quinta-feira, 11 de abril de 2019

Discos para história: The Genius of Ray Charles, de Ray Charles (1959)


História do disco

Ray Charles já era um veterano do circuito da música negra nos Estados Unidos quando começou a fazer sucesso nacional ao entrar nas paradas. Quando foi contratado por Ahmet Ertegun, era uma aposta e tanto dele e da Atlantic. Foi um estouro com sua mistura infalível de gospel com R&B -- e um escândalo, obviamente, como pudemos ver na cinebiografia "Ray" (2004).

A música "What'd I Say" mostrou ao país como aquele homem cego e negro sabia mais sobre música do que muita gente. Foi o primeiro top 10 da carreira dele, um marco e tanto para quem estava restrito ao circuito de música do Sul dos Estados Unidos. A demanda cresceu por apresentações cresceu e o público também. Nisso, em 1959, o contrato com a gravadora estava chegando ao fim. Mas ele ainda entregaria mais três discos antes de sair para ABC/Paramount.

Mais discos dos anos 1950:
Discos para história: The Atomic Mr. Basie, de Count Basie (1958)
Discos para história: Dance Mania, de Tito Puente (1958)
Discos para história: Luiz Gonzaga Canta Seus Sucessos com Zé Dantas, de Luiz Gonzaga (1959)
Discos para história: The "Chirping" Crickets, dos Crickets (1957)
Discos para história: Convite para Ouvir Maysa Nº2, de Maysa (1958)
Discos para história: Gunfighter Ballads and Trail Songs, de Marty Robbins (1959)

Foi um disco de jazz ("The Genius After Hours", 1961); um de blues ("The Genius Sings the Blues", 1961); e, ainda na gravadora, "The Genius of Ray Charles", o primeiro com tudo que o pianista desejava na estrutura da composição dos arranjos e na banda. Foi o primeiro LP com uma chamada 'Big Band', uma banda composta por mais de 20 músicos.

A Atlantic era uma gravadora pequena, longe da monstruosidade financeira dos tempos vindouros de ter Led Zeppelin e a distribuição dos discos dos Rolling Stones nos anos 1970. Enquanto eles ainda era jovens sonhadores em busca de espaço no meio musical, Ray Charles já era uma lenda formada. E cada vez mais exigente no estúdio na hora de gravar suas composições. Tanto estava exigente, que logo conseguiu não um, mas dois arranjadores. Quincy Jones e Ralph Burns foram os responsáveis, sendo o primeiro também maestro das músicas do lado A do LP.

Com apoio da gravadora, tudo ficou mais fácil. Charles escolheu fazer dois discos diferentes dentro de um só. O lado A traria a grandiosidade de ter uma Big Band, com músicos de Duke Ellington e Count Basie, liderada por David "Fathead" Newman. E a segunda traria seis baladas bem simples, quase como se ele quisesse mostrar que poderia cantar algo mais Frank Sinatra.

Veja também:
Discos para história: Com Você... Meu Mundo Ficaria Completo, de Cássia Eller (1999)
Discos para história: Rock 'n' Roll, de Erasmo Carlos (2009)
Discos para história: As Quatro Estações, do Legião Urbana (1989)
Discos para história: Gal Costa, de Gal Costa (1969)
Discos para história: Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira, de Moraes Moreira (1979)
Discos para história: Amor de Gente Moça, de Sylvia Telles (1959)


Era trabalho que Ray Charles sonhava desde a entrada na Atlantc. Como principal artista da casa, conseguiu o que mais desejava justamente no álbum com 'genius' no título. Poderia parecer presunção, mas era apenas a realidade. O vice-presidente da Atlantic Records, Jerry Wexler, revelou que o título ficou guardado na gaveta por dois anos até ficarem seguros para usá-lo sem remorso algum. O álbum ganhou o Grammy de 1960 nas categorias "Melhor Performance Vocal em Álbum Pop" e "Melhor Performance de Rhythm & Blues" por "Let The Good Times Roll".

Seria um dos últimos trabalhos dele para a Atlantic. Em novembro de 1959, ele foi contratado pela gravadora ABC. Lá, explodiu com o sucesso da regravação de "Georgia on My Mind".


Resenha de "The Genius of Ray Charles"

Ao abrir com "Let the Good Times Roll", Ray Charles mostra o motivo de desejar tanto uma Big Band para chamar de sua. A faixa animada consegue dar um belo pontapé inicial no trabalho, que continua com a balada cheia de pompa e circunstância "It Had to Be You". O tratamento dado a ela é coisa finíssima.

A terceira faixa, "Alexander's Ragtime Band", tem um ritmo bem dançante e apresenta um pianista pronto para colocar o pessoal para dançar com sua banda. Entre idas e vindas, o lado balada dele retorna com "Two Years of Torture" e sua letra melancólica sobre abandono -- é a maior do lado A com seus pouco mais de três minutos.


O arranjo de "When Your Lover Has Gone" deixou essa letra chorosa sobre solidão ainda mais triste, já "'Deed I Do" soa como uma continuação espiritual da anterior ao ter encontrado o amor da vida dele. Com exceção da quarta faixa, todas as outras têm menos de três minutos. Tudo funciona muito bem nessa primeira parte, quando o tamanho, sim, é documento ao mostrar a qualidade dos músicos. E Quincy Jones está espetacular como maestro.

A segunda parte começa com "Just for a Thrill", uma balada melancólica sobre ser tratado como um brinquedo por parte de outra pessoa -- e isso virar uma triste canção. Se "You Won't Let Me Go" fala na amada não deixá-lo ir embora, "Tell Me You'll Wait for Me" é sobre esperar o amado voltar para casa após um longo período longe. E "Don't Let the Sun Catch You Cryin'" dessas canções muito tristes, dessas de fazer pensar mesmo. A voz de Charles consegue traduzir muito bem o sentimento de injustiça que a letra passa.



O LP acaba com as duas das baladas mais tristes que já ouvi na vida: "Am I Blue?" e "Come Rain or Come Shine". Dentro da proposta do lado B, funcionam muito bem.

Antes mesmo do 30 anos, Ray Charles conseguiu chegar no topo do sucesso ao virar o principal nome da gravadora Atlantic. E a despedida foi em grande estilo, com um de seus trabalhos mais celebrados por mostrar a versatilidade dele em conseguir cantar qualquer coisa.



Ficha técnica

Tracklist:

Lado A

1 - "Let the Good Times Roll" (Sam Theard e Fleecie Moore) (2:53)
2 - "It Had to Be You" (Gus Kahn e Isham Jones) (2:45)
3 - "Alexander's Ragtime Band" (Irving Berlin) (2:53)
4 - "Two Years of Torture" (Percy Mayfield e Charles Joseph Morris) (3:25)
5 - "When Your Lover Has Gone" (Einar Aaron Swan) (2:51)
6 - "'Deed I Do" (Walter Hirsch e Fred Rose) (2:27)

Lado B

1 - "Just for a Thrill" (Lil Hardin Armstrong e Don Raye) (3:26)
2 - "You Won't Let Me Go" (Bud Allen e Buddy Johnson) (3:22)
3 - "Tell Me You'll Wait for Me" (Charles Brown e Oscar Moore) (3:25)
4 - "Don't Let the Sun Catch You Cryin'" (Joe Greene) (3:46)
5 - "Am I Blue?" (Grant Clarke e Harry Akst) (3:41)
6 - "Come Rain or Come Shine" (Johnny Mercer e Harold Arlen) (3:42)

Gravadora: Atlantic
Produção: Nesuhi Ertegün Jerry Wexler
Duração: 37min58

Ray Charles: piano e vocal

Convidados:

Lado A

Clark Terry, Ernie Royal, Joe Newman, Snooky Young, Marcus Belgrave e John Hunt: trompete
Melba Liston, Quentin Jackson, Thomas Mitchell e Al Gray: trombone
Frank Wess: flauta, saxofone alto e saxofone tenor
Marshal Royal: saxofone alto
Paul Gonsalves: saxofone tenor (solo em "Two Years of Torture")
Zoot Sims: saxofone tenor em "Let the Good Times Roll", "Alexander's Ragtime Band" e "'Deed I Do"
Billy Mitchell: saxofone tenor em "It had to be You", "Two Years of Torture" e "When Your Lover Has Gone"
David "Fathead" Newman: saxofone tenor (solo em "Let the Good Times Roll", "When Your Lover Has Gone" e "'Deed I Do")
Quincy Jones: arranjador e maestro

Lado B*

Allen Hanlon: guitarra
Wendell Marshall: baixo
Ted Sommer: bateria
Bob Brookmeyer: trombone
Harry Lookofsky: maestro
Ralph Burns: arranjador

*O conjunto de cordas dessa parte não foi creditado. Assim que souber os nomes certos, o post será atualizado.



Siga o blog no Twitter e no Facebook e assine o canal no YouTube. Compre livros na Amazon e fortaleça o trabalho do blog!

Saiba como ajudar o blog a continuar existindo

Gostou do post? Compartilhe nas redes sociais e indique o blog aos amigos!

Continue no blog: