quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Discos para história: I’m Your Man, de Leonard Cohen (1988)


Trabalho foi o retorno do cantor às paradas de sucesso

História do disco

Há 30 anos, Leonard Cohen (1934-2016) já era Leonard Cohen para público e crítica musical e literária. O poeta canadense iniciou a carreira na música perto dos 35 anos com o ótimo "Songs of Leonard Cohen" (1967) em que, logo de cara, trouxe dois de seus grandes sucessos "Suzanne" e "So Long, Marianne". Ao longo dos anos seguintes, ele usou o talento para falar dos mais diversos assuntos em canções profundas e marcantes.

Cohen ganhou fama por isso, mas também por sua voz grossa e pela interpretação de suas próprias letras – quase ninguém consegue cantar Cohen com esse mesmo nível. Ao conseguir manter esse lado poético em sua música, conseguiu atrair muita gente famosa que logo virou fã e muita gente que viria a ser famosa depois, como o caso de Patti Smith alguns anos depois.

Mais discos dos anos 1980:
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Ele já parecia querer diminuir o ritmo de sua produção, ainda mais depois de ter trabalhado com Phil Spector em “Death of a Ladies' Man” (1977) em que a aposta em arranjos grandiosos não gerou muita empolgação da crítica especializada. O cantor retornou ao que sabia fazer de melhor no mediano "Recent Songs" (1979), mas estava claro seu desejo de mudar de ares em "Various Positions" (1984). Depois dele, entre o sétimo e o oitavo disco de estúdio, veio o primeiro grande momento sem trabalho de inéditas, que só seria quebrado por duas sequências ainda maiores (1992-2001 e 2004-2012).

Cohen criou uma nova perspectiva para a carreira quando encontrou um teclado Cassio de decidiu brincar com o instrumento para ver no que dava. Nessa época, Cohen já não tinha o mesmo status de antes e estava quase esquecido. Mas acabou ganhando uma nova vida musical quando Jennifer Warnes, que havia trabalhado com ele como vocal de apoio em alguns discos e turnês, lançou o disco chamado "Famous Blue Raincoat: The Songs of Leonard Cohen" (1986). Foi o suficiente para apresentar Cohen a uma nova geração de fãs e retomar o entusiasmo dos mais antigos – provavelmente os pais dos mais novos.

Mas foi um tremendo choque quando “I’m Your Man” chegou às lojas. Era algo completamente diferente do normalmente apresentado por Cohen. Ele quis modernizar a sonoridade e, para isso, apostou no teclado e no sintetizador, instrumentos em voga nos anos 1980 – para o bem e para o mal. Para começar, o cantor convidou outros três produtores para ajudá-lo: Roscoe Beck, que havia trabalhado no disco de Warnes na mesma posição, o maestro Jean-Michel Reusser e o arranjador Michel Robidoux.

Veja também:
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A mudança também surgiu pela necessidade de acontecer alguma coisa que mexesse com as composições de Cohen. Traduzindo isso para algo mais próximo da linguagem do dia-a-dia: ele estava ficando sem ideias. Então, ao ligar o teclado naquelas batidas automáticas, ele ganhou uma nova gama de ritmos e elementos para escrever novas letras. Aos 54 anos, Cohen experimentava fazer algo fora do violão que o acompanhou, e o acompanharia, até o fim da carreira.

Gravado em Los Angeles e Montreal, o disco foi lançado em 2 de fevereiro de 1988 e foi consagrado como o grande retorno de Cohen à velha forma. Considerado um dos melhores discos da carreira do cantor, “I’m Your Man” vendeu mais de 2 milhões de cópias e chegou à sexta posição na parada britânica.


Resenha de “I’m Your Man”

A batida estranha realmente transporta o ouvinte para o longínquo ano de 1988, em que o sintetizador entrou na música para construir e destruir carreiras de músicos. Mas "First We Take Manhattan" ganha muito com isso ao conseguir fazer parte de uma construção de uma faixa que diz exatamente o que está escrito. No caso, sobre terrorismo. E o vocal de apoio dá uma força imensa para o conjunto, dando o ar sinistro e necessário que Cohen dá às suas composições.

A seguinte, "Ain't No Cure for Love", apareceu primeiro no disco de Jennifer Warnes lançado dois anos antes. Modificada por Cohen, retornou em “I’m Your Man” e é a típica canção de amor melancólica que o cantor declama com extrema maestria. Partindo para uma linha mais sombria no arranjo, "Everybody Knows" é a mais pura tragédia em forma de música ao conseguir falar de alguns dos principais problemas do mundo nos anos 1980. E na voz de Cohen ganha um tom ainda mais catastrófico, aumentado pela escolha dos instrumentos no arranjo.

Nome do disco, a canção “I’m Your Man” nasceu de uma pergunta feita pelo cantor a ele mesmo: o que uma mulher quer? Ao levar 20 anos para descobrir que não existe uma resposta pronta, escreveu e reescreveu a letra até conseguir falar que, na verdade, é o homem que se adapta (If you want a boxer/ I will step into the ring for you/ And if you want a doctor/ I'll examine every inch of you/ If you want a driver/ Climb inside/ Or if you want to take me for a ride/ You know you can/ I'm your man). E, claro, ele canta tudo isso com sua característica voz.



Para iniciar a segunda metade do álbum, "Take This Waltz" foi a escolhida. Letra é a tradução de Cohen para o poema do espanhol Federico García Lorca chamado “Pequeño Vals Vienés”. Morto em 1936 pela ditadura fascista espanhola, Garcia teve um tributo musical lançado em em 1986 no 50º aniversário do assassinato, quando Cohen foi convidado para colaborar. E ficou tão boa e tão Cohen, que o cantor a incluiu no disco. E merecidamente, porque é uma música de alto nível.

Dentre as oito canções do álbum, "Jazz Police" é a mais datada de todas. Foram quase dez anos da primeira ideia até a gravação, nascida para ser algo experimental e fragmentado em várias partes, como uma imensa obra de arte. O resultado? Algo estranho e completamente fora do repertório de Cohen, porém, caso ainda estivesse vivo, valeria uma releitura por parte do cantor.



Assim, tudo bem que a introdução de "I Can't Forget" lembra um pouco "I Just Called To Say I Love You", de Stevie Wonder, mas isso não tira o brilho da faixa ao trazer o melhor do cantor e de suas vocais de apoio. No encerramento, "Tower of Song" foi considerada por Cohen a única faixa “verdadeira” do álbum. E, realmente, essa letra parece ter vindo de algum lugar mágico mesmo.

O retorno de Leonard Cohen aos holofotes não poderia ter acontecido com disco melhor. Ao apostar em modernizar o som, ele não exagerou no tom – menos em uma faixa. No fim das contas, a volta gerou o retorno dele às paradas após uma década e um disco melhor do que os então últimos.



Ficha técnica

Tracklist:

1 - "First We Take Manhattan" (6:01)
2 - "Ain't No Cure for Love" (4:50)
3 - "Everybody Knows" (Cohen, Sharon Robinson) (5:36)
4 - "I'm Your Man" (4:28)
5 - "Take This Waltz" (Federico García Lorca, Cohen) (5:59)
6 - "Jazz Police" (Cohen, Jeff Fisher) (3:53)
7 - "I Can't Forget" (4:31)
8 - "Tower of Song" (5:37)

Todas as canções foram escritas por Leonard Cohen, exceto as marcadas

Gravadora: Columbia
Produção: Leonard Cohen, Roscoe Beck, Jean-Michel Reusser e Michel Robidoux
Duração: 41min40s

Leonard Cohen: teclado e vocal

Convidados:

Jude Johnstone, Anjani Thomas e Jennifer Warnes: vocal
Mayel Assouly, Evelyine Hebey e Elisabeth Valletti: vocal de apoio
Jeff Fisher: teclado
Bob Stanley: guitarra
Sneaky Pete Kleinow: guitarra pedal steel
Peter Kisilenko: baixo
Tom Brechtlein e Vinnie Colaiuta: bateria
Lenny Castro: percussão
Michel Robidoux: bateria e teclado
John Bilezikjian: oud
Richard Beaudet: saxofone
Raffi Hakopian: violino



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