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sexta-feira, 16 de abril de 2021

Discos para história: Samba 808, de Wado (2011)


História do disco

Wado é um dos grandes nomes da música independente e trilha um caminho dos mais interessantes de acompanhar, principalmente o do início da segunda década dos anos 2000. Um dos discos mais especiais da discografia dele é "Samba 808", um dos melhores discos de 2011 ao conseguir unir diversas referências brasileiras no trabalho. Além da qualidade musical, os convidados são um brilho a mais nas composições, já que cada um coloca seu próprio ritmo e torna o material muito único e especial.

Em entrevista ao 'Urban Taste', do UOL, em 2019, Wado relembrou o álbum, falou das conquistas que teve com a boa repercussão do trabalho e como tudo isso o motivou a seguir.

"Eu sou muito orgulhoso e muito feliz das coisas que eu construí. Os amigos que eu fiz de profissão, gente que eu admiro e que acabou virando amiga e me admira também, como o Chico César, o Marcelo Camelo, a Mallu [Magalhães], o Zeca Baleiro, o próprio Kassin. Uma turma que trabalhou comigo, de quem eu já era fã e que acabou que me admiram também", disse.

"Para mim, é muito legal. Foi além do que eu imaginava que fosse ser. Mas, ao mesmo tempo que tem isso, tem essa questão de que está difícil de viver [...] Mas estou com esse otimismo de seguir adiante", completou.

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Uma das coisas fundamentais do álbum era que, pela primeira vez, Wado disponibilizava o álbum gratuitamente para download no site que mantém até hoje -- inclusive, baixei de novo o álbum para pegar a ficha técnica e as imagens da capa e da contracapa. Os serviços de streaming ainda estavam engatinhando, a indústria musical ainda se recuperava do baque financeiro e da perda de prestígio do início dos anos 2000. Ninguém sabia direito o que aconteceria com a música. Seria gratuita? Seria para poucos? Um modelo híbrido? Existiam muitas ideias e discussões sobre o assunto, e ainda existem, mas tudo era tão distante quanto um filme de ficção cientifica poderia imaginar.

O modelo de download gratuito era uma tentativa válida de ampliar e fazer o público ouvir o disco para motivá-lo o suficiente a ponto de ir aos shows, essa, sim, a verdadeira fonte de renda dos artistas após a queda brutal de receita das vendas de discos. Wado não só entrou com tudo, como mantém a base até hoje. Todos os álbuns dele estão disponíveis no site oficial do músico para download e também estão nos serviços de streaming, hoje uma realidade mais do que natural na vida de quem gosta de música.

Para o site 'Scream & Yell', em entrevista para Bruno Capelas, o músico contou como foi trabalhar com parceiros musicais tão diversos em "Samba 808" -- o álbum começa com uma canção com Zeca Baleiro e termina em outra com participação de André Abujamra.

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"O 'Samba 808' tem essa coisa quase de ser um 'Wado Convida', que nem aqueles discos da Ivete Sangalo ou do Zeca Pagodinho (risos). O 'Vazio' [Tropical, disco seguinte, de 2013] não, pois são pessoas que estavam compondo comigo que também estavam no estúdio, me emprestando instrumentos, me ajudando a fazer as coisas mesmo", contou.

Wado lançou outros trabalhos e segue carreira de forma muito bonita, mas "Samba 808" é muito especial por vários motivos. Mas o principal deles é a qualidade do disco, que ainda segue muito bom uma década depois do lançamento.


Resenha de "Samba 808"

Ao abrir com "Si próprio", faixa com participação do cantor Zeca Baleiro, Wado mostra certa versatilidade em uma faixa leve, bem suave no andamento e um dos sucessos do álbum. Logo depois surge "Esqueleto", canção que pode, sim, ser considerado um samba. Curta e bem repetitiva, é bem fácil de decorar e de assoviar as partes instrumentais -- um mérito e tanto.

Uma grande canção do repertório é "Surdos de escola de samba" em que a participação de Chico César abrilhanta muito a letra. Aliás, ele é um dos músicos brasileiros mais subestimados e merece mais carinho e atenção não só por parte da crítica, mas também do público. O trabalho dá uma virada para algo mais eletrônico com "Com a ponta dos dedos", em que a participação do casal Mallu Magalhães e Marcelo Camelo deixa a música melancólica ainda mais bonita.

A última faixa da primeira metade, "Portas são para conter ou deixar passar", também é a primeira de três canções em que Wado assina sozinho. Mas, calma, Fernando Anitelli, do Teatro Mágico, aparece para fazer uma dupla e seguir a linha de trabalho "Wado & Amigos". E é justamente logo após essa faixa que vem as três em que o músico está solo. A primeira é a poética "Recompensa", a segunda é potente "Não para" e a última é a experimental "Vai ver". Todas diferentes entre si e muito boas, um mérito gigantesco.

"Jornada" e "Beira-mar" são duas faixas bem dançantes que funcionam muito bem para arrematar o trabalho, com destaque para a última, momento em que Wado e a banda parecem mais soltos e felizes com o resultado feito até ali.

"Samba 808" traz uma homenagem ao grande ritmo brasileiro e ao número do sintetizador mais famoso do mundo, mas é muito mais do que isso ao misturar todo gênero, do pop aos ritmos paraenses, para fazer do álbum uma celebração do Brasil. E tudo funciona muito bem no que é, talvez, o melhor trabalho da carreira de Wado.

Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Si próprio" (feat. Zeca Baleiro) (Dinho Zampier, Wado e Zeca Baleiro)
2 - "Esqueleto" (feat. Curumin) (Aldo Jones, Juninho Sonic e Wado)
3 - "Surdos de escola de samba" (feat. Chico César) (Wado e Chico César)
4 - "Com a ponta dos dedos" (feat. Mallu Magalhães e Marcelo Camelo) (Glauber Xavier e Wado)
5 - "Portas são para conter ou deixar passar" (feat. Fernando Anitelli) (Wado)
6 - "Recompensa" (Alvinho Lancellotti e Marcelo Frota)
7 - "Não para" (Wado)
8 - "Vai ver" (Vitor Peixoto e Wado)
9 - "Jornada" (feat. Fabio Góes) (Dinho Zampier e Fabio Góes e Wado)
10 - "Beira-mar" (feat. André Abujamra e Alvinho Lancellotti) (Alvinho Lancellotti, André Abujamra e Wado)

Gravadora: Tratore
Produção: Wado e Pedro Ivo Eusébio
Duração: 32min38s

Wado: voz e guitarra
Dinho Zampier: órgão, voz, vibes, clavinet, piano, cordas, mellotron e sintetizadores
Bruno Rodrigues: cavaco, baixo e voz
Rodrigo Peixe: bateria e voz
Pedro Ivo Euzébio: voz, bateria, tr808 e sintetizadores
Vitor Pixoto: guitarra e voz
Alvinho Lancellotti: voz
Marcelo Frota: voz
Cris Braun: vocalize
Marcelo Frota: guitarra
Fernando Anitelli: voz
Jan Aline: voz e vocal synth
Alvinho Lancellotti: voz
André Abujamra: voz, guitarra e programação
Rodrigo Peixe: voz Luciano Rasta: percussão

Convidados:

Zeca Baleiro: voz
Curumim: voz
Chico César: voz
Marcelo Camelo: voz e assobio
Mallu Magalhães: voz
Fábio Góes: voz

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