 minutos

Celly Campello: vocal
Tony Campello: violão e vocal de apoio
Mário Gennari Filho e seu Conjunto e Côro: instrumentos diversos e vocal de apoio



Continue no blog:


Siga o blog no Twitter e no Facebook e assine o canal no YouTube. Compre livros na Amazon e fortaleça o trabalho do blog!

Gostou do post? Compartilhe nas redes sociais e indique o blog aos amigos!