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sexta-feira, 30 de julho de 2021

Discos para história: Premeditando o Breque, do Premê (1981)


História do disco

Na capa do primeiro disco de estúdio, um aviso: "o Premeditando o Breque vai virar Premê". Como assim um grupo lança um álbum e muda de nome? Mais ou menos. Premê foi o apelido carinhoso que o Premeditando o Breque ganhou algum tempo após deixar a bolha do departamento de música da ECA-USP (Escolas de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo) e ganhar o Teatro Lira Paulistana e um grupo de fãs fiéis.

Na ECA, em 1976, o departamento de música era conhecido pela erudição e pelas aulas do pesquisador e regente Olivier Toni. E foi lá que Igor Lintz Maués, Mário Manga, A. Marcelo Galbetti e Claus Petersen se conheceram e logo começaram a montar o embrião de uma banda completamente fora da lógica da faculdade. Era divertida, alegre, irônica e cheia de misturas de ritmos e gêneros com cada um fazendo um pouco de cada coisa. Não demorou e  Wandi Doratiotto entrou nesse grupo, o Premeditando o Breque.

São Paulo vivia uma efervescência cultural importante no período. Era o surgimento de uma nova geração de artistas de vanguarda formada por Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Tetê Espíndola, Ná Ozzetti, Vânia Bastos e Eliete Negreiros, além dos grupos Língua de Trapo, Rumo e Patife Band. Todos eles começaram a carreira na mesma época. E todos começaram a deslanchar com a assinatura da Lei da Anistia, em 1979.

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O final dos anos 1970 marcou o início da abertura política no Brasil. Os anos de chumbo caminhavam para o fim e o governo João Figueiredo iniciava o lento processo de repatriação dos perseguidos pela ditadura. Nas artes, a censura ainda era forte e continuava a impedir lançamentos de músicas, peças e qualquer outro material considerado subversivo, um conceito muito amplo e pronto para proibir pela proibição pura e simples.

O ainda Premeditando o Breque chamou a atenção ao conquistar o segundo lugar no Festival Universitário da TV Cultura com a música "Brigando na Lua". Eles ficaram atrás de Arrigo Barnabé, intérprete de "Diversões Eletrônicas". O nome, aliás, veio da ideia de "homenagear" o samba de breque, um subgênero do choro. Mas aí eles começaram a colocar uma guitarra, um baixo e, quando viram, as músicas haviam incorporado vários estilos -- do rock ao samba paulista passando pela música de raiz, eletrônico e experimental. Tudo isso embalado com o bom humor de letras sobre a cidade, as pessoas e, por que não, eles mesmos.

O sucesso deles no circuito do Lira Paulistana, casa da Vanguarda Paulista, catapultou o grupo a ser mais conhecido fora desse circuito e defender "Empada Molotov", no MPB-80, em 1980, ajudou a mostrar a irreverência do grupo para o país todo. Mesmo com tudo a favor, a mudança nas gravadoras no final da década anterior acabou por não gerar interesse em gravar um álbum deles. Mas conseguiram um acordo com o selo Spalla, divisão independente da gravadora Continental, para lançar o primeiro LP da carreira.

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Lançado em setembro de 1981, o primeiro álbum do Premê, "Premetitando o Breque", não vendeu milhões de cópias e não deixou nenhum dos integrantes ricos. Pudera, não tinham um estilo, as músicas variavam muito e não tinham uma gravadora forte para apoiá-los. Na nota de relançamento da discografia em CD pelo Selo Sesc, os integrantes entraram em um acordo sobre as próprias habilidades.

"Até na época o pessoal exagerava dizendo que éramos grandes músicos. Não somos grandes músicos, somos músicos que trabalham. Ninguém do Premê é um virtuose dos instrumentos (salvo Manga na guitarra, claro!). Não tivemos formação clássica, mas formação musical", falaram.

O Premê é a banda que nasceu para divertir e ajuda a entender o período em que o Brasil deixava a ditadura e estava pronto para se divertir, ao menos na teoria.

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Resenha de "Premeditando o Breque"

O primeiro álbum do Premê é tão diferente e vai para tantos lados que a experimental "Essa É a Verdade" é a canção de abertura. Não é das mais fáceis, apesar das referências ao estado de São Paulo e alguns de seus lugares mais icônicos. E ao trabalho dá um 180º com a seguinte, "Conflito de Gerações", uma faixa à Juca Chaves com um ótimo arranjo de cordas para falar sobre um homem de 30 anos que ainda mora com os pais.

Então, o disco começa a excursão pelas referências da música brasileira. Por exemplo, "Brigando na Lua" é um samba das antigas dos mais divertidos sobre uma pessoa sequestrada por alienígenas (pois é), as peripécias de "Marcha da Kombi" ou ainda a triste história do porquinho Luís Fernando na experimental "Feijoada Total", final que vocês já imaginam qual foi para o animal. Ou ainda em "Nunca", essa filha da Vanguarda Paulista sem tirar, nem pôr.

Um dos pontos fortes do Premê é como eles contam as histórias nas letras, nas sacadas das composições ao usar rimas ou repetições. Quando você percebe, aprendeu a letra inteira em pouco tempo. São os casos da crônica de um corno apaixonado "A Esperança É a Última Que Morre" e "Gosto Também Se Discute", história do pobre vovô que gosta de chantilly com salsão. O final ainda reserva espaço para uma versão de "Louise", chamada "Luisa", presente no filme "Inocentes de Paris" (1929).

O Premê brinca com letras e acaba homenageando a rica música brasileira ao ir de um lado ao outro. Tem frevo, samba, choro, improviso, experimental, rock, pop e tudo mais que um grupo como eles poderiam fazer em 13 canções. E tudo isso com bastante humor, algo sempre bem-vindo em qualquer época. "Premeditando o Breque" é um espetáculo teatral em forma de áudio.

Ficha técnica*

Tracklist:

1 - "Essa É a Verdade" (Mário Biafra/Wandi Doratiotto)
2 - "Conflito de Gerações" (Wandi Doratiotto)
3 - "Brigando na Lua" (Mário Biafra)
4 - "Marana" (Mário Biafra/Wandi Doratiotto)
5 - "Marcha da Kombi" (Wandi Doratiotto)
6 - "Feijoada Total" (Premeditando O Breque)
7 - "Samba Absurdo" (Mário Biafra)
8 - "A Esperança É a Última Que Morre" (Wandi Doratiotto)
9 - "Nunca" (Marcelo Galbetti/Mário Biafra/Wandi Doratiotto)
10 - "Choro' (Marcelo Galbetti)
11 - "Gosto Também Se Discute" (Wandi Doratiotto)
12 - "Luisa" (Leo Robin/R. Whiting) (Versão: Igor e  Mário Biafra)
13 - "Fim de Semana" (Wandi Doratiotto)

Gravadora: Spalla
Produção: -
Duração: 43min24s

Marcelo (Antônio Marcelo Galberti), Igor (Igor Lintz Maués), Wandy (Wanderley Doratiotto), Claus (Claus Erik Petersen), Biafra (Mário Augusto Aydar): vocal, vocal de apoio, instrumentos diversos e arranjos

Convidado:

Arrigo Barnabé: teclado e voz

*não consegui o restante dos créditos. Agradeço se alguém tiver e puder me ajudar a deixar tudo certo.

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