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quinta-feira, 21 de março de 2019

Discos para história: As Quatro Estações, do Legião Urbana (1989)


Trabalho foi mudança de rumo nas composições da banda

História do disco*

O fenômeno Legião Urbana ainda é estudado e motivo para teses e livros até hoje, porque ainda é difícil entender o impacto da banda na formação dos jovens dos anos 1980, hoje pais e mães de adolescentes que gostam de K-Pop.

Estamos falando do grupo que, unindo as vendas dos três primeiros discos, estava se aproximando da marca de 1 milhão de álbuns vendidos. Era um fenômeno musical e, por que não, sócio-cultural. Gostar de Legião Urbana era manifestar-se contra tudo que a havia de errado e colocar a raiva para fora, e ainda com tempo de romantizar a vida difícil de um jovem nos anos 1980 que não sabia direito quanto o arroz custaria ao fim do dia.

Mais discos dos anos 1980:
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Depois do sucesso de "Que País É Este 1978/1987" (1987), o quarteto formado por Dado Villa-Lobos, Renato Russo, Marcelo Bonfá e Renato Rocha ficou sem material para a gravação de um próximo trabalho. Obviamente, isso era um problema. Sempre é difícil começar do zero, ainda mais depois de um álbum tão forte musicalmente como o anterior. Com essa preocupação, veio mais uma no embalo. O baixista Renato Rocha não estava bem e pouco contribuiu no trabalho inicial de gestação do novo trabalho.


Rocha começou a faltar muito aos ensaios e, sem conseguir contribuir nem quando levava trabalho para casa, no interior do Rio de Janeiro, acabou sendo dispensado da banda. Sendo assim, o baixo ficou entre o vocalista Renato Russo e o guitarrista Dado Villa-Lobos. E com um bloqueio para escrever, chateado com a saída do baixista e ainda traumatizado com o quebra-quebra em Brasília durante um show no ano anterior, Renato pensou em acabar com o Legião Urbana. Foram literalmente meses travado sem conseguir alguma coisa boa o suficiente para entrar no disco.

Mas os acontecimentos na Capital Federal serviram para uma coisa: amansar o coração de Renato. As composições raivosas dos três primeiros discos, reflexo de anos de raiva reprimida, seriam substituídas por mensagens românticas. Mas como eles chegaram no disco se o compositor estava travado e o resto da banda esperava pacientemente as letras? Foi aí que entrou o trabalho de bastidor do produtor Mayrton Bahia.

Ele estava trabalhando como freelancer dentro da gravadora. Por conta de um problema de ego dos diretores, Mayrton precisou abrir mão do alto salário que recebia se quisesse continuar. Com isso, ele passou a receber metade do acordado no início dos trabalhos e metade no final. Mas sem letras para gravar e precisando administrar essa crise, o produtor ficou um ano sem receber nenhum centavo, vivendo apenas da primeira parte. Ele não poderia ter pegado outra banda enquanto isso? Não. Trabalhar com o Legião Urbana precisava de duas coisas: tempo e paciência. Ele teve jogo de cintura para lidar com tudo isso, fazendo o que dava para adiantar o máximo de trabalho possível.

Veja também:
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As coisas começaram a sair. Em um ritmo bem lento, mas começaram -- como diria um ótimo ditado: antes tarde do que mais tarde. Foi um ano de trabalho duro até chegar no início definitivo das gravações. E tudo isso foi conseguido com anuência da EMI, que não ousava pressionar ou atrapalhar as gravações. A confiança em saber na qualidade do trio e nas composições era suficiente para deixá-los em paz.

Lançado em outubro de 1989, o quarto disco do Legião Urbana chegou às lojas em vinil, fita cassete e CD. No segundo semestre de 1990, no auge do Plano Collor -- o congelamento de contas corrente, poupança e investimentos por 18 meses --, mais da metade do álbum havia virado sucesso nas rádios ("Há Tempos", "Pais e Filhos", "Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto", "Monte Castelo", "Meninos e Meninas" e "Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar"). "As Quatro Estações" foi muito bem recebido por fãs e críticos, sendo o primeiro trabalho do trio a chegar a 1 milhão de cópias sozinho.

* a base do texto foi o livro "Discobiografia Legionária", de Chris Fuscaldo 


Resenha de "As Quatro Estações"

O álbum abre com a balada "Há Tempos" em que há diversas referências literárias e cinematográficas -- dois dos três primeiros versos foram retirados de um livro e de um filme, respectivamente. A letra é muito melancólica e causa estranhamento ouvi-la, principalmente depois dos três primeiros discos. Soa uma mistura de maturidade com evolução musical. É uma canção bem amarrada,, curta e funciona muito bem na abertura.

Esse disco traz o clássico "Pais e Filhos", uma balada muito triste sobre suicídio -- palavras do próprio Renato Russo em um sermão que deu no "Programa Livre", no SBT, em 1994. O refrão é muito pesado (É preciso amar as pessoas/ Como se não houvesse amanhã/ Porque se você parar pra pensar/ Na verdade não há) e a letra em si é uma lição a várias gerações de pessoas: sejam compreensivos. Usar a metáfora entre pais e filhos foi brilhante para passar essa mensagem.


Única faixa em inglês de todo disco, "Feedback Song for a Dying Friend" é bem pesada na temática e, mesmo escrita em 1985, acabou sendo usada para homenagear Cazuza. O cantor estava muito debilitado por conta do vírus HIV e morreria em 1990. Outro sucesso do trabalho, "Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto" é outra balada melancólica sobre a vida e as pessoas, e como ele ainda alimentava chance de ver melhora nas coisas.

"Eu Era um Lobisomem Juvenil" é o nome de um filme lançado em 1957, mostrando todo catálogo de referências do compositor. É uma faixa com um arranjo muito mais complexo do que a fase inicial, mostrando como o trio estava avançando em escolhas de instrumentos e no próprio desenvolvimento pessoal. E "1965 (Duas Tribos)" é a mais política de todo disco ao fazer uma alusão ao período da ditadura miliar, recém-encerrado no Brasil, e certos acontecimentos ocorridos no período.



Também um sucesso nas rádios, "Monte Castelo" abre com uma passagem bíblica (Ainda que eu falasse/ A língua dos homens/ E falasse a língua dos anjos/ Sem amor eu nada seria) e passa para um trecho de um poema de Camões (O amor é o fogo que arde sem se ver/ É ferida que dói e não se sente/ É um contentamento descontente/ É dor que desatina sem doer). Esses dois trechos dividem a atenção na letra que exalta o amor de uma maneira quase religiosa.

Se "Maurício" soa uma declaração de amor a alguma de suas muitas paixões, "Meninos e Meninas" fala abertamente sobre o fato de ser bissexual. Especialmente nessa canção, o andamento é muito simples e fácil de acompanhar pelo ouvindo, gerando uma incrível facilidade em começar a cantar junto quase automaticamente. "Sete Cidades" e "Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar" fecham o disco, sendo a segunda finalizada com um trecho de uma oração (Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo / Tende piedade de nós / Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo/ Tende piedade de nós / Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo / Dai-nos a paz).

Um dos discos mais importantes de 1989, "As Quatro Estações" mostrou maturidade e experiência musical do trio. Com mais vontade de avançar, eles precisaram ter paciência para ver o trabalho, enfim, sendo lançado. Mas valeu a pena. Aqui, definitivamente, se consolidou o Legião Urbana que os fãs aprenderam a amar.



Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Há Tempos" (3:17)
2 - "Pais e Filhos" (5:08)
3 - "Feedback Song for a Dying Friend" (5:25)
4 - "Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto" (3:13)
5 - "Eu Era um Lobisomem Juvenil" (6:45)
6 - "1965 (Duas Tribos)" (3:44)
7 - "Monte Castelo" (3:50)
8 - "Maurício" (3:17)
9 - "Meninos e Meninas" (3:23)
10 - "Sete Cidades" (3:25)
11 - "Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar" (4:56)

Todas as letras foram escritas por Renato Russo

Gravadora: EMI-Odeon
Produção: Mayrton Bahia
Duração: 46min27

Dado Villa-Lobos: guitarra, violão, baixo e bandolim
Renato Russo: vocal, baixo, guitarra, violão, gaita e teclados
Marcelo Bonfá: bateria, gaita, bass drum e percussão



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