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sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Discos para história: Hybrid Theory, do Linkin Park (2000)


História do disco

Quando se é adulto, é muito difícil acreditar que somos parte da história ao ver algo grande acontecer. Isso é ainda mais difícil na adolescência, quando o tempo é só um detalhe e saber de tudo é o ponto de partida para qualquer assunto. Em 24 de outubro de 2000, quase ninguém sabia, mas o Linkin Park entraria com tudo na história da música com o lançamento do primeiro álbum cheio, chamado "Hybrid Theory".

Se hoje, Billie Eilish, Twenty One Pilots, Bring Me The Horizon, outras bandas e artistas podem explorar com propriedade a mistura de gêneros e pesar a mão nos instrumentos, nos arranjos e na ideia, eles devem muito ao disco de estreia do Linkin Park. O que hoje é comum, há 20 anos era apenas uma ideia que Mike Shinoda, Chester Bennington, Rob Bourdon, Brad Delson, Dave Farrell e Joe Hahn colocaram em prática. Já existia uma mistura de rap com rock há muitos anos, mas toda nova geração precisa de algo para chamar de seu. Assim, a fúria da banda californiana chamou a atenção de muita gente à época, antes mesmo do lançamento do trabalho.

Mas o caminho não foi fácil. Tal qual Cafu, ex-lateral-direito da seleção brasileira, sendo recusado em 11 peneiras, o Linkin Park fez 45 audições e foi recusado em todas elas. Só quando Jeff Blue, um antigo entusiasta e incentivador, foi alçado ao cargo de vice-presidente da gravadora Warner é que eles tiveram uma oportunidade de mostrar do que eram capazes. O problema era que ninguém via potencial nesse estilo e nessa mistura de gêneros que a banda fazia tão bem e que encantava uma massa crescente de jovens pelo mundo. A intenção da gravadora era demitir Shinoda e deixar apenas Bennington como vocalista, algo recusado pela banda. E é Shinoda que faz um balanço sobre a pressão pelo sucesso sofrida por eles.

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"Elas só parecem grandes canções agora. No estúdio, havia muita ansiedade para acertar. As expectativas como uma banda estavam crescendo muito rapidamente. Éramos apenas crianças que deveriam ser as estrelas de grandes festivais com 40 minutos de música. A pressão era imensa", contou ele em entrevista à 'NME'.

Delson e Shinoda eram amigos de infância, e o futuro vocalista era uma espécie de gênio precoce da produção ao sempre conseguir improvisar efeitos com aparelhos de segunda mão que tinha. Com o baterista Rob Bourdon, eles formaram o Xero com o DJ Joe Hahn, Dave ‘Phoenix’ Pharrell no baixo e vocalista Mark Wakefield, que saiu pouco tempo depois por não ver potencial no grupo no longo prazo. Foi nesse momento que Bennington entrou e a história estava sendo escrita.

Quando ele chegou, após um teste impressionar Blue, a banda mudou de nome para... Hybrid Theory. Por muito pouco o álbum de estreia não seria também o nome deles, mas já existia um grupo com esse nome e eles precisaram mudar mais uma vez. Vários nomes foram sugeridos até Bennington, inspirado pelo Lincoln Park, em Santa Monica, aparecer com Linkin Park -- algo que não significa nada. Não só se mostrou um bom nome, como diferia de tudo que estava fazendo sucesso.

O trabalho para gravação do álbum começou em março de 2000, quando a amizade de Shinoda e Bennington estava fortalecida após o segundo defender o primeiro em uma reunião na gravadora. O trabalho de Shinoda na demos não seria aproveitado no trabalho, já que as letras que Bennington sobre as experiências com drogas, divórcio dos pais e vício em álcool eram fortes, profundas e sombrias. Com os arranjos certos e participação de todos, o novo material seria praticamente desenvolvido todo em estúdio.

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A prova do sucesso viria em momentos primordiais, sendo um deles pioneiro. O primeiro foi o acesso que algumas rádios tiveram a "One Step Closer", gerando burburinho entre os adolescentes para saber quem era essa banda; o segundo foi o clipe do single, um sucesso absoluto na MTV americana em qualquer faixa de horário; e o terceiro, esse o pioneiro, foi a banda abrir um chat no site oficial para conversar com os fãs antes ou depois de entrevistas ao vivo. Isso gerou aproximação e criou uma base gigantesca de pessoas que passaram a consumir tudo que vinha do Linkin Park.

Na quarta semana após o lançamento, "Hybrid Theory" havia vendido 500 mil cópias, mostrando o poderio desse novo fenômeno musical. Dois anos depois, o álbum ainda vendia 100 mil cópias por semana e, com esses números, virou o álbum de rock mais vendido do século XXI e a melhor estreia de uma banda desde "Appetite For Destruction" (1987), do Guns 'N' Roses.

O DJ John Hahn resume bem como muitos hoje adultos se identificaram com o primeiro álbum do Linkin Park. "Ver o impacto que o álbum teve nas pessoas como indivíduos, e como isso ecoou em diferentes lugares do mundo é um muito especial para nós. Isso nos permitiu saber que o que fazemos tem um impacto nas pessoas", disse.

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Resenha de "Hybrid Theory"

Um dos pontos a ser destacado no disco é a organização das músicas. Abrir com "Papercut" e "One Step Closer" foi uma estratégia muito acertada. Com essas canções tão fortes e cheias de energia logo de cara, era praticamente impossível não conquistar o público adolescente ávido por novidades musicais que dialogassem com ele de algum jeito.

As duas letras iniciais tem o mérito em conseguir mostrar o que tinha de especial no Linkin Park, essa mistura de hip-hop com rock (ou nu metal) com esse toque de juventude que faltava ao Korn ou ao Limp Bizkit, ao passo que "With You" apresenta uma guitarra mais pesada e o lado do rap mais presente com maior peso de Mike Shinoda nos vocais. É importante perceber que o ritmo do álbum demora a diminuir Depois das três iniciais, ainda vem "Points of Authority" e "Crawling", sendo essa última um grito de Chester Bennington sobre uma experiência pessoal muito parecida com a do personagem na música.

Dá para dividir o álbum em duas partes em que a primeira acaba em "Runaway", quando o ritmo diminui um pouco em comparação com as cinco primeiras. Aqui, muitas pessoas falam que a canção é "feita para adolescentes", mas é bom lembrar que Bennington escreveu as canções quando era... adolescente. Então, faz sentido as letras terem esse tom. E a segunda parte abre com "By Myself", quando Chester começa a abrir mais coração sobre os problemas de autoconfiança que teve na adolescência e o abuso de drogas.

Mas a grande música do álbum é o arrasa-quarteirão "In the End", provavelmente a canção mais famosa do Linkin Park até agora. Muita gente se identificava com a faixa na época do lançamento e, com a morte de Chester Bennington, ainda mais agora. E é mesmo uma balada, ao melhor estilo da banda, muito bonita.

A parte final perde um pouco em força, principalmente pela queda de qualidade nas canções abaixo das melhores, mas o resultado ainda é dos melhores em um dos discos de estreia mais importantes dos últimos anos. "Hybrid Theory" colocou o Linkin Park em outro patamar para uma geração de adolescentes que cantaram alto os grandes sucessos da banda.

Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Papercut" (3:04)
2 - "One Step Closer" (2:35)
3 - "With You" (Linkin Park/ Michael Simpson/ John King) (3:23)
4 - "Points of Authority" (3:20)
5 - "Crawling" (3:29)
6 - "Runaway" (Linkin Park / Mark Wakefield) (3:03)
7 - "By Myself" (3:09)
8 - "In the End" (3:36)
9 - "A Place for My Head" (Linkin Park/ Wakefield/ Dave Farrell) (3:04)
10 - "Forgotten" (Linkin Park/ Wakefield/ Farrell) (3:14)
11 - "Cure for the Itch" (2:37)
12 - "Pushing Me Away" (3:11)

Todas as canções foram compostas pelo Linkin Park, exceto as marcadas

Gravadora: Warner Bros.
Produção: Don Gilmore
Duração: 37min45s

Chester Bennington: vocal
Mike Shinoda: vocal, batidas e samples
Brad Delson: guitarra, violão e baixo
DJ Joe Hahn: mesa de som, samples e improvisos
Rob Bourdon: bateria e percussão

Convidados:

Ian Hornbeck: baixo em "Papercut", "A Place for My Head" e "Forgotten"
Scott Koziol: baixo em "One Step Closer"

Produção:

Don Gilmore: engenheiro de som
Steve Sisco: engenheiro de som
John Ewing Jr.: engenheiro de som assistente e Pro Tools
Matt Griffin: engenheiro de som assistente
Andy Wallace: mixagem
Brian Gardner: masterização e edição digital
Jeff Blue: produtor executivo

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