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sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Discos para história: Kid A, do Radiohead (2000)


História do disco

Quando as pessoas escutam o primeiro e o último disco do Radiohead em sequência, é possível que haja alguma confusão mental quase imediata. Afinal, como aquela banda se transformou nessa banda, e ainda segue em mutação após todos esses anos? Como tudo tem um início, talvez a celebração pelos 20 anos de "Kid A" ajude a entender um pouco essa mudança brutal em quase três décadas.

Thom Yorke havia sido aclamado pelo trabalho em "Ok Computer", um dos discos mais importantes dos anos 1990. Mas ele estava chateado, profissionalmente falando. Ele sentia que estava sendo usado como instrumento de uma indústria milionária que poderia largá-lo a qualquer momento após o primeiro fracasso. Ele não queria isso.

"Eu sempre usei a música como uma maneira lidar com as coisas, e eu meio que senti que a coisa que me ajudou foi vendida pelo maior lance. Eu estava simplesmente cumprindo ordens. E eu poderia lidar com isso", disse Thom Yorke, ao jornal britânico 'The Guardian', em 2000.

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A pressão pelo sucessor de um trabalho considerado genial era imensa por parte de público e crítica. Estavam esperando algo tão glorioso ou ainda melhor. Mas Yorke estava sofrendo bloqueios terríveis na hora de desenvolver o material que tinha em mãos. Eram centenas de pequenos fragmentos de música que apenas serviam para acumular espaço em aparelhos, computadores e malas.

"Quando terminamos a turnê do 'OK Computer', tive uma espécie de bloqueio. Basicamente, pensei que fosse isso. Pensei que não seria capaz de fazer tudo o que fazia novamente. Ainda estávamos trabalhando, mas eu não tinha fé nisso. Então, estava neste ciclo interminável e muito sozinho também, porque não nos víamos há muito tempo. E estava fazendo pedaços [de músicas], mexendo muito. Mas estava descobrindo que havia perdido toda a confiança em mim mesmo", continuou ele ao diário.

Foi com esse clima a reunião de retorno do grupo ao trabalho do então próximo álbum. Assim como Yorke, o resto da banda também estava trabalhando em material. Quando eles se juntaram, perceberam que cada um tinha uma ideia diferente após o grande sucesso. Se as matérias e comentários da imprensa especializada falavam de como o Radiohead era um esforço coletivo dos integrantes sem vaidades musicais, a reunião de retorno não mostrava nada disso. E a coisa só ia piorar.

Com seis pessoas trabalhando em um álbum, é natural ter discordâncias no processo de maturação de uma obra até chegar em um resultado que agrade -- e muitas vezes não agrada anos depois do lançamento. Mas o que aconteceu com o Radiohead quase levou ao fim das atividades. Yorke estava cada vez mais distante emocionalmente e as gravações em Paris, na França, e em Copenhague, na Dinamarca, foram desastrosas pela falta de consenso em chegar em algum resultado mínimo para seguir. Não havia nenhum material pronto para ser um ponto de partida ou um esboço.

Yorke não queria mais ser um refém da guitarra e das estruturas do rock que fizeram do Radiohead uma das grandes bandas dos anos 1990. Ele queria avançar, mas como fazer isso sem os guitarristas Jonny Greenwood e Ed O'Brien? Ou como pontuou o baixista Colin Greenwood, o medo era levar o grupo para "algum absurdo de um art-rock horrível". O que fazer? Como avançar o sinal?

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Foi a gravação de "Everything in Its Right Place" o ponto de virada. Quando Yorke e o produtor Nigel Godrich usaram um sintetizador na balada feita no piano, Greenwood, o guitarrista, usou um Kaoss Pad nos efeitos de voz e gostou do resultado. E não só ele, o resto a banda acabou seduzida com a ideia de explorar novas formas musicais sem abandonar os instrumentos que os consagraram. Acrescentar novos elementos musicais era a chave, não mudar completamente para um "art-rock horrível".

Lançado em 2 de outubro de 2000, "Kid A" dividiu o público e a crítica, apesar de ter estreado no primeiro lugar nas paradas britânica e americana. Muita gente amou; muita gente odiou; muita gente não entendeu; e muita gente segue sem entender ainda hoje. Fato é que o quarto álbum de estúdio foi a virada na carreira de cinco rapazes ingleses que estavam no auge das carreiras e não tiveram medo de trocar a certeza do sucesso com um repertório fácil pelo desejo de avançar musicalmente. E eles só avançaram a partir desse ponto.

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Resenha de "Kid A"

"Everything in Its Right Place" abre o disco mostrando ao mundo uma mudança significativa com relação ao trabalho anterior, como, por exemplo, uma nova abordagem nas letras por parte de Yorke. Bloqueio criativo por cansaço o fez experimentar escrever de outro jeito e a testar mais em estúdio, gerando um resultado bem diferente do esperado por público e crítica. E a coisa fica ainda mais "estranha" na faixa-título, quando parece que a banda resolveu chutar o pau da barraca e desagradar todo e qualquer fã.

Como existiam apenas fragmentos de composições, o trabalho do Radiohead foi feito em cima disso e dos experimentos em estúdio. Um dos casos emblemáticos é "The National Anthem", música quase lançada como lado B de singles ao longo dos anos, que acabou ganhando um tratamento especial em "Kid A". Cheia de samplers, uma linha de baixo pesada na abertura, um conjunto de metais e cheia de efeitos, virou algo completamente diferente do esperado.

Considerada a melhor composição da banda segundo Yorke, "How to Disappear Completely" reflete bem o estado de espírito dele com relação ao mundo naquele momento. O título vem do livro "How to Disappear Completely and Never Be Found", de Doug Richmond, um guia sobre como fingir a morte e estabelecer uma nova identidade, algo que o músico gostaria de ter feito após o sucesso mundial de "Ok Computer" e uma extenuante turnê. Depois vem a instrumental "Treefingers", um interlúdio para dividir o disco em duas partes e um descanso para o ouvinte após uma faixa tão pesada quanto a anterior.

Uma das faixas mais famosas do álbum, "Optimistic" é dividida em duas partes: uma gananciosa e outra mais otimista. É uma das poucas menos experimentais e com discurso mais direto -- poderia ter feito parte de "Ok Computer", por exemplo. Tudo retorna ao "normal" do álbum em "In Limbo", quando, aparentemente, Yorke fala sobre o bloqueio que o impediu de escrever músicas -- o limbo é descrito em "O Inferno", de Dante Alighieri, como o primeiro círculo do inferno destinado aos pagãos, que viveriam em uma espécie de não-lugar pelo resto de seus dias.

"Idioteque" surge como uma fina ironia para quem vive dançando e se divertindo enquanto o mundo está sendo destruído. É uma das melhores canções da banda por justamente ir ao limite desse lado experimental para falar de um assunto muito sério. E se há várias interpretações para a viagem feita em "Morning Bell" --, inclusive ser sobre um divórcio, "Motion Picture Soundtrack" é destroçante do início até o final. Em um dia ruim, te fará chorar litros -- seja pelo arranjo, seja por Yorke dizer "I will see you in the next life".

Quando se faz parte de uma banda de rock, é quase proibitivo gostar de outras coisas que não rock. "Como assim você gosta de James Brown?" ou "como assim você gosta de jazz?". "Kid A" serviu para potencializar toda gama de influências individuais que ajudaram o Radiohead a formar uma grande força coletiva. De Neu a Miles Davis, de Björk a Aphex Twin, de Charles Mingus a Krzysztof Penderecki, eles estavam livres do rótulo "banda de rock" para virar uma espécie de coletivo experimental que toca "Creep" no bis.

Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Everything in Its Right Place" (4:11)
2 - "Kid A" (4:44)
3 - "The National Anthem" (5:51)
4 - "How to Disappear Completely" (5:56)
5 - "Treefingers" (3:42)
6 - "Optimistic" (5:15)
7 - "In Limbo" (3:31)
8 - "Idioteque" (Radiohead, Paul Lansky, Arthur Kreiger) (5:09)
9 - "Morning Bell" (4:35)
10 - "Motion Picture Soundtrack" (song ends at 3:17; includes an untitled hidden track from 4:17 until 5:12, followed by 1:44 of silence) (7:00)

Todas as músicas foram compostas por Colin Greenwood, Jonny Greenwood, Ed O'Brien, Philip Selway e Thom Yorke, execto a marcada

Gravadora: Parlophone/Capitol
Produção: Nigel Godrich e Radiohead
Duração: 47min11s

Nigel Godrich: engeheiro de som e mixagem
Radiohead: todos os instrumentos e vozes
Gerard Navarro: assistente de produção e engenheiro de som
Graeme Stewart: engenheiro de som Chris Blair: masterização

Convidados:

Orchestra of St John's: conjunto de cordas
John Lubbock: maestro

Instrumentos de sopro em "The National Anthem":
Andy Bush: trompete
Steve Hamilton e Martin Hathaway: saxofone alto
Andy Hamilton e Mark Lockheart: saxofone tenor
Stan Harrison: saxofone barítono
Liam Kerkman: trombone
Mike Kearsey: trombone baixo
Henry Binns: sampler

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