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sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Discos para história: Blue Lines, do Massive Attack (1991)


História do disco

"O disco que mudou tudo", "o futuro do pop", "álbum icônico" e "o trabalho que previu a música moderna" são alguns dos títulos de matérias, textos especiais e mais sobre "Blue Line", do Massive Attack, que celebra 30 anos em 2021. Mas como um único disco mudou o mundo?  Para começar a contar a história do grupo, é bom falar sobre a onda de imigrantes que chegou no Reino Unido em meados dos anos 1940 e se intensificou nas décadas seguintes. A imensa maioria vinha das ex-colônias britânicas na Ásia, Africa e América Central e acabaram se concentrando em determinadas regiões.

Um desses lugares era Bristol e uma quantidade imensa de trabalho pesado esperando para quem chegava com vontade de trabalhar para construir uma nova vida para a família — que havia ficado ou estava com o trabalhador imigrante. Em lugares assim, não é incomum acontecer uma efervescência cultural, principalmente quando a primeira geração de filhos cresce e começa a buscar a própria identidade ao misturar a cultura dos pais com a dos amigos.

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A cidade acabou crescendo artisticamente ao longo dos anos e, nos anos 1980, o grafite foi a primeira manifestação dessa geração, que usava as paredes dos bairros onde moravam para falar sobre a própria situação — um estilo boêmio, sem dinheiro e com poucas oportunidades em outras áreas. Robert Del Naja, o 3D, explica o motivo de a geração ter encontrado um ponto em comum entre a arte e a música, e fala que a "culpa" de todo mundo ter se encontrado não é exatamente a existência de um movimento artístico e cultural organizado.

"Todos crescemos ouvindo música punk e funk, e essas atitudes meio que se infiltraram em nossa música. Isso meio que uniu pessoas de diferentes círculos e, talvez, não fosse tão 'caldeirão cultural' quanto parece, mas é porque Bristol é um lugar bem pequeno, então é mais fácil todo mundo estar mais focado", explicou.

Um dos primeiros sucessos da cena underground foi o coletivo musical Wild Bunch, emergido pelos fiéis fãs na esteira da chegada do hip-hop aos olhos e ouvidos dos adolescentes e jovens adultos. Del Naja, Andrew "Mushroom" Vowles e Grant "Daddy G" eram parte da equipe do sistema de som do grupo, um sucesso nas festas de rua e nas boates pela cidade.

Foi apenas em 1998 que o interesse por música do trio cresceu ao ponto de fundarem um projeto musical. Nascia o Massive Attack. O problema que eles não tinham o menor foco e simplesmente iam fazendo as coisas conforme a própria vontade. Isso é ótimo em determinados momentos, mas não é bom quando você é descoberto por uma gravadora e assina um contrato para seis discos de estúdio. Algo precisa acontecer. E rápido.

A cantora Neneh Cherry teve papel fundamental no grupo ao descobri-los como também influenciou, ao lado do marido, o produtor Cameron McVey, a gravadora Virgin a contratá-los. Em resumo: ambos haviam colocado a própria reputação em risco pelo Massive Attack. E McVey seria fundamental em ajudar o trio a refinar as músicas de "Blue Lines", o primeiro álbum.

"Éramos idiotas preguiçosos de Bristol. Foi Neneh [Cherry] quem chutou nossas bundas e nos colocou no estúdio. Gravamos muito na casa e no quarto do filho pequeno dela. O que estávamos tentando fazer era criar música para a cabeça ao invés dos pés", contou Daddy G, ao 'The Guardian', em 2012.

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Outra pessoa fundamental, agora no estúdio, foi o produtor Jonathan Peter Sharp. Ainda em 1990, ele chega com ideias e soube explorar, desde o início, o talento musical do trio, que contava sempre  com muita gente para gravar uma música. O Massive Attack mais parecia uma versão 2.0 Wild Bunch.

Lançado em 8 de abril de 1991, "Blue Lines" foi um sucesso no Reino Unido ao chegar na 13ª posição da parada. Considerado inovador, o trabalho parece ser de algum artista de 2021, não de 1991. Moderno e feito por várias mãos ao longo de vários meses, o disco de estreia do Massive Attack antecipou várias tendências da música pop dos dias atuais. Isso não é pouca coisa.

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Resenha de "Blue Lines"

O baixo da abertura de "Safe from Harm" já é suficiente para fazer qualquer um querer ouvir o álbum até o final, mas aí surge a delicada voz de Shara Nelson para fazer da canção um marco na história do trip hop — termo inventado apenas em 1994, três anos após o lançamento do álbum.

"One Love" soa muito como qualquer canção que Prince também faria, mas o acréscimo do scratch e do sax faz toda diferença, enquanto a melancólica faixa-título ganha muito por apostar na suavidade dos instrumentos e dos samplers.

O Massive Attack discute vários assuntos como consumismo em "Be Thankful for What You've Got", hit de 1974, e usa o reggae para falar sobre a vida nos anos 1980 em "Five Man Army". Mas é em "Unfinished Sympathy" o grande momento da banda. Apoiados por um conjunto de cordas com 40 integrantes, eles fazem da canção uma das melhores produções dos anos 1990. A sexta faixa do álbum tem força, estilo, presença e pouco precisa fazer para ganhar destaque.

O primeiro single do álbum, "Daydreaming", também foi a demo que levou a banda a assinar um contrato com a gravadora. E essa mistura de hip-hop para falar sobre como era ser jovem na época do governo da primeira-ministra Margaret Thatcher fez deles um sucesso por conseguir representar uma parte considerável da juventude da época.

E é difícil não achar que "Lately" não é uma continuação direta, só que mais íntima e romântica. A última canção do disco, "Hymn of the Big Wheel", é, pelo menos oficialmente, a primeira que é 100% original e não contém nenhum sampler. Foi quando eles começaram a falar sobre o mundo de maneira mais abrangente, algo que perdurou ao longo da discografia.

Esse álbum acaba com uma certeza: o Massive Attack é um dos melhores grupos dos anos 1990. Ao antecipar tendências e fazer do álbum de estreia um grande experimento musical aberto e criativo, eles mostravam que a música era algo para ser misturado, não isolado em gêneros específicos.

Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Safe from Harm" (Grantley Marshall / Andrew Vowles / Robert Del Naja / Shara Nelson / William Cobham) (5:18)
2 - "One Love" (Marshall / Vowles / Del Naja / C.J. Williams / Horace Andy) (4:48)
3 - "Blue Lines" (Marshall / Vowles / Del Naja / Adrian Thaws) (4:21)
4 - "Be Thankful for What You've Got" (William DeVaughn) (4:09)
5 - "Five Man Army" (Marshall / Vowles / Del Naja / Thaws / Claude Williams) (6:04)
6 - "Unfinished Sympathy" (Marshall / Vowles / Del Naja / Jonathan Sharp / Nelson) (5:08)
7 - "Daydreaming" (Marshall / Vowles / Del Naja / Wally Badarou / Thaws) (4:14)
8 - "Lately" (Marshall / Vowles / Del Naja / Nelson / Gus Redmond / Larry Brownlee / Jeffrey Simon / Fred E. Simon) (4:26)
9 - "Hymn of the Big Wheel" (Marshall / Vowles / Del Naja / Neneh Cherry / Andy) (6:36)

Gravadora: Wild Bunch / Virgin
Produção: Massive Attack / Jonny Dollar
Duração: 45min04s

Shara Nelson: vocais nas faixas 1, 6, e 8
Horace Andy: vocais nas faixas 2, 5 e 9
Massive Attack: vocais nas faixas 3, 5 e 7
Paul Johnson: baixo na faixa 3
Tony Bryan: vocal na faixa 4
Wil Malone: arranjo de cordas e condução da orquestra faixa 6
Gavyn Wright: maestro da orquestra na faixa 6
Neneh Cherry: arranjos adicionais na faixa 9
Mikey General: vocal de apoio na faixa 9

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