quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Discos para história: Chaos A.D., do Sepultura (1993)


Quinto álbum mudou para sempre o patamar o grupo

História do disco

Dá para falar com total tranquilidade que o Sepultura é a banda brasileira mais internacional de sua geração. De Minas Gerais para o mundo, eles entraram em um mercado muito difícil – o do metal – e estão para sempre na história. Até hoje, mesmo sem os irmãos Cavalera, o grupo é adorado nos Estados Unidos e na Europa, lotando shows em turnês e em festivais.

Claro que tudo teve um passado. Tirando os dois primeiros discos, gravados praticamente em um esquema quase amador, “Beneath the Remains” (1989) e “Arise” (1991) já vieram em um esquema melhor e com gravadora internacional para lançamentos fora do Brasil. E mais do que isso, são dois discos que encaminharam o som da banda, que, até então, usava a base metal de maneira geral. O acréscimo do thrash e do death metal – dois subgêneros que surgiram mais ou menos na mesma época – deram outra cara ao Sepultura. Mas eles viriam com mais. E mudariam de patamar.

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Para fazer isso, o produtor Andy Wallace levou a banda para Phoenix, no Arizona, para escrever as letras do futuro novo disco. E, para sair da rotina, eles gravaram o disco no País de Gales, no Rockfield Studios, local onde Wallace ajudou a refinar o que eles haviam feito e começou a trabalhar em arranjos para dar força às faixas. Lá nasceria "Kaiowas", por exemplo.

"Eu pensei que seria legal gravar em um antigo castelo galês e foi", disse Max Cavalera ao site 'Revolver' em 2017. "Andy fez isso acontecer. Ele colocou todos os equipamentos e cabos lá dentro. E o lugar onde gravamos não tinha teto, então quando a música começa – quando você está com fones de ouvido bem alto – você pode ouvir todas aquelas gaivotas do caralho voando", contou.

“Chaos A.D.” serviu como um divisor de águas na carreira banda, já que eles conseguiram assinar com a Epic, gravadora que também tinha o Pearl Jam e o Rage Against the Machine. E também foi um divisor na sonoridade. As letras estavam ficando cada vez mais politizadas e as melodias estavam saindo no espectro do metal para acrescentar outras coisas na sonoridade, coisas bem brasileiras que seriam o diferencial do Sepultura no auge da popularidade.

Veja também:
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"Mesmo em ‘Arise’, ainda estávamos escrevendo letras que eram muito heavy metal, muito baseadas em fantasia. Mas [com o ‘Chaos A.D.’] começamos a nos tornar mais sociais e políticos", contou o guitarrista Andreas Kisser ao site ‘Metal Hammer’ em 2004.

Lançado em 19 de outubro de 1993, “Chaos A.D.” foi o salto necessário para carreira do Sepultura decolar de vez. A partir disso, a banda entraria no hall dos grupos mais importantes de heavy metal de seu tempo.


Resenha de “Chaos A.D”

"Refuse/Resist" começa com os batimentos do então filho que Max Cavalera estava esperando. À medida em que a faixa avança mais, podemos ver a força de Iggor – inspirado na percussão brasileira – e o peso da guitarra de Andreas. Além disso, o peso político da letra é notório, principalmente quando lembramos que o massacre no Carandiru aconteceu um ano antes da gravação do disco.

Esse peso todo é um bom aquecimento para o restante do disco, que continua em "Territory". A segunda faixa é mais thrash do que a anterior para falar sobre efeitos do ódio e discriminação do mundo – é de 1993, mas segue bem atual. Se "Slave New World" é muito thrash metal ao começar muito acelerada e, depois, seguir uma linha até o final e ganhar um riff absurdo de guitarra, "Amen" soa uma continuação para amarrar tudo.



"Kaiowas" começa praticamente silenciosa. Iniciada de fato perto de um minuto, ela tem tons muito próprios, soando quase uma catarse coletiva em estúdio de uma banda que, enfim, estava colocando suas raízes na música. É tão bonita que emociona. O peso retorna com tudo – mesmo – em "Propaganda", um recado para quem acredita em tudo que vê e ouve por aí – de novo, uma faixa que cabe muito bem neste corrente ano da graça de 2018. Composta por Jello Biafra, "Biotech Is Godzilla" foi inspirada na conferência Rio-92, a que definiu alguns rumos no combate ao aquecimento global. Veloz, a faixa coube bem no disco.

Dá para saber quando uma faixa foi composta por Kisser quando a guitarra tem muito destaque. Caso de "Nomad", outra letra política que fala sobre grupos à margem da sociedade, já "We Who Are Not as Others" falam sobre povos que acabam perdendo suas culturas no momento em que ficam invisíveis perante governos e a maioria da população – o peso dela é um absurdo.



"Manifest" segue a linha do início do álbum para protestar diante da truculência, só que ainda mais brutal e feroz. É como se só resistir não adiantasse, é preciso ação para mostrar o descontentamento com o sistema. A parte final apresenta "The Hunt", cover do New Model Army, e "Clenched Fist", essa com um tom mais industrial e de letra nada leve.

Esse disco do Sepultura merece um lugar especial na discografia da banda. As bases para o que virou a banda nasceram aqui, já que todos os integrantes estavam no auge físico e técnico. E o disco seguinte seria ainda melhor e mais marcante, mas não seria nada se não fosse “Chaos A.D.”.



Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Refuse/Resist" (Max Cavalera) (3:20)
2 - "Territory" (Andreas Kisser) (4:47)
3 - "Slave New World" (Evan Seinfeld e Max Cavalera) (2:55)
4 - "Amen" (Max Cavalera) (4:27)
5 - "Kaiowas" (Sepultura) (3:43)
6 - "Propaganda" (Max Cavalera) (3:33)
7 - "Biotech Is Godzilla" (Jello Biafra) (1:52)
8 - "Nomad" (Andreas Kisser) (4:59)
9 - "We Who Are Not as Others" (Max Cavalera) (3:42)
10 - "Manifest" (Max Cavalera) (4:49)
11 - "The Hunt" (New Model Army cover) (Justin Sullivan e Robert Heaton) (3:59)
12 - "Clenched Fist" (Max Cavalera) (4:58)

Gravadora: Roadrunner/Epic
Produção: Andy Wallace
Duração: 47min04s

Max Cavalera: vocal e guitarras
Igor Cavalera: bateria e percussão
Paulo Jr.: baixo e tom-tom
Andreas Kisser: guitarras e viola de 12 cordas



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