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sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Discos para história: Carinhoso, de Orlando Silva (1959)


História do disco

Orlando Silva foi um dos grandes astros da música popular brasileira no início do século 20. Não foi de graça a homenagem feita ainda vida quando passou a ser conhecido como o "Cantor das Multidões". A voz bem postada para falar cada sílaba das canções o ajudou muito a ficar popular no início da carreira em meados da década de 1930. Ele contou com ajuda de ninguém menos do que Francisco Alves (1898-1952), o "Rei da Voz". Uma vez apresentado, Silva impressionou e logo foi colocado no ar no programa de rádio comandado por Alves. Daí em diante, a carreira decolou.

Filho de Balbina Garcia e José Celestino da Silva, Orlando Silva nasceu no Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, em 3 de outubro de 1915. Perdeu o pai músico aos três anos e, dos cinco irmãos, foi o único que seguiu a carreira musical. Sempre cantou e desde cedo era conhecido por "aquele menino que se apresentava". Para sobreviver antes da música, ele foi sapateiro, vendedor de tecidos, mensageiro e contínuo -- conhecido atualmente como office boy. Certo dia, sofreu um acidente e perdeu parcialmente um dos pés. Os biógrafos do cantor afirmam que, desse dia em diante, ele começou a tomar morfina todos os dias para aguentar a dor, e isso ajudaria a deteriorar a voz e o físico no futuro.

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Quando impressionou Francisco Alves, a carreira decolou e logo assinou um contrato com a gravadora RCA Victor em 1935. No ano seguinte, devido ao repentino sucesso, a Rádio Nacional propôs a ele um contrato exclusivo para um programa só dele. Foi a primeira vez que a então maior rádio de alcance nacional teria um programa comandado por um cantor popular. Depois disso, ele atingiu números impressionantes para os padrões da época, sendo o primeiro grande ídolo da história da música brasileira. Foi a partir desse momento que ficou conhecido como "Cantor da Multidões" e "Maior Voz do Brasil", título que muitos afirmam que ele mantém até os dias de hoje.

Uma marca no currículo do cantor foi ser o primeiro a gravar "Carinhoso", de Pixinguinha coescrito com João de Barro. A música é uma das mais famosas canções brasileiras do início do século 20, sendo um clássico incontestável do período. De 1937 até 1942, Orlando Silva foi um verdadeiro fenômeno de público e crítica, se apresentando para milhares de pessoas por onde passava.

O cantor foi um dos primeiros da então nova geração a fazer sucesso. Ele deu um pouco de sorte já que, além do talento, o estrelato veio ao arrepio do início do uso do microfone. Até então, gente do calibre de Vicente Celestino e Chico Alves dependia muito mais da potencia da voz do que qualquer outra coisa. Orlando Silva chegou e mudou o jogo -- é difícil até mesmo perceber a parte em que ele respira na música.

O pesquisador Ricardo Cravo Albin, responsável pelo Instituto Cravo Albin, revelou em matéria da 'Folha de S. Paulo' para celebrar o centenário de Silva, conta que o cantor foi o primeiro a fazer sucesso apenas pelo talento. A beleza, se comparada com outros astros do rádio, não era das melhores. "Vicente Celestino, Chico Alves, Silvio Caldas -- eram todos galãs. Orlando era um homem feio, que enfeitiçou o público pela magia da sua voz", contou.

O final turbulento de um relacionamento levou o cantor a mergulhar no alcoolismo e no uso da morfina, levando a um deterioramento das cordas vocais e dos dentes. A partir de 1943, a carreira não seria mais a mesma. Ele rompeu com a RCA e foi para Odeon, gravadora em que não conseguiu chamar atenção. Dois anos depois, deixaria a Rádio Nacional, lugar em que retornaria quase uma década depois para ficar com título de "Rei do Rádio" -- um último suspiro de uma carreira que entraria de vez em declínio com o nascimento da Bossa Nova e a mudança de gosto musical por parte da nova geração.

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O LP "Carinhoso", lançado em 1959, faz parte das comemorações dos 25 anos de carreira do intérprete. A gravadora conseguiu fazer uma boa compilação das melhores gravações feitas entre 1935 e 1943. Silva, então na Odeon, foi cedido à RCA para participar da escolha e da divulgação do trabalho. Ambos retomariam a parceria para conseguiu certo sucesso comercial e de crítica, mas nada comparado com o auge.

Morto em 1978, vítima de acidente vascular cerebral, ele deixou para sempre o nome cravado na história da música brasileira. Mesmo com um auge breve, Orlando Silva fez o suficiente para ter para sempre o título de "Maior Cantor do Brasil". E ninguém vai superá-lo jamais.


Resenha de "Carinhoso"

O álbum abre com a faixa-título, uma das músicas mais bonitas já escritas em língua portuguesa. A curta letra é complementada por um arranjo espetacular por parte da banda da RCA, que ajuda a colocar o ouvinte em um clima que não existe mais na música brasileira. Uma das grandes músicas do que ficou conhecido como "música de fossa", "Lágrimas" é muito melancólica ("Sim, quem nunca chorou/ Certo nunca amou/ Talvez nem alma tenha para sentir/ Não me faz inveja este prazer").

Mantendo o ritmo da canção anterior, "Mágoas de Caboclo" é toda acompanhada por um violão discreto para destacar o vocal quase choroso de Orlando Silva -- que fala palavra por palavra, parece ter a intenção de atingir o ouvinte no mais fundo da alma. E em "Amigo Leal" ele se despede de um amigo e revela o motivo: decepção amorosa. O final do lado A mostra a triste "Súplica" e a declaração de amor "Rosa", a segunda de duas canções escritas por Pixinguinha.


A segunda parte do LP começa com "Lábios Que Beijei" e com tanta dor após o rompimento, que ele ficou com dor nos olhos de tanto chorar. Depois de destacar bastante a voz do cantor, o instrumental ganha bastante força em "Juramento Falso", enquanto em "Aliança Partida" fala sobre a morte da mulher amada ("E hoje talvez, por sentir a tua ausência/ Teve uma transformação/ Se transformou na cruel residência/ Da minha desilusão").



Uma das faixas mais regravadas do período é "Aos Pés Da Cruz", que aqui ganha um arranjo animado e até mesmo Orlando Silva se anima para cantar essa versão em samba. "Sinhá Maria" abre com o cantor falando que não reza mais e perder completamente a fé, mas encerra com ele retomando o diálogo com o pessoal lá de cima -- o arranjo dessa faixa é de chorar de lindo. Mas o disco encerra com a marchinha "A Jardineira", gravada e regravada milhares de vezes ao longo dos anos em diversas versões. É um bom encerramento.

Parece que Orlando Silva cantou o que aconteceria em sua vida quando estava no auge. E essa coletânea com seus maiores sucessos só prova como ele, no auge, era mesmo imbatível. Uma voz incomparável na música brasileira.



Ficha técnica

Tracklist:

Lado A

1 - "Carinhoso" (João De Barro/Pixinguinha)
2 - "Lágrimas" (Candido Das Neves (Índio))
3 - "Mágoas de Caboclo" (J. Cascata/Leonel Azevedo)
4 - "Amigo Leal" (Aldo Cabral/Benedito Lacerda)
5 - "Súplica" (Déo/José Marcilio/Octávio G. Mendes)
6 - "Rosa" (Pixinguinha)

Lado B

1 - "Lábios Que Beijei" (J. Cascata/Leonel Azevedo)
2 - "Juramento Falso" (J. Cascata/Leonel Azevedo)
3 - "Aliança Partida" (Benedito Lacerda/Roberto Martins)
4 - "Aos Pés Da Cruz" (Zé Gonçalves/Marino Pinto)
5 - "Sinhá Maria" (René Bettencourt)
6 - "A Jardineira" (Benedito Lacerda/Humberto Porto)

Gravadora: RCA Victor
Produção: -
Duração: 39 minutos

Orlando Silva: voz

Convidados:

Orquestra da RCA: instrumentos diversos



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