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sexta-feira, 16 de julho de 2021

Discos para história: Masterpieces by Ellington, de Duke Ellington (1951)


História do disco

É praticamente impossível falar de jazz e não citar o nome de Duke Ellington (1899-1974). Pianista de mão-cheia, Edward Kennedy Ellington fez algumas das obras-primas da história do gênero ao longo de mais de 50 anos de carreira e ficou em turnê de fevereiro de 1931 até o último dia de vida. Um gênio reverenciado até hoje pela velha e nova guarda, com muitas de suas gravações em discos modernos, fitas, discos 78 rotações, apresentações ao vivo e trilhas sonoras sobrevivendo ao teste do tempo.

Nos anos 1940, momento em que conseguiu montar o que muitos chamam de a melhor banda que o acompanhou por praticamente toda vida, ele gravou os sucessos "Cotton Tail", "Main Stem", "Harlem Air Shaft", "Jack the Bear" e "Take the "A" Train", sendo a última a marca registrada da Duke Ellington and His Orchestra. Enfim, a vida era boa. Até chegar a Segunda Guerra Mundial.

Mais discos dos anos 1950:
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Todas as gravações de álbuns foram suspensas a partir de 1942 por conta da mais longa greve da história do entretenimento nos Estados Unidos e, sem conseguir fazer shows, o dinheiro recebido por Ellington foi diminuindo. Ele começou a participar de recitais, a fazer participações especiais em filmes e, quando a greve acabou em 1944, a regravar versões de canções de sucesso dos anos anteriores, agora com letras. Ele estava no topo de novo. Mas havia um problema.

A greve acabou ajudando os cantores e cantoras a fazer sucesso, já que não era necessário uma big band completa em um estúdio para ter uma gravação. Assim, o valor da Duke Ellington and His Orchestra caiu consideravelmente no mercado musical. E ainda havia fato de o bebop começar a dominar o jazz, havia pouca chance para o velho Duke e a banda, certo? Ainda bem que ele não pensava assim e simplesmente seguiu fazendo o que sabia fazer de melhor: música.

Para muitos foi o fim das big bands de jazz, mas não para Ellington. Ele viu a oportunidade de fazer peças mais longas, muito mais do que os meros três minutos de um 78 rotações, e partiu para espetáculos na Broadway. Mesmo assim, ele era considerado antiquado e pouco rentável e ainda precisava lidar com perdas significativas na formação da banda. O futuro parecia reservar um destino terrível para ele. Mas não foi assim.

Ellington ainda mantinha o respeito e admiração de artistas contemporâneos e de donos de gravadora. Foi assim que a Columbia teve a ideia de registrar pela primeira vez as canções dele em um LP. Isso dois anos depois da invenção do "bolachão". Também de forma inédita, ele estava livre do limite de três minutos e poderia explorar a longa duração dos trabalhos mais recentes. É o caso de a tecnologia acompanhar a vontade do artista, algo não muito comum -- geralmente, alguns músicos estão muito adiantados.

Veja também:
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Convidado pela Columbia para o projeto Columbia Masterworks, ele regravou alguns de seus sucessos dos anos 1930 nas versões completas pela primeira vez e pôde brilhar ao longo de quase 50 minutos de trabalho, considerado por críticos e estudiosos um dos melhores da carreira do músico por simbolizar essa fase de liberdade adquirida a pouco tempo no estúdio.

A década de 1950 ainda seria dura para Ellington ficar indo de gravadora em gravadora para registrar as músicas em disco, mas, em 7 de julho de 1956, no Newport Jazz Festival, ele faria uma apresentação memorável, assinaria em definitivo com a Columbia e lançaria "Ellington at Newport", o maior sucesso da carreira. Ele conseguiu um segundo auge perto dos 60 anos e faria turnês mundiais até o fim da vida.


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Resenha de "Masterpieces by Ellington"

A canção de abertura não poderia ser outra se não "Mood Indigo". Gravada pela primeira vez em 1930, a faixa é uma das exploradas na totalidade pela primeira vez em uma gravação. Obviamente que, com o apoio de músicos de altíssimo nível e da vocalista Yvonne Lanauze, tornou-se um clássico do jazz e é uma das mais famosas gravações da carreira de Duke Ellington.

Depois vem a linda "Sophisticated Lady", de 1932, um reflexo da música feita para filmes daqueles tempos. É possível quase sentir o cheiro do uísque e do cigarro em uma cena de um filme que fez a plateia delirar com o final romântico e apaixonado. Outra faixa em que você é praticamente transportado para a época da composição.

Já "The Tattooed Bride" é feita para dançar -- rápido ou agarrado, se é que vocês me entendem. Em quase 12 minutos, Ellington e a banda dão show em uma gravação que funciona perfeitamente para replicar as apresentações deles. E como todo álbum de jazz tem um momento melancólico, "Solitude" cobre essa lacuna nessa resignação melancólica capaz de fazer até o coração mais gelado derreter.

Dá quase para dizer que "Masterpieces by Ellington" é uma coletânea. É e não. É por ser a primeira gravação na íntegra de grandes sucessos e não é justamente por não ter nenhuma canção inédita. Mas categorizar esse disco é o de menos. O melhor a fazer é colocar o menor fone de ouvido que você puder comprar e ouvir essa maravilha.

Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Mood Indigo" (Duke Ellington / Barney Bigard / Irving Mills) (15:27)
2 - "Sophisticated Lady" (Ellington / Mills /Mitchell Parish) (11:29)
3 - "The Tattooed Bride" (Ellington) (11:43)
4 - "Solitude" (Ellington / Mills / Eddie DeLange (8:26)

Gravadora: Columbia
Produção: -
Duração: 47min05s

Duke Ellington e Billy Strayhorn: piano
Cat Anderson, Shorty Baker, Mercer Ellington, Fats Ford, Ray Nance e Nelson Williams: trompete
Lawrence Brown, Tyree Glenn e Quentin Jackson: trombone
Jimmy Hamilton: clarinete, saxofone tenor
Johnny Hodges: alto saxophone
Russell Procope: saxofone alto e clarinete
Paul Gonsalves: saxofone tenor
Harry Carney: saxofone barítono e clarinete baixo
Wendell Marshall: baixo
Sonny Greer: bateria
Yvonne Lanauze: vocal

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