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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Discos para história: Coltrane Jazz, de John Coltrane (1961)


História do disco

A carreira de John Coltrane como líder de banda começou no final dos anos 1950, mas foi no início da década seguinte que ele começou a fazer história. É possível dividir a carreira dele em períodos específicos dentro de gravadoras, algo fundamental para entender a história dele como músico e a própria história do jazz -- as gravadoras são muito importantes por simbolizarem períodos, estilos e artistas. Após deixar o selo Prestige, ele assinou com a Atlantic com ajuda de Harold Lovett, empresário de Miles Davis, e lá gravou quatro álbuns de estúdio entre 1960 e 1961. O primeiro deles foi o aclamado "Giant Steps" (1960), até hoje reconhecido como um de seus melhores e mais influentes trabalhos.

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É necessário compreender essas fases como um processo de descoberta de Coltrane como músico solo e todas as possibilidades musicais abertas com o início dessa parte importante da vida. E essa fase na gravadora comandada por Ahmet Ertegun e Herb Abramson é justamente o meio disso, o ajuste final dos anos gloriosos que resultariam no contrato com a Impulse! e a gravação da obra-prima "A Love Supreme" (1965).

Isso começou quando a influência emocional e melódica do jazz de vanguarda da época, inspirado por Ornette Coleman, chegou em Coltrane. Ele já era um inovador dentro do no bebop e hard bop, e seria pioneiro no modal e no free jazz pela década seguinte, mas foi a mistura de técnicas aliadas com o talento de alguém pronto para a carreira solo que fez algo muito impactante. Foi o último álbum solo dele ainda dividindo atenções como membro da banda de Miles Davis. Depois desse, ele partiria rumo ao estrelato.

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Aos 33 anos, ele escrevia material original com extrema facilidade e já acumulava mais músicas do que conseguiria gravar na curta carreira e em pouco menos de um ano gravando na Atlantic. Mas é bom colocar em perspectiva que Coltrane, apesar de ser inovador e gostar de ir além nos improvisos e composições, também gostava muito de seguir as regras implícitas do jazz com relação a melodias e arranjos. Ele sempre buscou esse equilíbrio entre ir com tudo e fazer o básico.

A ida dele para a Atlantic também acabou por ajudá-lo a colocar e prática no estúdio a primeira formação do John Coltrane Quartet, formado pelo pianista McCoy Tyner, o baterista Elvin Jones e o baixista Steve Davis -- eles se apresentaram ao vivo pela primeira vez no início de 1960. Mas a maior parte do material do álbum foi gravado com ajuda da banda que acompanhava Davis, formada pelo pianista Wynton Kelly, o baixista Paul Chambers e o baterista Jimmy Cobb, três craques nos respectivos instrumentos.

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Gravado em várias seções espalhadas entre março de 1959 e outubro de 1960, "Coltrane Jazz" é, segundo os especialistas, um pequeno passo atrás com relação ao trabalho anterior. Tecnicamente perfeito, o sexto álbum da carreira solo é mais solto e marcante como artista solo. Ao mesmo tempo em que buscava romper com os padrões, esse LP era a lembrança de que foi o jazz clássico que o levou até aquele momento. E ele não esqueceu disso.

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Resenha de "Coltrane Jazz"

O álbum começa com o cover de "Little Old Lady", composta por Hoagy Carmichael e Stanley Adams, um dos clássicos da história do jazz que ganha uma versão mais suave e com um final bastante surpreendente e diferente da original. Depois vem a primeira inédita, "Village Blues", gravada com o trio que formaria a banda com Coltrane nos meses seguintes. É nítida a diferença de estilo -- a faixa foi uma das últimas a ser trabalhada em estúdio, quase um ano depois do início das gravações.

No segundo cover presente no lado A do LP, "My Shining Hour" ganha uma versão completamente diferente da original ao ponto de ser quase uma música diferente. E o último original da primeira parte apresenta a lindíssima "Fifth House", um dos grandes momentos de Coltrane no álbum em que ele dá show e reina absoluto.

O lado B abre com "Harmonique", uma faixa simples e muito técnica, feita para mostra como Coltrane também era seguro quando fazia o básico. Depois surge "Like Sonny", uma homenagem a Sonny Rollins em que a base para os solos surge desde o início e o músico apresenta um de seus melhores momentos no trabalho, enquanto "I'll Wait and Pray", popularizada por Sarah Vaughan durante a Segunda Guerra Mundial, ganha uma versão bem emocionante. O disco ainda apresenta a animada "Some Other Blues", um bom encerramento.

John Coltrane fez de "Coltrane Jazz" um retorno às raízes, um álbum para celebrar alguns dos grandes compositores do jazz e também para mostrar aos seus contemporâneos que não esqueceu o básico do gênero e como ele consegue, sim, fazer um trabalho acima da média usando os elementos mais primários do início ao fim.

A passagem dele pela Atlantic foi fundamental para amadurecê-lo não só como músico, mas como líder de banda, algo fundamental no jazz. Coltrane morreu jovem, mas deixou suas marcas no gênero. E "Coltrane Jazz" é uma parte importante de todo esse processo.

Ficha técnica

Tracklist:

Lado A

1 - "Little Old Lady" (Hoagy Carmichael, Stanley Adams) (4:28)
2 - "Village Blues" (John Coltrane) (5:23)
3 - "My Shining Hour" (Harold Arlen, Johnny Mercer) (4:54)
4 - "Fifth House" (John Coltrane) (4:44)

Lado B

1 - "Harmonique" (John Coltrane) (4:13)
2 - "Like Sonny" (John Coltrane) (5:54)
3 - "I'll Wait and Pray" (George Treadwell, Jerry Valentine) (3:35)
4 - "Some Other Blues" (John Coltrane) (5:40)

Gravadora: Atlantic
Produção: Nesuhi Ertegün
Duração: 38min51s

John Coltrane: saxofone tenor
Wynton Kelly: piano
Paul Chambers: baixo
Jimmy Cobb: bateria
McCoy Tyner: piano em "Village Blues"
Steve Davis: baixo em "Village Blues"
Elvin Jones: bateria em "Village Blues"
Cedar Walton: piano em "Like Sonny" (versão alternativa)
Lex Humphries: bateria em "Like Sonny" (versão alternativa)

Tom Dowd e Phil Iehle: engenheiro de som
Zita Carno: nota de apresentação

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