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sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Discos para história: Love and Theft, de Bob Dylan (2001)


História do disco

Praticamente todos os nomes de sucesso surgidos entre o início de 1960 e o início de 1970 sofreram um bocado quando os anos 1980. Era tudo novo, tecnológico, cheio de sintetizadores e cabelos estranhos. Não ajudava muito, como no caso de Bob Dylan, lançar um disco de estúdio pior do que o outro. Enfim, parecia ser o fim para muitos deles. Estavam condenados a viver das glórias de uma juventude cada vez mais distante.

Mas Dylan ainda perseverava. Primeiro com "Biograph", um box lançado em 1985 com o resumo de uma carreira inteiro. Algumas pessoas relembraram de como ele era bom. Depois veio "Oh Mercy", de 1989, o melhor disco daquela leva que ninguém sentiria falta se boa parte parasse no lixo. Para entrar na década seguinte, ele e a Columbia aproveitariam o sucesso da primeira coletânea para iniciar a "The Bootleg Series", trabalho com faixas raras, demos, takes inéditos e versões ao vivo de canções encontradas apenas através de pirataria.

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Os anos 1990 foram irregulares, musicalmente falando, com discos de covers e um MTV Unplugged. Dylan empilhou três álbuns em quatro anos e quase ninguém consegue entregar um material 100% bom em pouco tempo. Quando parou, respirou e resolveu trabalhar em canções inéditas, surgiu "Time Out of Mind", de 1997, um dos melhores álbuns da extensa discografia.

Mas o lançamento quase foi comprometido por um sério problema cardíaco que tirou Dylan da turnê de divulgação por alguns dias. Perto de completar 60 anos, sendo 40 dele só de carreira, algumas coisas precisaram ser revistas na vida. Muitos pensavam que, pela reclusão após um acidente de moto no final dos anos 1960, ele não faria mais shows e demoraria muito para entrar em um estúdio novamente.

Bem, não foi o que aconteceu.

Até a chegada do novo século, "Time Out of Mind" ganhou o peso de papel chamado Grammy de Álbum do Ano, "Things Have Changed", canção presente na trilha sonora de "Garotos Incríveis" (2000), levou o Oscar de Canção Original em 2001 e a Never Ending Tour estava mais ativa do que nunca. Mas pessoas pareciam querer presenteá-lo com prêmios e honrarias antes de um possível adeus.

A doença pareceu motivá-lo a continuar e a pesquisar ainda mais a música americana, de onde já havia tido inspirações e "inspirações" (leia-se roubo descarado) de canções e histórias. Quando resolveu gravar o novo disco de inéditas com a banda da turnê pela primeira vez, o cheiro de algo interessante estava pairando no ar assim que o trabalho começou.

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As sessões de "Love and Theft" foram gravadas sob absoluto sigilo e ninguém pôde falar quem estava no estúdio, motivo do agendamento do local e outras coisas. A vontade e sem pressão, os músicos contaram, anos depois, de assistirem um Dylan relaxado e altamente produtivo diariamente. Parecia querer fazer algo diferente, algo representativo para ele e para toda história da música americana dos últimos 100 anos. E fez.

Lançado em 11 de setembro de 2001, "Love and Theft" é considerado um dos marcos mais importantes da carreira de Dylan por simbolizar o segundo auge, momento em que ele usou blues, country e jazz para incrementar ainda mais o repertório dos recém-completados 40 anos de carreira e mostrar o fôlego de um jovem senhor de 60 anos.

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Resenha de "Love and Theft"

Bob Dylan sempre "pegou emprestado" referências musicais de diversos artistas e estilos desde sempre. Mas ele escancara isso em "Love and Theft" ao abrir com "Tweedle Dee & Tweedle Dum", uma canção tradicional americana, sem compositor, em que ele dá um toque especial e a deixa bem animada.

Uma das melhores canções do trabalho é a balada "Mississippi". Composta para o álbum anterior, a faixa não ficou boa o suficiente para ser incluída a tempo. Dylan chegou a dar para Sheryl Crow gravá-la e parecia estar fadada a entrar em algum especial ou coisa do tipo. Mas ele estava altamente produtivo nas sessões do novo trabalho e resolveu trabalhá-la mais uma vez. E ficou uma maravilha.

Aí ele emenda uma sequência com uma homenagem aos standards dos anos 1940 com a dançante "Summer Days" e a lenta "Bye and Bye", dois exemplos de como é impossível reduzir um ritmo ou gênero a apenas uma canção específica. E ainda vem "Lonesome Day Blues", momento em que Dylan mostra que também é uma pessoa do blues.

Um dos "empréstimos" mais famosos é em "Floater (Too Much to Ask)", quando usou versos do livro "Confessions of a Yakuza", de Junichi Saga, lançado em 1991. Podem até reclamar e não gostar, mas Dylan sabe como poucos transformar um material alheio em algo próprio. E ele retorna ao blues para homenagear Charley Patton na bonita "High Water (For Charley Patton)".

A melhor do trabalho chega na agitada "Honest with Me". É difícil descrevê-la, só sei que é apaixonante desde sempre ouvi-lo cantar sobre um personagem bem cafajeste ao melhor estilo dos filmes dos anos 1940. O final chega com a bonita "Po' Boy", a potente "Cry a While" e encerra com a versão de Dylan para "Sugar Baby", de Nathaniel Shilkret e Gene Austin, com novos versos.

Muito pensaram que Bob Dylan estava acabado na década de 1980 e quase o enterraram em 1990, momento em que ressurgiu. Mas foi nos anos 2000 que ele se renovou e provou estar pronto para atrair multidões novamente. "Love and Theft" mostrou ao mundo que a criatividade não morre.

Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Tweedle Dee & Tweedle Dum" (4:46)
2 - "Mississippi" (5:21)
3 - "Summer Days" (4:52)
4 - "Bye and Bye" (3:16)
5 - "Lonesome Day Blues" (6:05)
6 - "Floater (Too Much to Ask)" (5:00)
7 - "High Water (For Charley Patton)" (4:04)
8 - "Moonlight" (3:23)
9 - "Honest with Me" (5:50)
10 - "Po' Boy" (3:04)
11 - "Cry a While" (5:04)
12 - "Sugar Baby" (6:40)

Gravadora: Columbia
Produção: Jack Frost (pseudonimo de Bob Dylan)
Duração: 57min25s

Bob Dylan: vocal, guitarra e piano
Larry Campbell: guitarra, banjo, bandolim e violino
Charlie Sexton: guitarra
Augie Meyers: acordeão, órgão Hammon B3 e órgão Vox
Tony Garnier: baixo
David Kemper: bateria
Clay Meyers: bongô

Equipe técnica

Chris Shaw: engenheiro de som

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