Mais no blog:

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Discos para história: Ella Sings Gershwin, de Ella Fitzgerald (1950)


História do disco

É muito difícil não existir um ser humano que goste de música e não conheça a belíssima voz de Ella Fitzgerald. Considerada uma das maiores cantoras de todos os tempos, ela gravou e regravou alguns dos maiores sucessos da música americana ao longo de 60 anos de carreira. Mas tudo na vida tem um começo, e ela não poderia ter começado melhor ao cantar os sucessos dos irmãos George e Ira Gershwin.

A vida da criança e adolescente Ella foi marcada por tragédias. O pai foi embora de casa assim que ela nasceu, a mãe morreu quando ela tinha 15 anos e o padrasto sofreu um ataque cardíaco que lhe tirou a vida. Apesar de ter aprendido a se virar na rua fazendo pequenos trabalhos, como levar e pegar dinheiro de apostas ilegais da máfia, as perdas a mudaram completamente. A escola foi abandonada e o sorriso saiu de seu rosto, dando lugar a uma garota intempestiva. Ela chegou a ser presa e mandada a um reformatório, onde apanhava de quem deveria cuidar dela.

Mais discos dos anos 1950:
Discos para história: Charlie Parker with Strings, de Charlie Parker (1950)
Discos para história: Carinhoso, de Orlando Silva (1959)
Discos para história: Moanin' in the Moonlight, de Howlin' Wolf (1959)
Discos para história: Aracy de Almeida Apresenta Sambas de Noel Rosa, de Aracy de Almeida (1954)
Discos para história: The Genius of Ray Charles, de Ray Charles (1959)
Discos para história: Amor de Gente Moça, de Sylvia Telles (1959)

Mas no curto período em que teve um lar, ela aproveitou bastante também. Brincava na rua, principalmente de beisebol, e em casa passava a maior parte do tempo cantando os sucessos de Louis Armstrong, Bing Crosby, Connee Boswell e The Boswell Sisters, os grandes nomes da música popular à época, além de também cantar na Bethany African Methodist Episcopal Church, igreja metodista que os pais dela frequentaram. Essas duas vidas deram a Ella a força o suficiente para passar sozinha pela Grande Depressão ao mesmo tempo em que alimentava o sonho de cantar.

Em 1934, a jovem cantora amadora foi conseguiu entrar no sorteio semanal no Apollo Theater e ela ganhou a oportunidade de competir na Noite Amadora de canto, uma ótima oportunidade para qualquer um chamar a atenção. Depois de um número de dança, Ella ficou nervosa e travou, e isso deixou a plateia agitada, já que também pensava em fazer o mesmo. Foi quando ela pediu para a banda tocar "Judy", de Hoagy Carmichael, música que ela conhecia a versão de Connee Boswell, uma das preferidas da falecida mãe. O público ficou tão impressionado, que ela precisou improvisar e cantar "The Object of My Affections", das Boswell Sister.


Naquela dia, o saxofonista e arranjador Benny Carter a viu de perto e acreditou nela ao encorajá-la na carreira. Ele começou a apresentá-la a gente que poderia ajudá-la a dar os primeiros passos profissionais, tanto que ela passou a vencer todo e qualquer concurso de canto pelos Estados Unidos. Em 1935, ela conseguiu uma semana de trabalho com o pianista e cantor Tiny Bradshaw, tempo suficiente para impressionar o baterista Chick Webb, que a convidou para uma apresentação na Universidade de Yale. Ela conseguiu ser contratada e, depois do declínio da saúde de Webb, liderou a banda até sair para a carreira solo.

Veja também:
Discos para história: Stories from the City, Stories from the Sea, de PJ Harvey (2000)
Discos para história: Elvis Is Back, de Elvis Presley (1960)
Discos para história: Closer, do Joy Division (1980)
Discos para história: Violator, do Depeche Mode (1990)
Discos para história: Close to You, dos Carpenters (1970)
Discos para história: Noel Rosa na Voz Romântica de Nelson Gonçalves, de Nelson Gonçalves (1955)


Contratada pela Decca no meio dos anos 1940, ela gravou discos de sucesso com Ink Spots, Louis Jordan e The Delta Rhythm Boys, e também fez trabalhos para Norman Granz na coletânea de shows chamada "Jazz at the Philharmonic". Nesse período, ela começou a migrar de uma cantora pop para o jazz, principalmente durante a turnê com Dizzy Gillespie -- quando adotou definitivamente o bebop como um estilo para explorar no palco. O final dos anos 1940 consagrou Fitzgerald como cantora de jazz.

Disso, veio o convite para gravar os sucessos da dupla George e Ira Gershwin. a Série "Songbooks" foi um material de bastante sucesso entre o final dos anos 1930 até meados dos anos 1950. O período acabou coincidindo com o sucesso do LP de 10 polegadas, gerando uma nova onda de gravações de repertórios históricos e/ou sem uma gravação mais adequada. As oito músicas foram gravadas em dois dias e, além da cantora, apenas o renomado pianista Ellis Larkins participou da sessão.

O curto trabalho acabou sendo a confirmação de que Ella Fitzgerald, aos 33 anos, estava mais do que pronta para o estrelado. E foi exatamente o que aconteceu nos anos seguintes, quando ela foi consagrada uma das maiores estrelas do jazz de todos os tempos.



Resenha de "Ella Sings Gershwin"

Os irmãos George e Ira Gershwin são dois dos compositores históricos da música americana. A influência deles na música foi por pouco tempo, já que George morreu em 1937, aos 38 anos, mas é aquele negócio do legado para a eternidade. Então, Ella Fitzgerald abrir a carreira em uma gravadora de ponta como a Decca com esse repertório era muito significativo para ela e para a história da música.

O repertório é composto por alguns dos maiores sucessos da dupla, que trabalhou na Broadway e em composições clássicas. Algumas das músicas acabaram virando clássicos através da interpretação de outros artistas, como é o caso de "Ella Sings Gershwin". A cantora tem uma facilidade imensa para cantar as letras simples, mas muito profundas.



Também é para exaltar o trabalho do pianista Ellis Larkins em acompanhá-la. Sem ultrapassá-la ou soar apressado, ele faz o trabalho dele na medida certa em todos os aspectos. Os arranjos também são algo a parte, funcionando em perfeita harmonia com a voz. É um disco que não é, apesar de curto, apressado. Ao contrário, ouvi-lo funciona como uma passagem para uma máquina do tempo para outra época em tempos bem diferentes -- nem melhor, nem pior.

Se é para destacar uma canção em especial, talvez "I've Got a Crush on You" fique com o prêmio de melhor do trabalho. Por quê? A faixa é considerada uma espécie de tesouro do jazz daquela época e a interpretação de Ella Fitzgerald está entre as melhores -- ao lado de Frank Sinatra e Sarah Vaughan (tá bom, né?).

O primeiro álbum de uma carreira tão longa é algo inesquecível. E poucas pessoas se apropriaram de um repertório como Ella Fitzgerald fez com as canções dos irmãos Gershwin. Disso, quase uma década depois, ela lançaria um álbum ainda mais completo do repertório deles.



Ficha técnica

Tracklist:

Lado A

1 - "Someone to Watch Over Me" (3:13)
2 - "My One and Only" (3:13)
3 - "But Not for Me" (3:12)
4 - "Looking for a Boy" (3:06)

Lado B

1 - "I've Got a Crush on You" (3:13)
2 - "How Long Has This Been Going On?" (3:14)
3 - "Maybe" (3:21)
4 - "Soon" (2:44)

Todas as canções foram compostas por George Gershwin e Ira Gershwin.

Gravadora: Decca
Produção: Milt Gabler
Duração: 25min16s

Ella Fitzgerald: vocal
Ellis Larkins: piano



Continue no blog:


Siga o blog no Twitter e no Facebook e assine o canal no YouTube. Compre livros na Amazon e fortaleça o trabalho do blog!

Gostou do post? Compartilhe nas redes sociais e indique o blog aos amigos!