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sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Discos para história: Angela Ro Ro, de Angela Ro Ro (1979)


História do disco

No último rescaldo de uma música popular brasileira que prezava pela qualidade em detrimento do ritmo industrial, o primeiro álbum de Angela Ro Ro conseguia mostrar isso ao aliar perfeitamente as letras de tom extremamente pessoais da cantora com arranjos esplendorosos da banda que a acompanhava. Ela, como muitas de sua geração, começou muito cedo na música.

Angela Maria Diniz Gonçalves nasceu no Rio de Janeiro em 1949 e iniciou o estudo em música aos cinco anos, quando aprendeu a tocar piano. Disso, rapidamente ela conseguiu aprender a tocar outros instrumentos e rapidamente se destacou. Ainda na adolescência, ganhou o apelido Ro Ro por conta da voz rouca característica que carrega até os dias de hoje.

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Ela se mudou para Londres no início dos anos 1970, quando a ditadura apertava ainda mais as rédeas na censura às obras e na repressão a quem ousasse se rebelar. A primeira gravação em que participou foi em terras britânicas, quando tocou gaita em "Nostalgia", de Caetano Veloso, presente no disco "Transa" (1972), mas não chegou a viver só de música. Lá trabalhou de faxineira e garçonete.

A cantora retornaria ao Brasil em 1974 para iniciar a carreira de intérprete nas famosas casas noturnas no Rio. De Ella Fitzgerald até Maysa, o repertório era amplo. Pela postura no palco e a voz mais grossa, foi inevitável ser comparada com a compositora de "Meu Mundo Caiu". O sucesso como cantora e compositora do próprio material viria na participação do festival de rock Som, Sol e Surf, organizado pelo jornalista e produtor musical Nelson Motta em Saquarema.

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Mas só faria a estreia no primeiro disco solo em 1979, quando foi convidada pelo produtor Paulinho Lima para lançar um LP pela gravadora Polydor. Definitivamente, foi seu grande ano. Começando pelo sucesso da faixa "Agito e Uso" na interpretação das Frenéticas com arranjo de Lincoln Olivetti. Depois Marina Lima e Ney Matogrosso gravaram uma versão cada para "Não Há Cabeça", e o segundo ainda gravaria no mesmo ano "Balada da Arrasada".

Ela estreou nas rádios com "Tola Foi Você", mas foi com "Amor, Meu Grande Amor" que cravou seu nome na história da música brasileira como uma das melhores canções românticas já lançadas por aqui. O primeiro álbum é uma das melhores estreias de uma cantora e também é um dos melhores discos brasileiros dos anos 1970. Mais de 40 anos após o lançamento, ainda é um marco e tanto na carreira da cantora.


Resenha de "Angela Ro Ro"

Um dos elementos impecáveis desse LP é o arranjo das músicas. Variando entre o blues e o jazz, é fundamental para acompanhar as ótimas letras de Angela Ro Ro. Esse é o tipo de disco que, após ouvi-lo, você ficará com cheio de cigarro e uísque o dia inteiro. "Mas eu nem fumo, nem bebo", dirão alguns. Não importa. Ao dar play, isso vem de maneira automática na cabeça sem ao menos pestanejar. "Cheirando A Amor", faixa inicial, mostra bem esse tom. E a voz, funcionando como uma narradora, casa muito bem com tudo isso.

O álbum carrega uma carga dramática muito forte ao longo de quase 40 minutos. "Gota De Sangue" mostra bem isso em uma faixa que poderia estar na trilha de qualquer seriado americano tranquilamente, mas é em "Tola Foi Você" que podemos ouvir a cantora fazendo um desabafo enorme após o fim de um relacionamento. De novo, o arranjo casa tão bem com tudo que só mostra como os músicos de estúdio daquela época eram especiais.


Uma declaração para tristeza é o mote da linda "Não Há Cabeça". E essa em especial soa muito como uma música que Maysa teria no repertório. Depois surge "Amor, Meu Grande Amor", provavelmente um dos grandes hinos românticos da música brasileira. Se você tem mais de 25 anos, você já deve ter ouvido essa música em algum lugar -- rádio ou em alguma novela. Digo com total tranquilidade: ela está, e precisa estar, entre as 100 melhores músicas gravadas em português no Brasil. O lado A encerra com "Me Acalmo Danando" e o bonito solo no piano na parte final.

O lado B abre com "Agito E Uso", uma faixa bem ao estilo cabaré -- animada e bem dançante. Outra grande canção desse álbum é "Mares Da Espanha", em especial serve para mostrar o talento da cantora em contar boas histórias que dariam um filme ou uma série. O lado mais animado retorna em "Minha Mãezinha", mais uma faixa dançante.



Não sei se é sobre ela mesma ou outra pessoa, porém "Balada Da Arrasada" é muito pesada ao retratar a realidade de alguém completamente perdida na vida entregue. E se "A Mim E A Mais Ninguém" é uma bonita carta de amor a todos que amou, "Abre O Coração" encerra o trabalho com uma das melhores e subvalorizadas canções do álbum.

Esse álbum conseguiu mostrar todo talento de uma cantora que só foi lançar seu trabalho de estreia aos 30 anos. Mas a maturidade e experiência foram boas coisas para ela, que não titubeou em apostar em ótimas letras e em arranjos sensacionais. É um dos melhores álbuns de 1979, sem dúvida.



Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Cheirando A Amor" (2:42)
2 - "Gota De Sangue" (2:25)
3 - "Tola Foi Você" (2:37)
4 - "Não Há Cabeça" (3:50)
5 - "Amor, Meu Grande Amor" (3:16) (Ana Terra e Angela Ro Ro)
6 - "Me Acalmo Danando" (3:15)

1 - "Agito E Uso" (2:36)
2 - "Mares Da Espanha" (3:15)
3 - "Minha Mãezinha" (2:26)
4 - "Balada Da Arrasada" (2:46)
5 - "A Mim E A Mais Ninguém" (3:05) (Angela Ro Ro e Sergio Bandeira)
6 - "Abre O Coração" (3:53)

Todas as canções foram escritas por Angela Ro Ro, exceto as marcadas

Gravadora: Polydor
Produção: Paulinho Lima e Ricardo Cantaluppi
Duração: 36 minutos

Angela Ro Ro: vocais e arranjos

Convidados:

Antônio Adolfo: piano e teclado
Jamil Joanes: baixo
Roberto Silva e Téo: bateria
Rick: guitarra
Zé Carlos: saxofone
Niltinho: trompete



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