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sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Discos para história: São Paulo Confessions, de Suba (2000)


História do disco

Muito antes de a globalização chegar com tudo e limitar as fronteiras apenas em marcações determinadas por acordos políticos muitos anos atrás, o produtor iugoslavo Mitar Subotić chegou ao Brasil e estudou os ritmos brasileiros graças a uma bolsa de estudos dada pela UNESCO. E ele adorou tanto essa loucura de lugar, principalmente São Paulo, que fixou residência por aqui. E, claro, como bom brasileiro (ou quase todos) acabou ficando conhecido por um apelido.

Suba foi conhecendo a cultura brasileira e entrou de cabeça nesse universo. Ele não chegou ao País completamente cru, já que tinha experiência como músico em sua terra natal ao ser um DJ pioneiro ao fundir ritmos locais com música eletrônica, além da formação erudita ao estudar em conservatórios de música na Europa. Aqui, trabalhou com Taciana Amaral, Kiko Zambianchi, Edgard Scandurra, Dinho Ouro Preto, Marina Lima, Arnaldo Antunes, Daniela Mercury, Edson Cordeiro, grupo Mestre Ambrósio e Bebel Gilberto, cantora que foi a última a gravar com ele.

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Seus grandes trunfos era usar sua experiência para conseguir transformar determinado artista sem tirar suas principais características e, ao mesmo tempo, em que conseguia transitar em diversos lugares sem o menor problema -- o eclético leque, e aqui sem a falsa modéstia de quem diz "ouvir de tudo", de bandas, cantores e cantores com os quais trabalhou em menos de uma década morando no Brasil mostra bem isso.

Ele estava crescendo na cena local e "São Paulo Confessions" era o primeiro trabalho solo com uma assinatura própria, após anos e anos de estudos e experimentos, finalmente Suba estava pronto para gravar e lançar um material autoral ao ponto de, até hoje, ser influente por conseguir ser exatamente quem o produtor era: adaptável e disposto a nos mostrar como nossa música pode e deve ser melhor, mais mundial e menos caricata do veio a ser do início dos anos 1980 até hoje.

Os últimos dias de vida de Suba estavam uma loucura. Ele havia acabado de lançar pelo selo belga Crammed a estreia em estúdio, estava trabalhando com Bebel Gilberto no que viria a ser "Tudo Tanto" (2000), o retorno após nove anos sem gravar - considerado por muitos até hoje o melhor trabalho da carreira da cantora até hoje - e tinha sido procurado por Daniela Mercury para ser o arranjador de um futuro novo disco. O futuro era promissor. E muitos o apontavam como a chave para levar a música pop brasileira para fazer voos mais altos, principalmente na Europa. Uma turnê já estava agendada.

Veja também:
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Tristemente, o produtor morreu poucos dias depois do lançamento de "São Paulo Confessions", em um incêndio na casa onde morava. Foi tão repentino que a edição nacional do álbum só saiu em 2000, mais de um ano após o lançamento na Bélgica. Suba estava sendo bastante elogiado por conseguir misturar os mais variados ritmos brasileiros com a música eletrônica, formando algo único e original naquela época.

Tão inovador que acabou entrando em "1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer". Um produtor iugoslavo e radicado no Brasil conseguiu furar todas as bolhas que poderiam impedir seu trabalho de aparecer. Sem ser maior do que suas obras, ele mostrava-se cuidadoso em entregar um produto de qualidade acima de qualquer coisa. "O seu legado (...) será sempre lembrado por ajudar a música brasileira a chegar ao século XX", diz o final da resenha no no icônico livro. O pouco que Suba fez foi muito. E é eterno.



Resenha de "São Paulo Confessions"

Saber misturar elementos ao ponto de fazer o ouvinte encarar tudo como uma coisa só uma arte que poucos dominam. Suba a dominava muito bem ao aliar o conhecimento teórico com o prático. Iniciar um trabalho com "Tantos Desejos", o primeiro de dois momento em que a cantora Taciana brilha, é incrível. Afinal, é eletrônico, é pop, é manguebeat, é o quê? É tudo isso junto funcionando em perfeita harmonia.

Uma característica de "São Paulo Confessions" é que, quando parece ganhar rumo nos primeiros minutos de música, uma virada acontece transformando aquele começou em um adereço da sequência. "Você Gosta" surge como eletrônica, ganha tons de MPB e ainda tem um tambor que a transforma em algo dançante e melancólico ao mesmo tempo.



Suba também aproveita os momentos sem vocalista convidado para se aprofundar ainda mais na temática do álbum. Morar em São Paulo, como em toda cidade gigantesca, é ótimo por vários motivos e é péssimo por outros motivos também. A felicidade e a melancolia caminham lado a lado como duas personalidades prontas para tomar conta de um corpo a qualquer minuto. Parece que a metrópole do produtor estava mais perto da segunda do que da primeira, apesar de a felicidade ter seus momentos. A cidade é a mesma para muta gente, mas as visões sobre e como ela é serão sempre diferentes, independentemente da época. Talvez seja isso que torne São Paulo fascinante e aterrorizante ao mesmo tempo.

"São Paulo Confessions" é desses álbum que tem de tudo, fala sobre muita coisa e ainda consegue ter uma cara própria. Ainda que fosse o primeiro álbum de Suba, a experiência como DJ, produtor e pesquisador o ajudou muito no desenrolar das músicas. Não tem sobras ou pontos soltos. Em pouco mais de uma hora, ele, com uma ajudinha dos amigos, fez seu sua estreia um momento único. Uma pena que ele não viu o resultado disso.



Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Tantos Desejos" (Suba / Taciana) (4:27)
2 - "Você Gosta" (Suba / Taciana) (4:20)
3 - "Na Neblina" (4:43)
4 - "Segredo" (Suba / Kátia B.) (4:03)
5 - "Antropófagos" (6:22)
6 - "Felicidade" (Tom Jobim / Vinicius de Moraes) (4:21)
7 - "Um Dia Comum (Em SP)" (4:59)
8 - "Sereia" (Suba / Béco / Cibelle) (6:00)
9 - "Samba Do Gringo Paulista" (4:49)
10 - "Abraço" (Suba / Arnaldo Antunes) (5:05)
11 - "Pecados Da Madrugada" (5:05)
12 - "A Noite Sem Fim" (7:02)

Todas as faixas foram compostas por Suba, exceto as marcadas.

Gravadora: Ziriguiboom
Produção: Suba
Duração: 61min16s

Suba: piano, sintetizadores e arranjos

Andre Geraissati: violão em "A Noite Sem Fim"
Edgard Scandurra: guitarra em "Abraço"
Roberto Frejat: guitarra em "Samba do Gringo Paulista"
Kuaker: guitarra em "Dia Comum (Em SP)"
João Parahyba: percussão
Mestre Ambrósio: percussão em "Antropófagos"
Arnaldo Antunes: vocal em "Abraço"
Cibelle: vocal em "Tantos Desejos", "Felicidade" e "Sereia"
Joanna Jones: vocal em "Abraço"
Katia B.: vocal em "Segredo"
Antoine Midani: mixagem da faixa "Você Gosta"



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